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PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

RECEBER UM DIAGNÓSTICO DE TDAH PODE PREJUDICAR A PERFORMANCE ACADÊMICA?

RECEBER UM DIAGNÓSTICO DE TDAH PODE PREJUDICAR A PERFORMANCE ACADÊMICA?

O diagnóstico de doenças -tanto físicas como mentais- além de influenciar no tratamento e prognóstico, possui um impacto psicológico no paciente. Comparando-se afecções físicas e mentais, esse impacto pode ser muito maior nos transtornos psiquiátricos, seja pelo estigma social ou por serem doenças com potencial de influenciar diversos aspectos da vida.

Recentemente, foi publicado um estudo sobre os efeitos do diagnóstico de TDAH em crianças no Sociology of Education. Os resultados levantam uma questão interessante: a intensidade dos sintomas antes do diagnóstico pode estar associada ao ajustamento após o mesmo. No estudo, as crianças que tinham sintomas menos graves de TDAH antes do diagnóstico que usaram medicação ou não tinham ajustamento de comportamento social e acadêmico pós diagnóstico pior do que as crianças sem TDAH. Já as crianças com sintomas mais graves de TDAH antes do diagnóstico que usaram medicação tiveram um ajustamento pós-diagnóstico similar ao das crianças sem diagnóstico. Os autores do estudo interpretaram os achados como sinalizando que o diagnóstico e tratamento teve um efeito deletério em crianças com TDAH mais leve, diferentemente dos casos de TDAH com sintomas mais intensos.

Alguns pesquisadores teorizam que crianças com TDAH em idade escolar demonstram consciência das diferenças entre elas e os outros, fazendo com que elas inconscientemente diminuam sua performance em medidas sociais e acadêmicas em comparação com seus colegas, ao mesmo tempo em que a medicação poderia reforçar essa diferença de percepção.

Outros estudos também sugerem o impacto do rótulo na avaliação dos estudantes pelos professores. Mesmo quando apresentados com descrições hipotéticas sobre estudantes, os professores tendiam a avaliar a inteligência, o comportamento e a personalidade dos estudantes com TDAH desfavoravelmente em relação com seus colegas.

O estudo publicado no Sociology of Education analisou dados longitudinais de cerca de 10.000 estudantes de ensino fundamental dos Estados Unidos. Os dados, retirados da Early Childhood Longitudinal Study-Kindergarten Cohort (ECLS-K), foram coletados entre 1998 a 2008 pelo National Center for Education Statistics. Esses dados permitiram que pesquisadores observassem os efeitos a longo prazo do diagnóstico de TDAH e da medicação na performance acadêmica e social das crianças.

Contudo, os dados do ECLS-K possuem várias limitações. Todos os dados sobre TDAH provém de apenas três perguntas feitas aos pais sobre o diagnóstico entre a primeira e terceira séries do ensino fundamental, ou seja, nenhuma avaliação diagnóstica foi feita. A pergunta sobre uso de medicação foi feita apenas sobre uso corrente. Portanto, se naquele período, os pais reportaram que seus filhos não faziam uso de medicação, o ECLS-K computou que eles nunca fizeram uso de medicação, mesmo que tenham feito uso anteriormente ou que viessem a fazer uso depois. Isso pode ter feito com que as conclusões desses estudos sobre o impacto do uso de medicação na aprendizagem tenham sido enviesadas. Além disso, não houve avaliação da dosagem, aderência e o tempo de tratamento do TDAH, fatores que podem contribuir na performance. Sabe-se, por exemplo, que pais de crianças com sintomas mais graves de TDAH tendem a manter de forma mais consistente o tratamento medicamentoso de seus filhos, o que poderia resultar nos melhores resultados para esse grupo vistos no estudo. Pais de crianças com sintomas de TDAH mais leve aderem pior, o que pode determinar pior ajustamento futuro de seus filhos pelo uso inadequado do tratamento.

“Nós precisamos de um estudo de acompanhamento longo, com controles -não apenas estudantes não diagnosticados- que acompanhe os participantes dos 7 aos 18 anos”, disse o Dr Atih Amanda Seif, psiquiatra de crianças e adolescentes de Los Angeles, “uma vez que muitos estudantes não demonstram sintomas de TDAH até a adolescência”. Além disso, ao focar em melhorias em testes padronizados “estamos focados em medidas que podem mascarar outras melhorias que os estudantes experienciam ao tomar medicação para os seus sintomas de TDAH”.

Apesar das falhas potenciais nesses estudos, esses achados nos lembram a importância de se levar em consideração as percepções e o estigma envolvendo o TDAH e os problemas de comportamento ou aprendizado. Eles também apontam para o estresse dos pais e professores e para a estrutura dos sistemas de ensino que se baseia fortemente em testes padronizados.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.neurologyadvisor.com/topics/neurobehavioral-disorders/adhd-diagnosis-effect-on-academic-performance/

 

 

 

 

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VIDEOGAME PARA O TRATAMENTO DO TDAH É APROVADO PELO FDA

VIDEOGAME PARA O TRATAMENTO DO TDAH É APROVADO PELO FDA

Recentemente o FDA (Food and Drug Administration- organização responsável pela aprovação de tratamentos médicos nos Estados Unidos) aprovou o primeiro videogame capaz de ser usado como tratamento para problemas de saúde.

O EndeavorRX (AKL-T01), jogo produzido pela Akili Interactive, é um jogo mobile que foi autorizado para o tratamento de crianças com TDAH entre 8-12 anos de idade. Essa é uma decisão tomada após 7 anos de estudos para analisar a eficácia do vídeo-game.

Um desses estudos, um ensaio clínico randomizado, publicado no The Lancet Digital Health esse ano, avaliou 857 crianças entre 15 de julho de 2016 e 30 de novembro de 2017. Os pacientes foram randomizados em dois grupos, um de intervenção com o jogo AKL-T01 e outro de grupo controle. A intervenção no grupo controle foi desenhada para parear o AKL-T01 em expectativa, engajamento e tempo de jogo na forma de um jogo digital, que tinha como alvo domínios cognitivos diferentes do AKL-T01 e não associados primariamente ao TDAH.

A intervenção com o AKL-T01 melhorou significativamente a performance numa medida objetiva de atenção, um teste computacional de atenção (TOVA API), em crianças com TDAH em comparação com o grupo controle. Desfechos secundários como medidas de atenção feitas por pais e médicos não encontraram diferenças entre os grupos. Por conta disso, os pais não devem necessariamente esperar grandes mudanças no comportamento dos filhos.

Efeitos adversos foram encontrados em um número muito pequeno de pacientes (7% no grupo intervenção e 2% no grupo controle). Os mais comuns foram: frustração, dor de cabeça, tontura, reação emocional ou agressão.

Contudo, como os especialistas alertam, não é recomendado que o tratamento habitual do TDAH – medicação e terapia comportamental- seja descontinuado. O vídeo-game seria apenas um adicional, não um substituto.

De acordo com um porta-voz da empresa, o jogo foi aprovado apenas para ser usado 5 dias por semana por até 25 min por dia. É necessário ter prescrição médica e atualmente é preciso se cadastrar em uma lista de espera no site do jogo para adquiri-lo.

Como os pesquisadores escrevem, o AKL-T01 pode ser adicionado ao tratamento habitual com poucos riscos e a natureza digital da intervenção pode ajudar a diminuir a barreira encontrada no acesso das diferentes formas de tratamento comportamental e outras terapias não medicamentosas.

Comentário do Professor Luis Augusto Rohde (PRODAH/HCPA/UFRGS):
Vários outros jogos envolvendo treinamento cognitivo foram testados em TDAH. Os resultados considerados centrais nos estudos prévios foram mudanças em sintomas de TDAH relatados por pais e/ou professores. Vários desses jogos mostraram melhora de funções cognitivas associadas ao TDAH, mas com pouca melhora nos sintomas do transtorno. O mesmo ocorreu com esse novo videogame. A diferença é que os autores promoveram os testes cognitivos a desfechos centrais a serem avaliados e passaram os sintomas do TDAH relatados para desfechos secundários. Assim, mesmo chegando a resultados similares aos de estudos anteriores, puderam dizer que a intervenção foi eficaz para o que consideraram central. Fica a pergunta: Como pais, o que buscam no tratamento do TDAH de seus filhos? Melhora de uma função cognitiva num teste computadorizado ou dos sintomas percebidos no dia a dia? Se a resposta é a segunda, o vídeogame não se mostrou a solução.

Referências:
– A novel digital intervention for actively reducing severity of paediatric ADHD (STARS-ADHD): a randomised controlled trial Prof Scott H Kollins, PhD, Denton J DeLoss, PhD, Elena Cañadas, PhD, Jacqueline Lutz, PhD, Prof Robert L Findling, MD, Prof Richard S E Keefe, PhD et al.
DOI:https://doi.org/10.1016/S2589-7500(20)30017-0
Link: https://www.thelancet.com/journals/landig/article/PIIS2589-7500%2820%2930017-0/fulltext#articleInformation
https://abcnews.go.com/GMA/Wellness/video-game-approved-fda-potentially-children-adhd/story?id=71340522
https://www.theverge.com/2020/6/15/21292267/fda-adhd-video-game-prescription-endeavor-rx-akl-t01-project-evo

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COMO CONVERSAR COM MEMBROS DA FAMÍLIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DO SEU FILHO?

COMO CONVERSAR COM MEMBROS DA FAMÍLIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DO SEU FILHO?

Muitas vezes, pais podem precisar de uma ajuda extra na hora de cuidar dos filhos. Seja durante as horas de trabalho, finais de semana ou feriados. Nesses momentos, além das creches ou babás, os pais também podem contar com a ajuda dos avós ou de outros membros da família. No caso de crianças com problemas de saúde mental ou de comportamento, é necessário que os cuidadores estejam orientados quanto aos desafios, os esquemas terapêuticos e a forma de lidar em diferentes situações.

Quando o assunto é saúde física ou emocional, a constância no tratamento é fundamental. Assim como ela é necessária em problemas como asma e diabetes, ela também é importante na depressão, ansiedade ou no TDAH. Apesar disso, nem sempre é claro para os pais que eles devem compartilhar as dificuldades psiquiátricas dos seus filhos com outros membros da família da mesma forma como é feito para outras condições médicas. Seja por conta do estigma, vergonha ou ausência de um plano de abordagem consistente.

A falta de consistência é uma das razões para que ocorra falha no tratamento. É necessário que haja consistência na abordagem entre os diferentes ambientes –como dentro de casa ou na escola- e entre os cuidadores. Isso ajuda na identificação de comportamentos negativos e no reforço e promoção dos comportamentos positivos.

Descrevemos abaixo algumas dicas que podem ajudar na orientação e no preparo dos avós ou de outros familiares que irão se responsabilizar pelo cuidado da criança:

  1. Entender os desafios

Conforme descreve o Dr. Stuart Ablon em seu modelo colaborativo de resolução de problemas, as crianças – independente da dificuldade- querem agradar seus pais, atender as expectativas e serem amadas e admiradas. Contudo, quando as crianças se comportam de forma opositora, desafiante, mal-humorada ou distanciada, é comum assumir que elas estejam agindo propositalmente, que estão escolhendo confrontar e agir contra as expectativas. Na maioria das vezes esse não é o caso; e agir conforme essa suposição pode dificultar as coisas. Quando as crianças não se comportam conforme o esperado, isso frequentemente se deve à falta de habilidade e não de vontade. As crianças tendem a se comportar bem se elas conseguem. De forma similar, crianças com problemas de saúde mental podem ter pouca habilidade para se comportar conforme as normas e é importante que nós achemos formas de ajudá-las. Esse é um conceito muito importante que deve ser trazido sempre à tona.

No caso de crianças com TDAH por exemplo, pode parecer que elas não estejam prestando atenção de proposito, ou que também estejam se negando a fazer aquilo que lhes foi solicitado. É preciso que esse comportamento seja explicado para evitar mal-entendidos.

  1. Romper o estigma de doenças mentais

Ainda que mitos sobre transtornos psiquiátricos derivem de crenças culturais, da falta de conscientização pública ou de um histórico de estigmatização, doenças de saúde mental estão entre as condições médicas mais comuns ao redor do mundo. Buscar fontes de informação junto do pediatra ou do psiquiatra, ler artigos sobre os desafios enfrentados por seu filho, podem ajudar na hora de explicar para os avós sobre o transtorno e a forma como ele pode se manifestar.

Além de os instruir quanto informações básicas ou orientá-los quanto a fontes confiáveis de informação, ajude-os a sentir empatia com seu filho. Explique que as dificuldades que seu filho apresenta não são culpa de ninguém- nem do seu filho, sua ou deles-. Oriente-os que existe tratamento e que os desfechos podem ser tão bons quanto tratar outros problemas de saúde física comuns, como enxaqueca, problemas gastrointestinais, etc.

  1. Empoderando cuidadores com o tratamento

Toda criança com um ou mais problemas de saúde mental deve ter um esquema terapêutico. Isso idealmente inclui alguma estruturação do dia (hora de acordar, de ir pra cama, hora de fazer os temas de casa, tempo de televisão), dose e hora de tomada da medicação, bem como abordagens terapêuticas que podem ser aprendidas (ex. terapia cognitivo comportamental, meditação). É importante também ter para quem ligar em situações de emergência, saber como lidar com emoções ou comportamentos desafiantes (como conversar, intervalos, tempo para ficar sozinho no quarto). Idealmente essas coisas devem estar escritas tanto para os pais quanto para quem for cuidar da criança (avós, professores) e até mesmo para a criança.

Uma vez que o esquema terapêutico esteja bem esclarecido, a chance de sucesso é maior e o risco de se desviar do esquema é diminuído.

  1. Esclarecer que todos somos parte do problema e da solução

Todas as doenças no geral, sejam físicas ou emocionais, tem bases biológicas, psicológicas e ambientais. Por conta disso, nós podemos ter controle sobre muitos fatores causadores ou agravantes do problema.

Crianças e adolescentes tendem a viver em ambientes complexos, cheios de desafios, e ambos os pais ou avós podem ajudar a suavizar ou exacerbar o estresse que afeta o transtorno ou dificuldade da criança.

Se nós aceitarmos isso, podemos fazer duas coisas. Primeiro, nos tornamos responsáveis pelo nosso comportamento e nos vermos como agentes de mudança. Segundo, isso nos faz dividir a responsabilidade do problema, nos abstendo da tendência de ver a criança como “o problema”.

Rótulos negativos tem poder imenso e são muito danosos. Muitas crianças que sofrem de problemas de saúde mental lidam com baixa autoestima. Elas sofrem com sentimentos de inadequação, fracasso, medo de rejeição, o que pode fazer com que elas se vejam como debilitadas e culpadas, fazendo-as incorporar essas visões negativas na sua identidade.

Esse é uma das razões importantes que diferencia doenças de saúde mental de doenças físicas. É raro uma doença de origem física como hipertensão, diabetes ou asma gerar rótulos para a  criança de “deficiente”. Nós podemos fazer melhor por elas e redefinir o conceito de saúde mental, começando por conversar abertamente com nossa família e comunidade.

  1. Explicar o que funciona para cada criança ou irmão

Toda criança ou adolescente é diferente e assim também são os problemas de ordem mental. Além disso, algumas crianças podem ter mais de um transtorno. O TDAH por exemplo frequentemente vem associado com depressão, ou ansiedade. Cuidadores precisam entender o que cada transtorno é e como ele se manifesta no seu filho. Pode ocorrer ainda de mais de uma criança na família sofrer com problemas de saúde mental, fazendo com que os cuidadores tenham de entender mais de um esquema terapêutico.

Também precisamos levar em conta como o problema de saúde mental de uma criança pode afetar o outro irmão que também precisa de atenção. É normal que se foque mais na criança com comportamentos mais desafiadores, porém isso pode fazer com que a outra criança se sinta excluída e até ressentida.

Para cada criança, é preciso levar em conta a sua personalidade: algumas crianças são mais passivas e isoladas enquanto outras são mais irritáveis e agressivas. Esses traços devem ser considerados na hora do cuidado. Os pais são especialistas em seus filhos e podem dar aos avós ou cuidadores dicas valiosas. Como por exemplo:

Algumas crianças podem ter dificuldade de seguir cronogramas e podem precisar de avisos ou alarmes para começar a próxima tarefa.

Se a criança se negar a fazer determinada tarefa, como o tema de casa ou desligar a TV, o que pode ajudar?

Quando você der alguma medicação, quanto tempo leva para ela fazer efeito?

  1. Encorajar a participação dos cuidadores na conversa

Certamente há muito o que dizer para membros da família para que eles entendam as dificuldades de saúde mental do seu filho. A melhor forma de fazer isso é se os cuidadores tiverem uma participação ativa na conversa.

Encoraje-os a fazer perguntas. Você pode tranquiliza-los dizendo que isso já foi -ou talvez ainda seja- uma novidade para você também.  Eles podem ter dúvidas sobre como lidar em situações de colapso nervoso, quando usar recompensas ou punições, o quão rígidos devem ser e quando as regras podem sofrer exceções.

Assim como você faria com seu filho, considere conversar mais de uma vez com os avós ou cuidadores. Tente fazer com que o esforço de cuidado seja mutuo, observando o que cada um vê ou faz com a criança. Também é bom receber feedbacks das crianças. Reuniões em família podem ser úteis e não precisam ser formais. Às vezes é bom conversar durante o jantar ou no carro.

Cuidar de crianças e adolescentes é um esforço coletivo. As crianças se saem melhor quando sabem que todos estão trabalhando juntos para o bem-estar e saúde de todos.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychologytoday.com/us/blog/inside-out-outside-in/202005/how-talk-family-members-about-kids-mental-health

 

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APONTANDO A DIFERENÇA ENTRE DEMÊNCIA E TDAH EM ADULTOS MAIS VELHOS.

APONTANDO A DIFERENÇA ENTRE DEMÊNCIA E TDAH EM ADULTOS MAIS VELHOS.

Nós podemos pensar que um aumento do esquecimento na idade avançada é um sinal de alarme de declínio cognitivo ou demência. Contudo, parece que alguns dos sintomas cognitivos podem ser manifestações de outra condição crônica: o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Como Stephanie Collier – psiquiatra no hospital McLean- escreve, enquanto muitos de nós pensamos no TDAH como uma doença da infância, ele pode afetar adultos mais velhos. De fato, cerca de 3 em cada 100 adultos tem TDAH.

A pratica clínica e a pesquisa sobre TDAH têm aumentado: cada vez mais pessoas têm recebido diagnóstico e tratamento para o TDAH, e pesquisadores acreditam que o TDAH é uma das desordens mais herdáveis da medicina. Entretanto, por conta do TDAH ter sido mais compreendido nas últimas décadas, para muitos, ele passou despercebido, e a pesquisa e pratica clínica com adultos mais velhos com TDAH é ainda escassa.

“Pessoas mais velhas com TDAH que nunca foram diagnosticadas podem temer que estão desenvolvendo demência porque são distraídas e esquecidas”, disse Kathleen Nadeau, fundadora e diretora clínica do The Chesapeake Center ADHD,Learning and Behavioral Health.

Apesar disso, ela diz, é difícil encontrar médicos experientes: “muito poucos neurologistas tiveram algum treinamento sobre como reconhecer e diagnosticar o TDAH em adultos.”

E, devido aos sintomas se assemelharem aos da demência, declínio cognitivo leve ou envelhecimento normal, é preciso ter um olhar crítico e fazer uma análise cuidadosa para se diagnosticar corretamente adultos mais velhos com TDAH.

Procurando sinais de TDAH não diagnosticado em adultos

“Para distinguir o TDAH de alterações cognitivas relacionadas a idade é preciso entender que o TDAH é um transtorno da infância e adolescência que persiste na vida adulta”, disse Paul Goodman, professor assistente de psiquiatria e ciências do comportamento na Johns Hopkins University School of Medicine.

Para averiguar se os pacientes tiveram TDAH no início da vida, Goodman geralmente pergunta para seus pacientes sobre seus sintomas no ensino fundamental e no ensino médio, na faculdade ou no início da carreira de trabalho.

De acordo com J Russell Ramsay, professor associado de psicologia clínica na University of  Pennsylvania Perelman School of Medicine, os membros da família podem ajudar a relembrar a presença desses sintomas durante a vida de uma pessoa. Relatórios escolares também podem fornecer pistas.

As pessoas podem ter tido dificuldade de se concentrar nas aulas. Talvez elas tenham sido conhecidas como os “palhaços da turma”. Alguns podem não ter avançado os estudos tanto quanto queriam. Elas podem ter trocado de emprego frequentemente. No trabalho, as pessoas podem ter tido dificuldade em completar as tarefas com eficiência, falhando em seguir os cronogramas e trabalhando extra para compensar por sua procrastinação.

“O TDAH não aparece repentinamente quando você tem 75 anos”,disse Nadeau. “Para fazer o diagnóstico diferencial, você precisa colher informações de fontes confiáveis, pessoas que conhecem o paciente há muitos anos. ”

Segundo Ramsay, os médicos também podem diferenciar melhor se uma pessoa está apresentando sintomas de TDAH ao invés de outras condições perguntando sobre suas habilidades de auto-regulação – como ela maneja o tempo, organiza suas tarefas e se motiva para completar as atividades.

Algumas pessoas podem ter tido sintomas de TDAH muito leves para um diagnóstico formal, disse Nadeau, especialmente aquelas com um QI alto que podem ter sido capazes de compensar os problemas do TDAH. Entretanto, os sintomas das pessoas podem piorar conforme elas assumem tarefas mais complexas.

O vai e vem dos sintomas do TDAH

“Nós temos estereótipos de que pessoas com TDAH são todas hiperativas, são maus alunos e de que elas não chegam muito longe na vida”, disse Nadeau. “De fato essas pessoas existem, mas o TDAH aparece entre uma gama variada de habilidades”.

Nadeau tinha um paciente que era um estudante de sucesso com um diploma e mestrado em Harvard. Ao ser deparado com a tarefa difícil de completar sua dissertação para seu doutorado em filosofia, os seus sintomas de TDAH pioraram.

“Ele apenas não conseguia se organizar para fazer esse projeto longo”, disse Nadeau.

“O que nós observamos é que se as pessoas são espertas, moram em lares acolhedores e bem organizados e vão para escolas que não são terrivelmente desafiadoras para elas, elas podem ser estudantes notáveis. E mesmo assim elas têm TDAH, e o TDAH começa a se manifestar conforme a escola se torna mais demandante. ”

Os sintomas de TDAH também podem aflorar quando as pessoas perdem a estrutura de suas vidas. Em adultos com TDAH, isso pode ocorrer junto com a aposentadoria.

Muitos podem achar que o abandono da rotina diária de trabalho seja um grande ajuste, e para adultos com TDAH, isso pode fazer com que os sintomas apareçam. Esses sintomas podem causar dificuldades de sono e alimentação, o que por sua vez pode exacerbar ainda mais os sintomas. Adultos mais velhos com TDAH podem se sentir inquietos, inadequados socialmente, interrompendo outros durante conversas e falando impulsivamente. Eles podem apresentar também lapsos de memória.

Como Ramsay coloca: “Por mais que reclamemos da escola e do trabalho, eles dão estrutura para o nosso dia.”

Tratando o TDAH em adultos mais velhos

Estimulantes usados para o tratamento em crianças e adolescentes, como metilfenidato e dextroanfetamina, têm sido efetivos para tratar os sintomas em adultos mais velhos, de acordo com Goodman. “As pessoas mais velhas tendem a responder igualmente bem a essas medicações”, diz ele.

No geral, adultos mais velhos precisam de doses mais baixas de medicação. Para os seus pacientes, Goodman diz que ele iniciaria com uma dose baixa e aumentaria aos poucos conforme os sintomas clínicos. Os médicos também devem considerar os riscos cardíacos dessas medicações, incluindo aumento da frequência cardíaca e pressão sanguínea.

Mudanças de estilo de vida como alimentação saudável, bom sono e exercício regular também podem ser benéficas para pessoas com TDAH.

“Quando fazemos exercícios aeróbicos, nosso cérebro produz essa proteína chamada BDNF, que significa fator neurotrofico derivado do cérebro”, disse Nadeau. “O BDNF promove crescimento de novos neurônios no nosso cérebro o que melhora a memória. Eu sempre falo para os idosos com TDAH sobre como é importante se exercitar o suficiente para produzir uma frequência cardíaca de até 80% o máximo por pelo menos 20/30 min por dia.”

De acordo com Collier, exercício regular ajuda a impulsionar a dopamina, norepinefrina e serotonina no cérebro, potencialmente ajudando na atenção, enquanto a melhora do sono e da rotina de sono, pedir suporte da família ou de outros para criar estrutura e simplificar tarefas e criar lembretes para lembrar das atividades diárias podem ajudar a criar estrutura e diminuir os sintomas de TDAH.

Ramsay diz que a terapia cognitivo-comportamental – que tem sido efetiva em tratar depressão e ansiedade – pode também ser benéfica para pessoas com TDAH, especialmente para adultos mais velhos entrando na aposentadoria.

“ Se você suspeita que seus sintomas podem ser o resultado do TDAH, especialmente se algum membro próximo da família recebeu o diagnóstico,” escreve Collier, “não hesite em pedir para o médico generalista um encaminhamento para um especialista especializado no diagnóstico e manejo do TDAH e adultos mais velhos.”

Artigo adaptado e traduzido de https://www.beingpatient.com/adhd-in-older-adults/

Comentário da equipe do PRODAH:
A mensagem central da matéria de que o TDAH pode estar presente na terceira idade e que devemos avaliar a sua presença é fundamental. Como ilustração, a idade mais avançada para um diagnóstico na terceira idade feito pela equipe do PRODAH foi 82 anos. O paciente, hoje, aos 88 anos, está muito melhor com o tratamento implementado. Entretanto, algumas das considerações contidas na matéria são ainda especulativas. Por exemplo, não sabemos ao certo qual o grau de eficácia da terapia cognitiva comportamental em idosos com TDAH, ou por quais mecanismos neurobiológicos o exercício aeróbico parece melhorar a atenção. Por fim, na presença dos sintomas de disfunção executiva importantes na terceira idade sempre é prudente também termos uma avaliação por médico com experiência com os diversos tipos de demência.

O Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade (ProDAH) é uma área de atividades do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência e do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) dedicada ao ensino, pesquisa e atendimento a pacientes com o transtorno.
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ADESÃO A MEDICAMENTOS EM PACIENTES COM TDAH.

ADESÃO A MEDICAMENTOS EM PACIENTES COM TDAH.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma condição médica crônica comum, que afeta entre 6-9% das crianças e se estende até a vida adulta em até 60% dos casos. Dados de 2016 da população dos Estados Unidos mostraram que 9,4% das crianças entre 2-17 anos apresentava diagnóstico de TDAH. Mundialmente, a prevalência do TDAH é estimada em 4% e meninos tem entre 2 a 4 vezes mais chance de serem diagnosticados com TDAH do que meninas.

A abordagem do TDAH é multidisciplinar e inclui educação, psicoterapia e farmacoterapia, independentemente da idade. Entre crianças e adolescentes com TDAH, cerca de 2/3 recebem farmacoterapia e aproximadamente metade recebe psicoterapia. A terapia combinada com fármacos e atendimento psicológico é comum, mas não ocorre para todas as pessoas. Estima-se que 25% das pessoas permanecem sem tratamento.

Os medicamentos estimulantes como metilfenidato e derivados anfetamínicos são a base da terapia farmacológica e têm sido usados por mais de de 30 anos. Uma variedade de formulações dessas medicações está disponível no mercado: na forma de tabletes orais e capsulas. As capsulas e tabletes existem na forma de liberação imediata, que necessitam de 2 a 3 administrações diárias ou formulações de liberação lenta que podem ser tomadas 1 vez ao dia. Existem vários medicamentos não estimulantes, como atomoxetina, clonidina e guanfacina (apenas a clonidina disponível no Brasil). Os benefícios, riscos e perfis de segurança desses medicamentos são bem conhecidos.

Numerosos estudos têm demonstrado que estimulantes melhoram significativamente a atenção, a concentração, o comportamento, a memória visual de curto prazo e performance global no TDAH. Um parâmetro muito utilizado para avaliar a magnitude dos desfechos é o número necessário para tratar (NNT) que, quanto menor o número, mais eficaz é o tratamento. Por exemplo, um NNT de 1 significa que toda pessoa que receber o tratamento vai se beneficiar.

Em um estudo de Biederman et al, o NNT dos estimulantes foi estimado em “3” para prevenir desordens de comportamento disruptivo e reprovação de matérias na escola,  e em “4” para prevenir acidentes de veículos automotores. Esses achados comprovam que os estimulantes são efetivos em prevenir comportamentos disruptivos, impedir que uma criança reprove em uma matéria na escola e prevenir acidentes de transito comparado com o TDAH não tratado. Para adolescentes e adultos jovens, prevenir acidentes de transito pode ser de grande benefício para a saúde pública.

Infelizmente, a adesão pobre e a descontinuação prematura dos estimulantes continuam a ser um problema. Pappadopulos et al reportaram que as taxas de adesão em crianças com TDAH variava entre 56-75%, com mais de 50% delas descontinuando o tratamento apesar da eficácia. A acurácia de estudos de adesão depende da metodologia do estudo. Estudos de adesão com crianças tipicamente utilizam métodos que incluem prescrição e renovação de receita e o relato verbal dos pais. Esses métodos podem não representar a verdadeira adesão a medicação pelas crianças.

Em um estudo, a medição da concentração de biomarcadores na saliva para avaliar adesão foi comparada ao relato verbal dos pais. Todos os 254 participantes receberam metilfenidato por 14 meses.  Em cada visita mensal, os pacientes foram considerados aderentes se os pais referiam que a criança tomou 80% ou mais da medicação. Quatro amostras de saliva foram coletadas no 2, 6, 9 e 14º mês, para detecção dos níveis de metilfenidato na saliva.

Devido a variabilidade nas amostras de salivas obtidas por criança, os pacientes eram considerados aderentes se mais de 50% das amostras de saliva continham níveis detectáveis de metilfenidato. Os resultados dos níveis de medicação na saliva mostraram que 24,8% dos pacientes eram não-aderentes (até 50% das amostras de saliva sem detecção de medicamento) e 12,2% dos pacientes eram não-aderentes para todas as amostras. Apenas 53,5% dos pacientes eram aderentes em todas as 4 amostras de saliva. Portanto, de acordo com os resultados, o relato verbal dos pais pode superestimar a adesão e subestimar a não-adesão nos seus filhos.

Em um outro estudo, comparou-se o padrão de adesão em crianças com TDAH conforme o sexo, a gravidade do transtorno, status socioeconômico, entre outros fatores. Os dados foram coletados do Longitudinal Study of Australian Children (LSAC). Observou-se as prescrições de metilfenidato, dexamfetamina e atomoxetina entre maio de 2001 e março de 2015 em crianças acompanhadas continuamente com dados coletados a cada 2 anos. O tempo total de uso de medicação foi definido como o tempo entre a primeira e a última prescrição.

Os resultados mostraram que apenas metade (54%) tiveram um uso contínuo da medicação. Cerca de 21,6% tiveram uma interrupção e 25,4% tiveram duas ou mais interrupções no tratamento. A única variável capaz de predizer a cobertura medicamentosa foi o status socioeconômico. Um status socioeconômico mais elevado foi associado a um maior uso de medicação. Além disso, a cobertura medicamentosa tendia a ser maior no primeiro ano com queda progressiva até 3-4 anos e um aumento após 5 anos naqueles que permaneceram com uso de medicação depois desse período.

A análise de um grupo de crianças mostrou que a cobertura medicamentosa média era de 81% pelos primeiros 90 dias de uso e caia para 54% em diante após os 90 dias. Esse estudo sugere que os psiquiatras e outros profissionais de saúde devem frequentemente estimular pais e pacientes a manterem o tratamento por longos períodos. Além disso, aproximadamente 90% das crianças e adolescentes com TDAH responderam efetivamente a tanto o metilfenidato quanto a dexamfetamina.

Estudos diferentes, utilizando métodos de avaliação distintos, encontraram resultados semelhantes de não-adesão em aproximadamente 50% dos participantes. Muitos fatores podem contribuir para a não adesão, como o estigma, a explicação que os pais usam para o uso da medicação, estilo de vida, esquecimento, falta de tempo e status socioeconômico. Efeitos adversos e o uso concomitante de várias medicações podem também prejudicar a adesão. O monitoramento cuidadoso do uso de estimulantes e formulações de dose única diária podem ajudar a contornar esse problema.

Os guidelines atualizados para crianças e adolescentes com TDAH tem recomendações fortes sobre o uso de medicação em crianças maiores de 6 anos. Existem muitas áreas em aberto para pesquisa no desenvolvimento de métodos que facilitem a adesão, como o próprio uso de Apps como o FOCUS. Os estimulantes fornecem vários benefícios importantes comprovados no TDAH e todo o esforço deveria ser feito para minimizar a não-adesão.

 

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychiatrictimes.com/adhd/adherence-challenges-medications-patients-adhd

Referências:
-Efron D, Mulraney M, Sciberras E, et al. Patterns of long-term ADHD medication use in Australian children. Arch Dis Child. Epub ahead of print: (21, March 2020). https://adc.bmj.com/content/early/2020/01/14/archdischild-2019-317997

 

 

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O QUE A CIÊNCIA SABE SOBRE O USO DE NEUROFEEDBACK NO TRATAMENTO DO TDAH

O QUE A CIÊNCIA SABE SOBRE O USO DE NEUROFEEDBACK NO TRATAMENTO DO TDAH

O neurofeedback é uma modalidade terapêutica que utiliza como estratégia a auto-regulação de padrões de atividade cerebral. A atividade cerebral é observada através de parâmetros do eletroencefalograma (EEG), obtido com a disposição de eletrodos em certos pontos da cabeça do paciente. Esses parâmetros são então apresentados ao paciente através de estímulos visuais, auditivos ou tácteis de forma que o paciente voluntariamente altere esses parâmetros em direção a um padrão desejado.

Essa terapia se baseia no princípio de neuroplasticidade cerebral e na capacidade de exames como EEG de registrarem a atividade do cérebro. Boa parte dos protocolos de neurofeedback objetivam suprimir padrões indesejáveis observados no EEG ou aumentar a expressão de padrões desejáveis, o que pode ser alcançado através de treinamento. A forma como os eletrodos são dispostos e os parâmetros de EEG avaliados variam, dependendo do objetivo da terapia.

Apesar do racional teórico, as evidências sobre o uso do neurofeedback no TDAH são conflitantes. Uma meta analise de 13 estudos publicada por Cortese et al  em 2016 no American Academy of Child and Adolescent Psychiatry não encontrou evidências que sustentassem seu uso. Os pesquisadores afirmaram que quando os dados eram analisados selecionando-se apenas desfechos cegados (i.e., avaliação de parâmetros de resposta pelos pesquisadores sem saber se o paciente era do grupo do neurofeedback ou do grupo controle) ou grupos controle de alta qualidade, os efeitos do tratamento deixavam de ser significativos.

Eles escreveram que o tipo de protocolo de neurofeedback implementado nos ensaios clínicos também não parecia ter importância na determinação do desfecho. Existem algumas definições de protocolos padrão que consideram parâmetros de EEG, a montagem do EEG, numero de sessões, etc. Ao todo, foram encontrados apenas 3 ensaios clínicos que utilizaram o protocolo padrão e que cegaram a avaliação dos desfechos. A análise desses dados mostrou uma melhora de 20% nos sintomas de desatenção, contudo, os resultados também não foram estatisticamente significativos.

Os resultados dessa meta-analise foram limitados pela qualidade dos estudos avaliados, como ressaltam os próprios pesquisadores. Muitos estudos apresentavam cegamento incompleto ou duvidoso.

Uma segunda meta-analise mais recente de Van Doren at al publicada em 2018 European Child & Adolescent Psychiatry encontrou benefícios clínicos sustentados do tratamento com neurofeedback após 6-12 meses de seguimento. Esse estudo avaliou os efeitos nos sintomas de TDAH imediatamente após o tratamento e após um período de 2-12 meses. Foi encontrado uma melhora significativa nos sintomas de desatenção e hiperatividade-impulsividade.

Apesar disso, a possibilidade de efeito placebo na melhora observada com o neurofeedback não pôde ser totalmente descartada. Os efeitos do NF foram maiores que os encontrados no grupo controle que não recebeu tratamento, contudo, os pesquisadores afirmam que ensaios clínicos com grupos controle que mimetizem bem o tratamento de neurofeedback são necessários.

Mesmo com o grande volume de pesquisas, o neurofeedback continua a ser uma abordagem terapêutica no TDAH com evidências controversas sobre a sua eficácia, apesar de ser um método aparentemente seguro. Inúmeras limitações foram encontradas nos estudos produzidos até o momento, ao mesmo tempo em que alguns estudos não encontraram resultados estatisticamente significativos. É necessária uma maior padronização dos protocolos utilizados nos diferentes estudos, bem como metodologias com cegamento adequado e grupos controles que descartem melhor a possibilidade de efeito placebo.

 

Referências:
Van Doren, J., Arns, M., Heinrich, H. et al. Sustained effects of neurofeedback in ADHD: a systematic review and meta-analysis. Eur Child Adolesc Psychiatry 28, 293–305 (2019). https://doi.org/10.1007/s00787-018-1121-4
– Cortese S1, Ferrin M2, Brandeis D3, Holtmann M4, Aggensteiner P5, Daley D6, Santosh P7, Simonoff E7, Stevenson J8, Stringaris A7, Sonuga-Barke EJ9; European ADHD Guidelines Group (EAGG).Neurofeedback for Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: Meta-Analysis of Clinical and Neuropsychological Outcomes From Randomized Controlled Trials
J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2016 Jun;55(6):444-55. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2016.03.007
– Neurofeedback: https://www.sciencedirect.com/topics/neuroscience/neurofeedback

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EXCESSO DE MEDICAÇÃO PARA TDAH? Novas Estatísticas Apontam O Contrário Na Inglaterra… E No Brasil?

EXCESSO DE MEDICAÇÃO PARA TDAH? Novas estatísticas apontam o contrário na Inglaterra… E No Brasil?

Poucas crianças estão recebendo tratamento adequado para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) na Inglaterra, especialmente meninas.

O jornal The Guardian divulgou1 dados que contrariam o senso comum da população, de que medicações para o TDAH estariam sendo prescritas em demasia pelos médicos.

Os números, pedidos especificamente pelo jornal através do Freedom of Information Act, apontam que, entre 2017 e 2018, 61 mil meninos entre 6 e 17 anos tomaram medicamentos para o transtorno naquele país – algo como 1,5% dos meninos nesta idade. Contudo, o número médio de crianças diagnosticadas com TDAH no mundo é de 5,3%.2

Os números obtidos pelo The Guardian afirmam que a quantidade de meninas que receberam a prescrição é menor: 0,35% das garotas entre 6 e 17 anos tomaram medicações. Ainda, das quase 75 mil crianças que receberam prescrição de remédios para TDAH na Inglaterra, naquele período, apenas 18% eram meninas.

Apesar de estudos em crianças tipicamente mostrarem uma preponderância masculina no TDAH, acredita-se que este predomínio seja resultado de subdiagnóstico nas garotas, devido aos diferentes sintomas sofridos pelas meninas, argumenta o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) em seu guia Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management3.

Tony Lloyd, chefe-executivo da ADHD Foundation afirma que eles reconhecem que o transtorno é subdiagnosticado e submedicado na Inglaterra. Lloyd acrescenta que, no passado, garotos eram mais comumente enviados aos médicos, porque eram eles que geravam problemas em sala de aula.

“Isso ocorria por causa da hiperatividade”, disse Lloyd. Uma década atrás, a relação de casos de TDAH era de quatro meninos para cada menina. Atualmente, com uma compreensão mais precisa de como o transtorno age nas meninas, a relação caiu para 2,8 meninos para cada menina, explica ele ao The Guardian.

Mas, os números de crianças recebendo medicamentos ainda é baixo, concluiu Lloyd. “Eu só consigo explicar isso através da combinação de estigmas e poucos recursos sobre a saúde mental das crianças. As listas de espera para os tratamentos também colaboram e podem levar de um a dois anos para que a criança receba alguma ajuda.”

No Brasil, a situação não é muito diferente.

Luis Augusto Rohde, Coordenador-Geral do Programa de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) do Hospital de Clinicas de Porto Alegre, afirma que, também no Brasil, não erramos pelo excesso, mas sim pela falta de diagnósticos4.

“Em termos de saúde pública, não existe no Brasil problema de superdiagnóstico e supertratamento”, diz o médico especialista em psiquiatria da infância e adolescência. O Brasil tem 47 milhões de crianças e adolescentes de 6 a 18 anos; uma média de 5% deles teria o transtorno, explica Rohde. Isso seria 2,35 milhões de crianças. “Não temos mais do que 100 mil crianças usando a medicação”, estima o especialista.

O psiquiatra Guilherme Polanczyk, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, diz que as questões de saúde mental são subdiagnosticadas em qualquer país do mundo.

Mas, a situação é ainda mais frequente em crianças. “O reconhecimento de problemas mentais em crianças é recente, vem da década de 50 do século passado. Em todo o mundo, o número de profissionais treinados e especializados em psiquiatria infantil ainda é reduzido. Consequentemente, ainda há poucos serviços públicos e privados capazes de acolhê-las. Aliado aos preconceitos e estigmas, o resultado é que muitas vezes, quem não tem TDAH é diagnosticado com o problema; e quem tem pode ficar anos sem tratamento correto”, esclarece o psiquiatra.

1 TOO FEW CHILDREN RECEIVING TREATMENT FOR ADHD, FIGURES SUGGEST. THE GUARDIAN. Disponível em: https://www.theguardian.com/society/2018/oct/05/too-few-children-receiving-treatment-for-adhd-figures-suggest . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

2 MATTOS P et al., 2012. ADHD is undertreated in Brazil. Rev. Bras. Psiquiatr. vol.34 no.4 São Paulo Dec. 2012. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbp.2012.04.002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462012000400023 . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

3 ATTENTION DEFICIT HYPERACTIVITY DISORDER: DIAGNOSIS AND MANAGEMENT. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng87/resources/attention-deficit-hyperactivity-disorder-diagnosis-and-management-pdf-1837699732933 . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

4 A ERA DA DESATENÇÃO. FOLHA DE SÃO PAULO. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il3005201004.htm . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

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CAFEÍNA E TDAH: Devo Evitar Ou Tormar?

CAFEÍNA E TDAH: Devo evitar ou tormar?

Pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm diferenças químicas e físicas no cérebro1, que podem levar a uma variedade de sintomas, como falta de atenção hiperatividade e impulsividade. Para controlar estes sintomas, o tratamento mais comum é a prescrição de medicações estimulantes. Estes medicamentos são comprovadamente capazes de melhorar o foco, a atenção e o comportamento impulsivo.

A partir disso, o raciocínio lógico seria: se estimulantes ajudam em tudo isso, tomarei mais café, o mais consumido estimulante no mundo, certo?

Não necessariamente.

Alguns estudos analisaram o efeito da cafeína nos sintomas de TDAH, mas os resultados foram conflitantes. Mesmo que a cafeína seja um estimulante, não é geralmente recomendada como um tratamento para o TDAH, porque não há provas científicas de sua eficiência.

– Os efeitos da cafeína são muito mais intensos e rápidos do que os efeitos da medicação.
– O poder da cafeína vai diminuindo ao longo do tempo e quantidades mais altas de café seriam necessárias para obter o mesmo resultado.
– É preciso manter em mente que muitos alimentos e bebidas têm variadas quantidades de cafeína. Entre o consumo de café, chá ou chocolate, como você conseguiria estipular a quantidade de estimulantes que consumiu durante o dia? Missão quase impossível, o que é um tanto quanto arriscado quando falamos em termos de tratamento.2

Como funcionam os estimulantes?

Estimulantes, incluindo a cafeína, aumentam a quantidade de químicos utilizados pelo seu cérebro para enviar sinais. Um destes é a dopamina, que está relacionada ao prazer, à atenção e ao movimento – e cujos níveis no cérebro do paciente com TDAH são mais baixos.

Por isso, quando você é diagnosticado com TDAH, os médicos frequentemente prescrevem estimulantes para que você fique mais tranquilo e focado. Alguns pesquisadores acreditam que o café teria o mesmo poder, já que a cafeína do chá é capaz de melhorar o estado de alerta e a concentração.3

Cafeína com medicação

Quando você combina cafeína com medicação estimulante, você tem o chamado efeito sinérgico. A sinergia acontece quando duas drogas têm mecanismos de ação aditivos, tornando seu efeito mais poderoso – o que não é necessariamente bom. A cafeína pode tornar a medicação mais eficiente sim, mas os efeitos colaterais podem ser maiores.

Para algumas pessoas, a cafeína pode colaborar no ajuste dos níveis de dopamina. Para outras, adicionar mais estimulantes à dieta pode elevar demais os níveis de dopamina, gerando agitação, ansiedade, dores de cabeça, irritabilidade, insônia etc.4
O que nos leva à grande cautela que você, pai ou mãe, precisa ter:

Cafeína para crianças?

Especialistas não recomendam a ingestão de cafeína por crianças, especialmente se estão tomando medicação para o TDAH. Crianças são mais vulneráveis aos efeitos colaterais da cafeína, que também pode afetar o desenvolvimento cerebral na fase de crescimento.

Crianças com TDAH, geralmente, têm mais problemas para dormir e para se manterem alertas durante o dia. A cafeína será uma inimiga nesta questão, potencializando ambos os problemas.

Usar a cafeína durante o tratamento do TDAH é algo que apenas o seu médico pode avaliar. De acordo com a The Academy of Nutrition and Dietetics, a maioria das crianças já consome cafeína em excesso, através dos refrigerantes. Uma lata de Coca-Cola, de 350ml, tem aproximadamente 35mg de cafeína.2

O Governo Brasileiro não estipulou um limite diário para o consumo da substância, tampouco o norte-americano. Os dados que utilizamos no Brasil vieram do Governo do Canadá, que determina os seguintes valores: 45mg diárias para crianças entre 4 e 6 anos, 62mg para crianças entre 7 e 9 anos, 85mg para crianças entre 10 e 12 anos.5

Não vamos esquecer, é claro, das altas doses de açúcar nos refrigerantes – uma única lata, com seus 40g de açúcar, já excede o limite diário até dos adultos.

1 NEUROBIOLOGY. SHIRE ADHD INSTITUTE. Disponível em: https://adhd-institute.com/burden-of-adhd/aetiology/neurobiology/ . Acesso em: 27 de setembro de 2018.

2 WHAT EFFECT DOES CAFFEINE HAVE ON PEOPLE WITH ADHD?. MEDICAL NEWS TODAY. Disponível em: https://www.medicalnewstoday.com/articles/315169.php . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

3 CAFFEINE AND ADHD. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/adhd-caffeine . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

4 HOW DOES CAFFEINE AFFECT ADHD?. HEALTHLINE. Disponível em: https://www.healthline.com/health/adhd/caffeine . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

5 CAFÉ: OS LIMITES E OS RISCOS DE CONSUMIR EM EXCESSO. ÉPOCA. Disponível em: https://epoca.globo.com/saude/check-up/noticia/2017/06/cafe-os-limites-e-os-riscos-de-consumir-em-excesso.html . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

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MEU FILHO FOI DIAGNOSTCADO COM TDAH: é Culpa Minha?

MEU FILHO FOI DIAGNOSTCADO COM TDAH: é culpa minha?

Se seu filho tem TDAH, você pode pensar, mesmo que ocasionalmente, que suas capacidades como mãe ou pai têm algo a ver com o diagnóstico. Duas boas notícias com relação a isso:

1 – Você não está sozinho nesta interrogação
Uma recente votação realizada pelo Hospital da Universidade de Michigan apontou que quase dois terços das mães, com filhos entre 0 e 5 anos, se sentem culpadas por suas supostas incapacidades maternas. As questões que mais afligiam estas mães eram disciplina, dieta e sono.1 Então, não é difícil imaginar que pais e mães possam se sentir vulneráveis à culpa quando o filho é diagnosticado com TDAH.

2 – Sua culpa não tem evidência científica alguma.
TDAH é uma desordem médica, não causada pelos pais ou pela crescente velocidade do mundo contemporâneo. A influência genética do TDAH tem sido comprovada em graus similares ao de características físicas, como a altura: se duas pessoas altas com TDAH colocam seu filho recém-nascido para adoção, é muito provável que a criança se desenvolva alta e com TDAH. Ou seja, a causa não é a sua capacidade educacional.

Mesmo que não haja uma causa comprovada até o momento, os cientistas já sabem que diversos fatores podem influenciar o diagnóstico, incluindo muitos que estão fora do alcance dos pais, como genes e baixo peso no nascimento.2

O TDAH não afeta apenas a atenção, mas como também a parte do cérebro responsável pela autorregulação e senso de administração como um todo. Indivíduos com TDAH podem passar por desafios na escola, no trabalho e nos relacionamentos sociais. Estudos relacionam TDAH com acidentes de carro, obesidade, problemas para dormir e muitas outras questões cotidianas – não apenas em casa.

Família e TDAH

Mas, um lar caótico pode ou não pode agravar os sintomas?

Claro, assim como um ambiente tranquilo e agradável pode fazer bem aos portadores de TDAH ou para qualquer pessoa. Contudo, no que toca o uso de televisão, videogames, disciplina demais (ou de menos), fique tranquilo: não foi você que “criou” o TDAH em seu filho.

Bem, seu lar não desenvolveu o TDAH na criança, mas pode sim ser um fator decisivo no tratamento do seu filho. Aliás, um dos melhores presentes que você pode dar à criança é um casamento feliz. Isso é especialmente verdade se você tiver mais de um filho com TDAH ou se eles estiverem tendo problemas na hora de fazer amizades.

O desafio do casamento

Casais com filhos portadores do transtorno têm quase o dobro de chances de se divorciarem, em comparação a casais com filhos sem TDAH. Um estudo publicado em 2008 apontou uma razão simples, mas com um elevado grau de dificuldade na solução: ter uma criança com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade na família pode ser altamente estressante e elevar o número e a intensidade dos conflitos, tensões e discussões entre os pais.3

O divórcio não é inevitável de forma alguma (apesar das estatísticas), mas os pais precisam manter em mente que os desafios do casal serão maiores e que, para ajudar seu filho com TDAH, será necessário não apenas acompanhar a criança, mas como também o próprio casamento.

Converse com os médicos e terapeutas de seu filho sobre profissionais, grupos de apoio e associações capazes de lhe ajudar com o treinamento para pais. Estes projetos podem colaborar no aprendizado de fatores importantes, como estabelecer metas objetivas, expectativas consistentes e limites possíveis, encontrar as melhores maneiras para ensinar disciplina e ajudar a criança a aprender com os próprios erros.4

A criação de estrutura é outra questão crucial para qualquer família, mas, no caso do TDAH, a importância é ainda maior.
– Siga rituais simples para o horário das refeições, para ir para a escola, para fazer as tarefas escolares, para chegar em casa.
– Crie um espaço tranquilo e agradável para o relaxamento (fora do quarto de dormir).
– Mantenha sua casa sempre organizada.

Lembre-se sempre que os pais são os modelos das crianças. Faça o máximo que puder para se manter calmo, focado e positivo. Isso ajudará toda a família a responder apropriadamente aos desafios de viver com o TDAH.

1 MOTT POLL: NEARLY TWO-THIRDS OF MOTHERS “SHAMED” BY OTHERS ABOUT THEIR PARENTING SKILLS. C.S. MOTT CHILDREN’S HOSPITAL – MICHIGAN MEDICINE. Disponível em: https://www.mottchildren.org/news/archive/201706/mott-poll-nearly-two-thirds-mothers-“shamed”-others-about . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

2 DOES PARENTING PLAY A ROLE IN ADHD?. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/childhood-adhd/parenting-role-in-adhd#1 . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

3 WYMBS et al., 2008. Rate and predictors of divorce among parents of youth with ADHD. J Consult Clin Psychol., 76(5), 735–744. doi:10.1037/a0012719 Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2631569/ . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

4 FOR PARENTS & CAREGIVERS. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: http://www.chadd.org/understanding-adhd/for-parents-caregivers.aspx . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

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TIQUES, CACOETES, TOURETTE E TDAH: Com Que Frequência Acontecem E Como Fica O Tratamento?

TIQUES, CACOETES, TOURETTE E TDAH: com que frequência acontecem e como fica o tratamento?

Especialistas estimam que 7% das crianças com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade também desenvolvem tiques nervosos. Para muitas crianças e adolescentes, os tiques vocais (limpar a garganta, tossir com frequência ou bocejar) acontecem por um período de tempo limitado, indo embora sozinhos.

Medicamentos estimulantes podem tornar estes sintomas mais visíveis do que seriam sem a medicação. Contudo, os benefícios dos estimulantes podem ser maiores do que os danos dos tiques. Os tiques eventualmente passam, mesmo para quem prossegue o tratamento com estimulantes.1

O que são os tiques?

Tiques são movimentos ou sons rápidos, inesperados e não ritmados que as pessoas geram repetidamente. Os tiques podem incluir comportamentos como piscar os olhos, abrir a boca ou limpar a garganta com frequência. Os tiques são comuns na infância, mas eles não prosseguem na fase adulta em grande parte dos casos. Homens são mais afetados do que mulheres em uma relação de 4,4 para 1. A ocorrência pode ser temporária (menos de um ano) ou crônica.

Tiques podem ser simples ou complexos.

– Tiques simples são rápidos e envolvem apenas um grupo muscular.
– Tiques complexos têm duração mais longa e incluem uma série de tiques simples.
– Tiques motores podem variar entre movimentos simples (piscar os olhos, lamber os lábios ou abrir a boca) e movimentos complexos (mexer a cabeça, encolher os ombros ou fazer caretas).
– Tiques vocais incluem tosse, latido, limpeza de garganta, arroto ou vocalizações mais complexas, como repetir pedaços de palavras ou frases e, em casos raros, dizer palavrões repetidamente.

A relação entre Síndrome de Tourette e TDAH

A Síndrome de Tourette (ST) é uma doença crônica que envolve tiques motores e vocais e está comumente associada ao TDAH. Menos de 10% das crianças com TDAH desenvolvem Tourette. Porém, de 60% a 80% das crianças com ST têm TDAH.

Neste segundo caso, os sintomas do TDAH geralmente aparecem antes dos tiques da Tourette. Ainda, o TDAH é um fator de risco para a ST. Pesquisas sugerem que o desenvolvimento da Síndrome de Tourette em crianças com TDAH não está relacionada ao uso de medicações estimulantes. Porém, uma abordagem cautelosa é recomendada quando existem Tourette ou tiques no histórico familiar.1

Algumas crianças com TDAH podem desenvolver tiques motores quando iniciam o tratamento do transtorno. Mesmo que estas duas condições aparentem estar ligadas, a maioria dos especialistas acredita que a co-ocorrência é puramente coincidência e não causada pelo TDAH ou por seu tratamento.2

Diagnóstico

Como parte do diagnóstico do TDAH, o profissional de saúde deve determinar se há desordens associadas afetando o indivíduo. Geralmente, os sintomas do TDAH podem se sobrepor aos outros transtornos. O desafio do profissional é descobrir se um sintoma pertence ao TDAH ou a diferentes desordens.

No caso dos tiques, a natureza intermitente da condição pode dificultar a identificação em estágios iniciais. Porém, ao longo do tempo, um padrão de tiques nervosos e de outros comportamentos emergirá.

Durante o processo de avaliação, é importante determinar a frequência e a gravidade destes sintomas, o quanto eles de fato prejudicam o paciente. Padrões associados com os tiques (por exemplo, se eles pioram com o estresse ou com o cansaço) também podem ser chave para recomendar mudanças no tratamento ou aliar estratégias específicas capazes de lidar com estes sintomas.2

Tratamento

Quando a criança tem TDAH e tiques simultaneamente, o profissional de saúde pode preferir tratar o TDAH antes, já que os tratamentos de TDAH tendem à redução do estresse, à melhoria na atenção e, às vezes, à melhoria da habilidade individual de controlar os tiques.

Mesmo assim, os tiques podem ser tratados separadamente se estiverem gerando problemas significativos. Em casos menos graves de tiques ou de Síndrome de Tourette, educação e acompanhamento do paciente e da família podem ser suficientes. Intervenção psicológica, incluindo aconselhamento e treinamento de habilidades, devem guiar o tratamento do paciente, o que inclui necessidades escolares e familiares.

O uso de medicamentos, porém, pode ser levado em conta se os sintomas interferirem nas relações sociais, escolares ou profissionais. As terapias devem sempre ser voltadas às necessidades do paciente e os sintomas mais problemáticos devem ser tratados como prioridade.

Se a criança está sendo tratada com estimulantes e desenvolveu tiques significativos, o médico pode optar pela troca de medicação ou pela redução das doses até que os tiques estejam sob controle. Em alguns casos, os benefícios dos estimulantes são mais relevantes do que os sintomas dos tiques.3

1 FREQUENTLY ASKED QUESTIONS ABOUT ADHD. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: http://www.chadd.org/understanding-adhd/about-adhd/frequently-asked-questions-about-adhd.aspx . Acesso em: 29 de agosto de 2018.

2 TICS AND TOURETTE SYNDROME. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: http://www.chadd.org/understanding-adhd/about-adhd/coexisting-conditions/tics-and-tourette-syndrome.aspx . Acesso em: 29 de agosto de 2018.

3 HOUNIE, A.; MIGUEL, E. Tiques, Cacoetes, Síndrome de Tourette: 2. ed. Porto Alegre: Editora Artmed, 2012. P.43-47.

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