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PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

COMO CONVERSAR COM MEMBROS DA FAMÍLIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DO SEU FILHO?

COMO CONVERSAR COM MEMBROS DA FAMÍLIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DO SEU FILHO?

Muitas vezes, pais podem precisar de uma ajuda extra na hora de cuidar dos filhos. Seja durante as horas de trabalho, finais de semana ou feriados. Nesses momentos, além das creches ou babás, os pais também podem contar com a ajuda dos avós ou de outros membros da família. No caso de crianças com problemas de saúde mental ou de comportamento, é necessário que os cuidadores estejam orientados quanto aos desafios, os esquemas terapêuticos e a forma de lidar em diferentes situações.

Quando o assunto é saúde física ou emocional, a constância no tratamento é fundamental. Assim como ela é necessária em problemas como asma e diabetes, ela também é importante na depressão, ansiedade ou no TDAH. Apesar disso, nem sempre é claro para os pais que eles devem compartilhar as dificuldades psiquiátricas dos seus filhos com outros membros da família da mesma forma como é feito para outras condições médicas. Seja por conta do estigma, vergonha ou ausência de um plano de abordagem consistente.

A falta de consistência é uma das razões para que ocorra falha no tratamento. É necessário que haja consistência na abordagem entre os diferentes ambientes –como dentro de casa ou na escola- e entre os cuidadores. Isso ajuda na identificação de comportamentos negativos e no reforço e promoção dos comportamentos positivos.

Descrevemos abaixo algumas dicas que podem ajudar na orientação e no preparo dos avós ou de outros familiares que irão se responsabilizar pelo cuidado da criança:

  1. Entender os desafios

Conforme descreve o Dr. Stuart Ablon em seu modelo colaborativo de resolução de problemas, as crianças – independente da dificuldade- querem agradar seus pais, atender as expectativas e serem amadas e admiradas. Contudo, quando as crianças se comportam de forma opositora, desafiante, mal-humorada ou distanciada, é comum assumir que elas estejam agindo propositalmente, que estão escolhendo confrontar e agir contra as expectativas. Na maioria das vezes esse não é o caso; e agir conforme essa suposição pode dificultar as coisas. Quando as crianças não se comportam conforme o esperado, isso frequentemente se deve à falta de habilidade e não de vontade. As crianças tendem a se comportar bem se elas conseguem. De forma similar, crianças com problemas de saúde mental podem ter pouca habilidade para se comportar conforme as normas e é importante que nós achemos formas de ajudá-las. Esse é um conceito muito importante que deve ser trazido sempre à tona.

No caso de crianças com TDAH por exemplo, pode parecer que elas não estejam prestando atenção de proposito, ou que também estejam se negando a fazer aquilo que lhes foi solicitado. É preciso que esse comportamento seja explicado para evitar mal-entendidos.

  1. Romper o estigma de doenças mentais

Ainda que mitos sobre transtornos psiquiátricos derivem de crenças culturais, da falta de conscientização pública ou de um histórico de estigmatização, doenças de saúde mental estão entre as condições médicas mais comuns ao redor do mundo. Buscar fontes de informação junto do pediatra ou do psiquiatra, ler artigos sobre os desafios enfrentados por seu filho, podem ajudar na hora de explicar para os avós sobre o transtorno e a forma como ele pode se manifestar.

Além de os instruir quanto informações básicas ou orientá-los quanto a fontes confiáveis de informação, ajude-os a sentir empatia com seu filho. Explique que as dificuldades que seu filho apresenta não são culpa de ninguém- nem do seu filho, sua ou deles-. Oriente-os que existe tratamento e que os desfechos podem ser tão bons quanto tratar outros problemas de saúde física comuns, como enxaqueca, problemas gastrointestinais, etc.

  1. Empoderando cuidadores com o tratamento

Toda criança com um ou mais problemas de saúde mental deve ter um esquema terapêutico. Isso idealmente inclui alguma estruturação do dia (hora de acordar, de ir pra cama, hora de fazer os temas de casa, tempo de televisão), dose e hora de tomada da medicação, bem como abordagens terapêuticas que podem ser aprendidas (ex. terapia cognitivo comportamental, meditação). É importante também ter para quem ligar em situações de emergência, saber como lidar com emoções ou comportamentos desafiantes (como conversar, intervalos, tempo para ficar sozinho no quarto). Idealmente essas coisas devem estar escritas tanto para os pais quanto para quem for cuidar da criança (avós, professores) e até mesmo para a criança.

Uma vez que o esquema terapêutico esteja bem esclarecido, a chance de sucesso é maior e o risco de se desviar do esquema é diminuído.

  1. Esclarecer que todos somos parte do problema e da solução

Todas as doenças no geral, sejam físicas ou emocionais, tem bases biológicas, psicológicas e ambientais. Por conta disso, nós podemos ter controle sobre muitos fatores causadores ou agravantes do problema.

Crianças e adolescentes tendem a viver em ambientes complexos, cheios de desafios, e ambos os pais ou avós podem ajudar a suavizar ou exacerbar o estresse que afeta o transtorno ou dificuldade da criança.

Se nós aceitarmos isso, podemos fazer duas coisas. Primeiro, nos tornamos responsáveis pelo nosso comportamento e nos vermos como agentes de mudança. Segundo, isso nos faz dividir a responsabilidade do problema, nos abstendo da tendência de ver a criança como “o problema”.

Rótulos negativos tem poder imenso e são muito danosos. Muitas crianças que sofrem de problemas de saúde mental lidam com baixa autoestima. Elas sofrem com sentimentos de inadequação, fracasso, medo de rejeição, o que pode fazer com que elas se vejam como debilitadas e culpadas, fazendo-as incorporar essas visões negativas na sua identidade.

Esse é uma das razões importantes que diferencia doenças de saúde mental de doenças físicas. É raro uma doença de origem física como hipertensão, diabetes ou asma gerar rótulos para a  criança de “deficiente”. Nós podemos fazer melhor por elas e redefinir o conceito de saúde mental, começando por conversar abertamente com nossa família e comunidade.

  1. Explicar o que funciona para cada criança ou irmão

Toda criança ou adolescente é diferente e assim também são os problemas de ordem mental. Além disso, algumas crianças podem ter mais de um transtorno. O TDAH por exemplo frequentemente vem associado com depressão, ou ansiedade. Cuidadores precisam entender o que cada transtorno é e como ele se manifesta no seu filho. Pode ocorrer ainda de mais de uma criança na família sofrer com problemas de saúde mental, fazendo com que os cuidadores tenham de entender mais de um esquema terapêutico.

Também precisamos levar em conta como o problema de saúde mental de uma criança pode afetar o outro irmão que também precisa de atenção. É normal que se foque mais na criança com comportamentos mais desafiadores, porém isso pode fazer com que a outra criança se sinta excluída e até ressentida.

Para cada criança, é preciso levar em conta a sua personalidade: algumas crianças são mais passivas e isoladas enquanto outras são mais irritáveis e agressivas. Esses traços devem ser considerados na hora do cuidado. Os pais são especialistas em seus filhos e podem dar aos avós ou cuidadores dicas valiosas. Como por exemplo:

Algumas crianças podem ter dificuldade de seguir cronogramas e podem precisar de avisos ou alarmes para começar a próxima tarefa.

Se a criança se negar a fazer determinada tarefa, como o tema de casa ou desligar a TV, o que pode ajudar?

Quando você der alguma medicação, quanto tempo leva para ela fazer efeito?

  1. Encorajar a participação dos cuidadores na conversa

Certamente há muito o que dizer para membros da família para que eles entendam as dificuldades de saúde mental do seu filho. A melhor forma de fazer isso é se os cuidadores tiverem uma participação ativa na conversa.

Encoraje-os a fazer perguntas. Você pode tranquiliza-los dizendo que isso já foi -ou talvez ainda seja- uma novidade para você também.  Eles podem ter dúvidas sobre como lidar em situações de colapso nervoso, quando usar recompensas ou punições, o quão rígidos devem ser e quando as regras podem sofrer exceções.

Assim como você faria com seu filho, considere conversar mais de uma vez com os avós ou cuidadores. Tente fazer com que o esforço de cuidado seja mutuo, observando o que cada um vê ou faz com a criança. Também é bom receber feedbacks das crianças. Reuniões em família podem ser úteis e não precisam ser formais. Às vezes é bom conversar durante o jantar ou no carro.

Cuidar de crianças e adolescentes é um esforço coletivo. As crianças se saem melhor quando sabem que todos estão trabalhando juntos para o bem-estar e saúde de todos.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychologytoday.com/us/blog/inside-out-outside-in/202005/how-talk-family-members-about-kids-mental-health

 

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DESCONTINUAR A MEDICAÇÃO DIMINUI LIGEIRAMENTE A QUALIDADE DE VIDA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TDAH.

DESCONTINUAR A MEDICAÇÃO DIMINUI LIGEIRAMENTE A QUALIDADE DE VIDA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TDAH.

Descontinuar a medicação para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em crianças e adolescentes parece estar associada com uma queda pequena, mas estatisticamente significativa, na qualidade de vida, de acordo com os resultados de uma meta-análise e revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Psychiatry. O mesmo efeito não foi detectado para pacientes adultos.

Prejuízos funcionais nos relacionamentos interpessoais, na educação e na vida laboral, bem como na qualidade de vida, são comuns em pacientes com TDAH. Contudo, existe pouca evidência da eficácia e da segurança do uso prolongado de medicamentos nessa população.

Para determinar a taxa de risco-benefício do uso prolongado de medicações para o TDAH, Noa Tsujii, MD, PhD do departamento de neurospsiquiatria da Kindai University Faculty of Medicine do Japão, e colaboradores usaram o PubMed, a biblioteca da Cochrane e a base de dados da Embase para identificar estudos que comparavam os desfechos de continuar ou descontinuar a medicação em pacientes com TDAH.

Ao todo, 9 estudos foram incluídos pra análise, com 5 estudos focando em crianças e adolescentes (n=1126 crianças com idade entre  6-17 anos) e 4 em adultos ( n=708 adultos com idades entre 18-65 anos). Enquanto 5 estudos avaliaram qualidade de vida, todos os 9 estudos mediram relapso dos sintomas. Em 5 estudos os pacientes receberam estimulantes, enquanto, nos 4 outros, os pacientes receberam não estimulantes como atomoxetina e guanfacina.

Os pesquisadores encontraram que a qualidade de vida diminui naqueles que descontinuaram a medicação para o TDAH comparado com aqueles que continuam a usar medicação (diferença média padronizada[DMP] 0,19; 95% CI, 0.08-0.30). A análise de subgrupo mostrou que a DMP em crianças e adolescentes com TDAH que descontinuaram a medicação, comparado com aqueles que não descontinuaram, era de 0.21 (05% CI, 0.06-0.36). Na análise de subgrupo dos adultos, os investigadores não encontraram diferença significativa entre aqueles que descontinuaram e aqueles que continuaram com a medicação (DMP, 0.02; 95% CI, -0.46 a 0.50)

Na análise de subgrupo avaliando medicamentos não estimulantes, a queda na qualidade de vida era maior entre aqueles que descontinuaram a medicação comparado com os que continuaram (DMP, 0.21; 95% CI, 0.10-0.32). Contudo, uma análise de subgrupo restrita aos estimulantes não pôde ser conduzida porque apenas um estudo avaliou mudanças na qualidade de vida com estimulantes. Os investigadores encontraram uma taxa de recaida dos sintomas de TDAH estatisticamente significativa (2.86;95% CI, 1.78-4.56) entre aqueles que descontinuaram a medicação para o TDAH, que permaneceu significativa nas análises de subgrupo em ambos os grupos etários.

Entre as limitações do estudo, os investigadores apontaram a impossibilidade de ser feita uma meta-analise sobre qualidade de vida no subgrupo dos estimulantes, a impossibilidade de se realizar análise de viés de publicação dado que são necessários no mínimo 10 estudos para usar o gráfico de funil e a variabilidade nas ferramentas usadas para avaliar qualidade de vida e severidade dos sintomas.

“Depois de descontinuar a medicação, avaliar regularmente a qualidade de vida pode ajudar na tomada de decisão sobre a reintrodução do tratamento em pacientes com TDAH”, apontam os pesquisadores.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychiatryadvisor.com/home/topics/adhd/discontinuation-of-medication-slightly-decreases-quality-of-life/

Referencias:
-Tsujii N, Okada T, Usami M, et al. Effect of continuing and discontinuing medications on quality of life after symptomatic remission in attention-deficit/hyperactivity disorder: A systematic review and meta-analysis. J Clin Psychiatry. 2020;81:3.
Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32237294/

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ANÁLISE GENÔMICA DO TDAH EM NEANDERTAIS E HUMANOS MODERNOS

ANÁLISE GENÔMICA DO TDAH EM NEANDERTAIS E HUMANOS MODERNOS

A frequência de variantes genéticas associadas com o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) tem decaído progressivamente na linhagem evolutiva humana da era paleolítica aos dias de hoje, de acordo com um estudo publicado no Scientific Reports.

A nova análise genômica compara diversas variedades genéticas relacionadas ao TDAH descritas em populações europeias atuais para avaliar a sua evolução em amostras de espécies humanas ( Homo Sapiens), modernas e antigas, e em amostras de Neandertais ( Homo neanderthalensis). De acordo com as conclusões, a baixa tendência observada em populações europeias não podia ser explicada pela mistura genética com populações africanas ou pela ingressão de segmentos de genoma de neandertais em nosso genoma.

O novo estudo genômico é encabeçado pelo Professor Bru Cormand, da faculdade de biologia e do Institute of Biomedicine of The University of Barcelona  IBUB), do Research Institut Sant Joan de Déu (IRSJD) e do Rare Diseases Networking Biomedical Research Centre (CIBERER), e pelo pesquisador Oscar Lao, do Centro Nacional de Análisis Genómico (CNAG), parte do Centre for Genomic Regulation (CRG). O estudo, cuja primeira autora é a pesquisadora Paula Esteller do CNAG-CRG – atualmente estudante de doutorado no Institute of Evolutionary Biology (IBE, CSIC-UPF)- conta com a participação de grupos de pesquisadores da Aarhus University (Dinamarca) e da Upstate Medical University of New York (Estados Unidos).

TDAH: um fenótipo adaptativo na linhagem evolutiva dos humanos?

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma alteração do neurodesenvolvimento que pode causar grande impacto na vida das pessoas afetadas. Caracterizado pela hiperatividade, impulsividade e déficit de atenção, ele é muito comum nas populações modernas- com uma prevalência de aproximadamente 5% em crianças e adolescentes- e pode durar até a vida adulta.

De uma perspectiva evolutiva, alguém poderia esperar que qualquer característica prejudicial tenderia a desaparecer na população. Para explicar esse fenômeno, muitas hipóteses foram formuladas, especialmente focando no contexto de transição do paleolítico para o neolítico, como a Teoria da Incompatibilidade.

“De acordo com essa teoria, mudanças culturais e tecnológicas que ocorreram nos últimos mil anos teriam nos permitido modificar nosso ambiente para adaptá-lo as nossas necessidade fisiológicas no curto tempo. Entretanto, a longo prazo, essas mudanças teriam criado um desbalanço considerando o ambiente em que nossos ancestrais caçadores e coletores evoluíram”, escrevem os autores.

Dessa forma, muitos traços como hiperatividade e impulsividade típicos em pessoas com TDAH podem ter sido selecionados positivamente em ambientes ancestrais dominados por um estilo de vida nômade. Contudo, os mesmos atributos teriam se tornado não adaptativos em outros ambientes mais relacionados aos tempos de hoje (estilo de vida mais sedentário).

Por que essa é uma das desordens mais comuns em crianças e adolescentes?

O novo estudo, baseado no estudo de 20.000 pessoas afetadas por TDAH e 35.000 controles, revela que variantes genéticas e alelos associados com TDAH tendem a ser achados em genes que são intolerantes a mutações de perda de função, o que comprova a existência de uma pressão seletiva nesse fenótipo.

De acordo com os autores, a alta prevalência de TDAH nos dias de hoje poderia se o resultado de uma seleção favorável que aconteceu no passado. Apesar de ser um fenótipo desfavorável no novo contexto ambiental, a prevalência ainda seria alta porque não se passou tempo o suficiente para que ele desaparecesse. Contudo, devido à ausência de dados genômicos para o TDAH, nenhuma dessas hipóteses foi empiricamente comprovada ainda.

“Portanto, a análise que conduzimos garante a presença de pressões seletivas que teriam agido por muitos anos nas variantes associadas ao TDAH. Esses resultados são compatíveis com a Teoria da Incompatibilidade, porém eles sugerem que a pressão seletiva negativa começou antes da transição entre o paleolítico e o neolítico, cerca de 10.000 anos atrás”, dizem os autores.

Artigo adaptado e traduzido de: https://phys.org/news/2020-05-adhd-genomic-analysis-samples-neanderthals.html

Referências:
– Paula Esteller-Cucala et al, Genomic analysis of the natural history of attention-deficit/hyperactivity disorder using Neanderthal and ancient Homo sapiens samples, Scientific Reports (2020). DOI: 10.1038/s41598-020-65322-4

Link: https://www.nature.com/articles/s41598-020-65322-4

 

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ASSOCIAÇÕES GENÉTICAS ENTRE PSICOPATOLOGIA NA INFÂNCIA E DEPRESSÃO NA VIDA ADULTA

ASSOCIAÇÕES GENÉTICAS ENTRE PSICOPATOLOGIA NA INFÂNCIA E DEPRESSÃO NA VIDA ADULTA

Recentemente foi publicado no JAMA Psychiatry, um dos mais importantes jornais de publicação científica no mundo, um estudo que avaliou o papel  de fatores genéticos na associação entre a psicopatologia na infância e a presença de transtornos de humor ou traços associados na vida adulta.

Como os pesquisadores escrevem, já se sabe da existência de uma associação entre problemas emocionais ou de comportamento na infância e o desenvolvimento de transtornos de humor na vida adulta. Contudo, a razão dessa associação ainda se mantinha desconhecida.

Esse estudo buscou então averiguar se fatores genéticos explicariam essa associação. Para isso, os pesquisadores realizaram uma meta-análise de 7 estudos de coorte longitudinais, totalizando 42 998 participantes.

Os estudos tiveram início entre 1985 e 2002 e os participantes foram repetidamente avaliados para a presença de psicopatologia entre os 6 e 17 anos de idade.

Os pesquisadores desenvolveram então escores de risco poligênico nas crianças baseados em dados de estudos de genoma de depressão, transtorno bipolar, bem-estar subjetivo, neuroticismo, insônia, escolaridade e índice de massa corporal em adultos.

O risco poligênico é uma análise que calcula o risco de alguém desenvolver uma doença baseado no número de genes para a doença que essa pessoa possui.

Os participantes foram então avaliados para a presença de sintomas de TDAH, problemas internalizantes ou sociais utilizando medidas autodeclaradas ou declaradas pela mãe do participante.

Como os pesquisadores escreveram: “Nós revelamos uma evidência forte de associação de risco poligênico de depressão, bem estar subjetivo, neuroticismo, insônia, escolaridade e IMC na vida adulta com sintomas de TDAH e problemas internalizantes e sociais na infância. Não encontramos associação entre risco poligênico de transtorno bipolar na vida adulta com piscopatologia na infância”.  Além disso, enquanto o risco poligênico de escolaridade na vida adulta foi mais associado com sintomas de TDAH na infância do que com problemas internalizantes ou sociais, o risco poligênico de IMC foi mais associado com sintomas de TDAH e problemas sociais do que com problemas internalizantes.

Os resultados sugerem a presença de fatores genéticos que influenciam na manifestação de diversos traços ao longo da vida, com associações estáveis durante a infância.

Contudo, como os pesquisadores ressaltam, uma limitação do estudo é que as análises foram feitas com populações europeias, podendo não ser generalizáveis para outras populações, que apresentam heranças genéticas diferentes. Ainda, a associação entre o risco poligênico e a psicopatologia da infância pode se dever a correlações passivas de gene e ambiente, uma associação entre o genótipo de uma criança e o ambiente familiar que se deve aos pais proverem ambientes influenciados pelos seus próprios genótipos.

Legenda:
-Genótipo: é o conjunto de todos os genes de um determinado indivíduo, ou seja, sua composição genética. O código genético de um indivíduo.

Referências:
-Akingbuwa WA, Hammerschlag AR, Jami ES, et al. Genetic Associations Between Childhood Psychopathology and Adult Depression and Associated Traits in 42 998 Individuals: A Meta-Analysis. JAMA Psychiatry. Published online April 15, 2020. doi:10.1001/jamapsychiatry.2020.0527
Link: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2763801

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APONTANDO A DIFERENÇA ENTRE DEMÊNCIA E TDAH EM ADULTOS MAIS VELHOS.

APONTANDO A DIFERENÇA ENTRE DEMÊNCIA E TDAH EM ADULTOS MAIS VELHOS.

Nós podemos pensar que um aumento do esquecimento na idade avançada é um sinal de alarme de declínio cognitivo ou demência. Contudo, parece que alguns dos sintomas cognitivos podem ser manifestações de outra condição crônica: o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Como Stephanie Collier – psiquiatra no hospital McLean- escreve, enquanto muitos de nós pensamos no TDAH como uma doença da infância, ele pode afetar adultos mais velhos. De fato, cerca de 3 em cada 100 adultos tem TDAH.

A pratica clínica e a pesquisa sobre TDAH têm aumentado: cada vez mais pessoas têm recebido diagnóstico e tratamento para o TDAH, e pesquisadores acreditam que o TDAH é uma das desordens mais herdáveis da medicina. Entretanto, por conta do TDAH ter sido mais compreendido nas últimas décadas, para muitos, ele passou despercebido, e a pesquisa e pratica clínica com adultos mais velhos com TDAH é ainda escassa.

“Pessoas mais velhas com TDAH que nunca foram diagnosticadas podem temer que estão desenvolvendo demência porque são distraídas e esquecidas”, disse Kathleen Nadeau, fundadora e diretora clínica do The Chesapeake Center ADHD,Learning and Behavioral Health.

Apesar disso, ela diz, é difícil encontrar médicos experientes: “muito poucos neurologistas tiveram algum treinamento sobre como reconhecer e diagnosticar o TDAH em adultos.”

E, devido aos sintomas se assemelharem aos da demência, declínio cognitivo leve ou envelhecimento normal, é preciso ter um olhar crítico e fazer uma análise cuidadosa para se diagnosticar corretamente adultos mais velhos com TDAH.

Procurando sinais de TDAH não diagnosticado em adultos

“Para distinguir o TDAH de alterações cognitivas relacionadas a idade é preciso entender que o TDAH é um transtorno da infância e adolescência que persiste na vida adulta”, disse Paul Goodman, professor assistente de psiquiatria e ciências do comportamento na Johns Hopkins University School of Medicine.

Para averiguar se os pacientes tiveram TDAH no início da vida, Goodman geralmente pergunta para seus pacientes sobre seus sintomas no ensino fundamental e no ensino médio, na faculdade ou no início da carreira de trabalho.

De acordo com J Russell Ramsay, professor associado de psicologia clínica na University of  Pennsylvania Perelman School of Medicine, os membros da família podem ajudar a relembrar a presença desses sintomas durante a vida de uma pessoa. Relatórios escolares também podem fornecer pistas.

As pessoas podem ter tido dificuldade de se concentrar nas aulas. Talvez elas tenham sido conhecidas como os “palhaços da turma”. Alguns podem não ter avançado os estudos tanto quanto queriam. Elas podem ter trocado de emprego frequentemente. No trabalho, as pessoas podem ter tido dificuldade em completar as tarefas com eficiência, falhando em seguir os cronogramas e trabalhando extra para compensar por sua procrastinação.

“O TDAH não aparece repentinamente quando você tem 75 anos”,disse Nadeau. “Para fazer o diagnóstico diferencial, você precisa colher informações de fontes confiáveis, pessoas que conhecem o paciente há muitos anos. ”

Segundo Ramsay, os médicos também podem diferenciar melhor se uma pessoa está apresentando sintomas de TDAH ao invés de outras condições perguntando sobre suas habilidades de auto-regulação – como ela maneja o tempo, organiza suas tarefas e se motiva para completar as atividades.

Algumas pessoas podem ter tido sintomas de TDAH muito leves para um diagnóstico formal, disse Nadeau, especialmente aquelas com um QI alto que podem ter sido capazes de compensar os problemas do TDAH. Entretanto, os sintomas das pessoas podem piorar conforme elas assumem tarefas mais complexas.

O vai e vem dos sintomas do TDAH

“Nós temos estereótipos de que pessoas com TDAH são todas hiperativas, são maus alunos e de que elas não chegam muito longe na vida”, disse Nadeau. “De fato essas pessoas existem, mas o TDAH aparece entre uma gama variada de habilidades”.

Nadeau tinha um paciente que era um estudante de sucesso com um diploma e mestrado em Harvard. Ao ser deparado com a tarefa difícil de completar sua dissertação para seu doutorado em filosofia, os seus sintomas de TDAH pioraram.

“Ele apenas não conseguia se organizar para fazer esse projeto longo”, disse Nadeau.

“O que nós observamos é que se as pessoas são espertas, moram em lares acolhedores e bem organizados e vão para escolas que não são terrivelmente desafiadoras para elas, elas podem ser estudantes notáveis. E mesmo assim elas têm TDAH, e o TDAH começa a se manifestar conforme a escola se torna mais demandante. ”

Os sintomas de TDAH também podem aflorar quando as pessoas perdem a estrutura de suas vidas. Em adultos com TDAH, isso pode ocorrer junto com a aposentadoria.

Muitos podem achar que o abandono da rotina diária de trabalho seja um grande ajuste, e para adultos com TDAH, isso pode fazer com que os sintomas apareçam. Esses sintomas podem causar dificuldades de sono e alimentação, o que por sua vez pode exacerbar ainda mais os sintomas. Adultos mais velhos com TDAH podem se sentir inquietos, inadequados socialmente, interrompendo outros durante conversas e falando impulsivamente. Eles podem apresentar também lapsos de memória.

Como Ramsay coloca: “Por mais que reclamemos da escola e do trabalho, eles dão estrutura para o nosso dia.”

Tratando o TDAH em adultos mais velhos

Estimulantes usados para o tratamento em crianças e adolescentes, como metilfenidato e dextroanfetamina, têm sido efetivos para tratar os sintomas em adultos mais velhos, de acordo com Goodman. “As pessoas mais velhas tendem a responder igualmente bem a essas medicações”, diz ele.

No geral, adultos mais velhos precisam de doses mais baixas de medicação. Para os seus pacientes, Goodman diz que ele iniciaria com uma dose baixa e aumentaria aos poucos conforme os sintomas clínicos. Os médicos também devem considerar os riscos cardíacos dessas medicações, incluindo aumento da frequência cardíaca e pressão sanguínea.

Mudanças de estilo de vida como alimentação saudável, bom sono e exercício regular também podem ser benéficas para pessoas com TDAH.

“Quando fazemos exercícios aeróbicos, nosso cérebro produz essa proteína chamada BDNF, que significa fator neurotrofico derivado do cérebro”, disse Nadeau. “O BDNF promove crescimento de novos neurônios no nosso cérebro o que melhora a memória. Eu sempre falo para os idosos com TDAH sobre como é importante se exercitar o suficiente para produzir uma frequência cardíaca de até 80% o máximo por pelo menos 20/30 min por dia.”

De acordo com Collier, exercício regular ajuda a impulsionar a dopamina, norepinefrina e serotonina no cérebro, potencialmente ajudando na atenção, enquanto a melhora do sono e da rotina de sono, pedir suporte da família ou de outros para criar estrutura e simplificar tarefas e criar lembretes para lembrar das atividades diárias podem ajudar a criar estrutura e diminuir os sintomas de TDAH.

Ramsay diz que a terapia cognitivo-comportamental – que tem sido efetiva em tratar depressão e ansiedade – pode também ser benéfica para pessoas com TDAH, especialmente para adultos mais velhos entrando na aposentadoria.

“ Se você suspeita que seus sintomas podem ser o resultado do TDAH, especialmente se algum membro próximo da família recebeu o diagnóstico,” escreve Collier, “não hesite em pedir para o médico generalista um encaminhamento para um especialista especializado no diagnóstico e manejo do TDAH e adultos mais velhos.”

Artigo adaptado e traduzido de https://www.beingpatient.com/adhd-in-older-adults/

Comentário da equipe do PRODAH:
A mensagem central da matéria de que o TDAH pode estar presente na terceira idade e que devemos avaliar a sua presença é fundamental. Como ilustração, a idade mais avançada para um diagnóstico na terceira idade feito pela equipe do PRODAH foi 82 anos. O paciente, hoje, aos 88 anos, está muito melhor com o tratamento implementado. Entretanto, algumas das considerações contidas na matéria são ainda especulativas. Por exemplo, não sabemos ao certo qual o grau de eficácia da terapia cognitiva comportamental em idosos com TDAH, ou por quais mecanismos neurobiológicos o exercício aeróbico parece melhorar a atenção. Por fim, na presença dos sintomas de disfunção executiva importantes na terceira idade sempre é prudente também termos uma avaliação por médico com experiência com os diversos tipos de demência.

O Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade (ProDAH) é uma área de atividades do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência e do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) dedicada ao ensino, pesquisa e atendimento a pacientes com o transtorno.
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ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL E TDAH EM CRIANÇAS

ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL E TDAH EM CRIANÇAS

Segundo estudo publicado na edição de Abril da Psychosomatic Medicine,  seguir recomendações de estilo de vida saudável aos 10 e 11 anos de idade está associado a menos diagnóstico de TDAH do nascimento até os 14 anos.

Em uma das primeiras investigações do tipo, um estudo com mais de 3000 mil estudantes do Quinto ano na Nova Escócia, Canada, mostrou que aqueles que seguiam ao menos 7 dentre  9 recomendações de estilo de vida saudável tinham um incidência significativamente menor de TDAH comparado com aqueles que seguiam apenas um ou 3 dos critérios.

“Já existe evidência da associação entre estilo de vida e saúde física. Agora parece que essas mesmas recomendações também protegem crianças de desenvolver TDAH. Quanto maior o número de recomendações que elas seguem, menos chance elas têm de desenvolver TDAH. Até hoje, nenhum outro estudo considerou todos esses fatores de estilo de vida simultaneamente”, disse Paul Veugelers, PhD da Escola de Saúde Pública da Universidade de Alberta.

A incidência de TDAH entre crianças e jovens norte Americanos permanece alta, com mais de 6 milhões de crianças diagnosticadas com o transtorno nos EUA.

Além disso, o aumento das taxas do transtorno ocorre ao mesmo tempo em que há uma piora das escolhas de estilo de vida, como os investigadores descrevem. Fatores como dieta pobre, inatividade física, maus hábitos de sono e sedentarismo foram todos associados ao TDAH.

Enquanto os estimulantes são um tratamento comprovado e eficaz, os investigadores ressaltam que houve pouca pesquisa em estratégias de prevenção.

“Até hoje”, disse Veugelers “não houve nenhum estudo prospectivo examinando a associação independente e combinada entre recomendações de estilo de vida saudável na infância e a incidência de TDAH até o início da adolescência. ”

“O meu interesse de estudo sempre foi como o estilo de vida pode afetar a saúde das crianças”, disse Veugelers. “ Inicialmente eu apenas considerava a saúde física, porém nos últimos anos se tornou aparente que o estilo de vida também afeta a saúde mental.

Então originalmente eu não planejava olhar para o TDAH”, ele completa. “Porém devido as associações que continuavam aparecendo eu decidi que isso merecia uma investigação adicional e esse estudo é um dos produtos dessa investigação adicional. ”

Para o estudo, os investigadores analisaram dados de uma pesquisa de estilo de vida de 3436 crianças entre 10-11 anos de idade que participam do Children’s Lifestyle and School Performance Study (CLASS).

As crianças e seus pais forneceram dados sobre a adesão a 9 recomendações de estilo de vida saudável, que incluíam dieta, atividade física, sono e tempo de telas, todos os quais apresentavam evidência de benefício para a saúde das crianças. Os pais também forneceram informações sobre renda, educação e local de residência.

Os pesquisadores usaram analises de regressão de risco proporcional de Cox e regressão binomial negativa para determinar as associações entre o estilo de vida das crianças e o diagnóstico de TDAH e/ou o número de visitas ao médico por TDAH até os 14 anos.

Historicamente, a prevalência de TDAH tem sido maior em grupos socioeconômicos menos favorecidos então os pesquisadores ajustaram esses fatores, disse Veugelers.

Os pesquisadores encontraram que 10,8% dos participantes haviam recebido diagnóstico de TDAH antes dos 14 anos. Eles também encontraram que crianças que seguiam de 7 a 9 recomendações de estilo de vida saudável apresentavam uma incidência significativamente menor de TDAH (hazard ratio, 0.42; 95% CI, 0.28 – 0.61) e menos visitas ao médico por TDAH (rate ratio, 0.38; 95% CI, 0.22 – 0.65), comparado com crianças que seguiam apenas  1 a 3 recomendações.

Como pode-se esperar, o link entre o estilo de vida e o risco de TDAH tinha uma relação de dose-dependência, de forma que para cada incremento adicional de recomendação que a criança seguia, havia uma queda de 18% na chance de diagnóstico de TDAH.

Os resultados não surpreenderam Veugelers, que tem sido a bastante tempo um defensor dos benefícios dos hábitos saudáveis.

“Crianças que são fisicamente ativas são geralmente as crianças que também dormem melhor e comem mais saudável, e provavelmente passam menos tempo em frente de uma tela porque elas precisam do tempo para ser fisicamente ativas”, disse ele.

Em uma era em que o TDAH é voltado para medicamentos, o estudo fornece aos pais um ímpeto adicional para promover o estilo de vida saudável para os seus filhos, escrevem os investigadores.

“ Se você perguntar para uma pessoa porque ela quer que seu filho tenha um estilo de vida saudável, ela provavelmente vai dizer que é por conta da saúde física dele. Agora nós também sabemos que isso será benéfico para a saúde mental, e especificamente para a prevenção do TDAH”, disse Veugelers.

“Obviamente, isso não é garantido já que múltiplos fatores contribuem para a saúde mental, mas isso é algo com que os pais podem de fato trabalhar”, disse Veugelers.

Julia Rucklidge, PhD e professora de Psicologia Clínica na Universidade de Canterbury, Nova Zelândia, que não esteve envolvida no estudo, comentou que os resultados desse trabalho ajudam a desviar o foco das medicações no TDAH para o estilo de vida.

“Nós temos sido quase exclusivamente dependentes de medicação para tratar problemas psiquiátricos. Por outro lado, esse estudo está mostrando que encorajar as crianças a saírem e praticarem atividade física e a serem mais cuidadosas quanto a alimentação também é relevante para a saúde mental”.

Como ela afirma, os investigadores estão focando sua atenção no potencial impacto dos fatores ambientais no TDAH. “ Tudo o que pudermos fazer para diminuir a chance de uma criança  ter TDAH deve ser algo positivo”, diz ela.

Esse estudo foi subsidiado pelo Instituto Canadense de Pesquisa médica e Inovação de Alberta. Veugelers e Rucklidge não declararam nenhum interesse econômico relevante.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.medscape.com/viewarticle/929207#vp_1

Comentários da equipe FOCUS:
Esse estudo encontrou uma relação entre o estilo de vida saudável e a presença de TDAH. Contudo, como ele não é um estudo prospectivo que avaliou os hábitos saudáveis antes do diagnóstico de TDAH, não se pode afirmar que tipo de relação é essa. Não podemos dizer, por exemplo, se o seguimento das recomendações de estilo de vida previne o TDAH, se o não seguimento pode causar o TDAH, ou, o mais provável, que ter TDAH está associado a hábitos de vida menos saudáveis. Podemos apenas observar que existe uma relação: crianças com TDAH diagnosticado até os 14 anos seguiam menos recomendações de estilo de vida saudável aos 10 e aos 11 anos. Isso pode se dever talvez ao fato de que crianças que irão desenvolver TDAH, ou que na verdade já tinham TDAH ou sintomas do transtorno, tem mais dificuldade de seguir as recomendações ou tendem a não seguir as recomendações. Também pode ser que outro fator que propicie o desenvolvimento de TDAH também influencia na falta de hábitos saudáveis, explicando a ocorrência mútua desses eventos.

Apesar dessas ressalvas, dado que promover o estilo de vida saudável fornece inúmeros impactos positivos conhecidos na saúde física e que existe a possibilidade de ser benéfico para a saúde mental, esses achados nos reforçam ainda mais a necessidade de se promover hábitos saudáveis nas crianças com TDAH. Promover hábitos saudáveis não apresenta riscos, pelo contrário, apenas benefícios potenciais.

Referências:
Adherence to Life-Style Recommendations and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder
A Population-Based Study of Children Aged 10 to 11 Years
Loewen, Olivia K. MSc; Maximova, Katerina PhD; Ekwaru, John P. PhD; Asbridge, Mark PhD; Ohinmaa, Arto PhD; Veugelers, Paul J. PhD
Psychosomatic Medicine: April 2020 – Volume 82 – Issue 3 – p 305-315
doi: 10.1097/PSY.0000000000000787
Link: https://journals.lww.com/psychosomaticmedicine/Abstract/2020/04000/Adherence_to_Life_Style_Recommendations_and.8.aspx

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ADESÃO A MEDICAMENTOS EM PACIENTES COM TDAH.

ADESÃO A MEDICAMENTOS EM PACIENTES COM TDAH.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma condição médica crônica comum, que afeta entre 6-9% das crianças e se estende até a vida adulta em até 60% dos casos. Dados de 2016 da população dos Estados Unidos mostraram que 9,4% das crianças entre 2-17 anos apresentava diagnóstico de TDAH. Mundialmente, a prevalência do TDAH é estimada em 4% e meninos tem entre 2 a 4 vezes mais chance de serem diagnosticados com TDAH do que meninas.

A abordagem do TDAH é multidisciplinar e inclui educação, psicoterapia e farmacoterapia, independentemente da idade. Entre crianças e adolescentes com TDAH, cerca de 2/3 recebem farmacoterapia e aproximadamente metade recebe psicoterapia. A terapia combinada com fármacos e atendimento psicológico é comum, mas não ocorre para todas as pessoas. Estima-se que 25% das pessoas permanecem sem tratamento.

Os medicamentos estimulantes como metilfenidato e derivados anfetamínicos são a base da terapia farmacológica e têm sido usados por mais de de 30 anos. Uma variedade de formulações dessas medicações está disponível no mercado: na forma de tabletes orais e capsulas. As capsulas e tabletes existem na forma de liberação imediata, que necessitam de 2 a 3 administrações diárias ou formulações de liberação lenta que podem ser tomadas 1 vez ao dia. Existem vários medicamentos não estimulantes, como atomoxetina, clonidina e guanfacina (apenas a clonidina disponível no Brasil). Os benefícios, riscos e perfis de segurança desses medicamentos são bem conhecidos.

Numerosos estudos têm demonstrado que estimulantes melhoram significativamente a atenção, a concentração, o comportamento, a memória visual de curto prazo e performance global no TDAH. Um parâmetro muito utilizado para avaliar a magnitude dos desfechos é o número necessário para tratar (NNT) que, quanto menor o número, mais eficaz é o tratamento. Por exemplo, um NNT de 1 significa que toda pessoa que receber o tratamento vai se beneficiar.

Em um estudo de Biederman et al, o NNT dos estimulantes foi estimado em “3” para prevenir desordens de comportamento disruptivo e reprovação de matérias na escola,  e em “4” para prevenir acidentes de veículos automotores. Esses achados comprovam que os estimulantes são efetivos em prevenir comportamentos disruptivos, impedir que uma criança reprove em uma matéria na escola e prevenir acidentes de transito comparado com o TDAH não tratado. Para adolescentes e adultos jovens, prevenir acidentes de transito pode ser de grande benefício para a saúde pública.

Infelizmente, a adesão pobre e a descontinuação prematura dos estimulantes continuam a ser um problema. Pappadopulos et al reportaram que as taxas de adesão em crianças com TDAH variava entre 56-75%, com mais de 50% delas descontinuando o tratamento apesar da eficácia. A acurácia de estudos de adesão depende da metodologia do estudo. Estudos de adesão com crianças tipicamente utilizam métodos que incluem prescrição e renovação de receita e o relato verbal dos pais. Esses métodos podem não representar a verdadeira adesão a medicação pelas crianças.

Em um estudo, a medição da concentração de biomarcadores na saliva para avaliar adesão foi comparada ao relato verbal dos pais. Todos os 254 participantes receberam metilfenidato por 14 meses.  Em cada visita mensal, os pacientes foram considerados aderentes se os pais referiam que a criança tomou 80% ou mais da medicação. Quatro amostras de saliva foram coletadas no 2, 6, 9 e 14º mês, para detecção dos níveis de metilfenidato na saliva.

Devido a variabilidade nas amostras de salivas obtidas por criança, os pacientes eram considerados aderentes se mais de 50% das amostras de saliva continham níveis detectáveis de metilfenidato. Os resultados dos níveis de medicação na saliva mostraram que 24,8% dos pacientes eram não-aderentes (até 50% das amostras de saliva sem detecção de medicamento) e 12,2% dos pacientes eram não-aderentes para todas as amostras. Apenas 53,5% dos pacientes eram aderentes em todas as 4 amostras de saliva. Portanto, de acordo com os resultados, o relato verbal dos pais pode superestimar a adesão e subestimar a não-adesão nos seus filhos.

Em um outro estudo, comparou-se o padrão de adesão em crianças com TDAH conforme o sexo, a gravidade do transtorno, status socioeconômico, entre outros fatores. Os dados foram coletados do Longitudinal Study of Australian Children (LSAC). Observou-se as prescrições de metilfenidato, dexamfetamina e atomoxetina entre maio de 2001 e março de 2015 em crianças acompanhadas continuamente com dados coletados a cada 2 anos. O tempo total de uso de medicação foi definido como o tempo entre a primeira e a última prescrição.

Os resultados mostraram que apenas metade (54%) tiveram um uso contínuo da medicação. Cerca de 21,6% tiveram uma interrupção e 25,4% tiveram duas ou mais interrupções no tratamento. A única variável capaz de predizer a cobertura medicamentosa foi o status socioeconômico. Um status socioeconômico mais elevado foi associado a um maior uso de medicação. Além disso, a cobertura medicamentosa tendia a ser maior no primeiro ano com queda progressiva até 3-4 anos e um aumento após 5 anos naqueles que permaneceram com uso de medicação depois desse período.

A análise de um grupo de crianças mostrou que a cobertura medicamentosa média era de 81% pelos primeiros 90 dias de uso e caia para 54% em diante após os 90 dias. Esse estudo sugere que os psiquiatras e outros profissionais de saúde devem frequentemente estimular pais e pacientes a manterem o tratamento por longos períodos. Além disso, aproximadamente 90% das crianças e adolescentes com TDAH responderam efetivamente a tanto o metilfenidato quanto a dexamfetamina.

Estudos diferentes, utilizando métodos de avaliação distintos, encontraram resultados semelhantes de não-adesão em aproximadamente 50% dos participantes. Muitos fatores podem contribuir para a não adesão, como o estigma, a explicação que os pais usam para o uso da medicação, estilo de vida, esquecimento, falta de tempo e status socioeconômico. Efeitos adversos e o uso concomitante de várias medicações podem também prejudicar a adesão. O monitoramento cuidadoso do uso de estimulantes e formulações de dose única diária podem ajudar a contornar esse problema.

Os guidelines atualizados para crianças e adolescentes com TDAH tem recomendações fortes sobre o uso de medicação em crianças maiores de 6 anos. Existem muitas áreas em aberto para pesquisa no desenvolvimento de métodos que facilitem a adesão, como o próprio uso de Apps como o FOCUS. Os estimulantes fornecem vários benefícios importantes comprovados no TDAH e todo o esforço deveria ser feito para minimizar a não-adesão.

 

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychiatrictimes.com/adhd/adherence-challenges-medications-patients-adhd

Referências:
-Efron D, Mulraney M, Sciberras E, et al. Patterns of long-term ADHD medication use in Australian children. Arch Dis Child. Epub ahead of print: (21, March 2020). https://adc.bmj.com/content/early/2020/01/14/archdischild-2019-317997

 

 

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O QUE A CIÊNCIA SABE SOBRE O USO DE NEUROFEEDBACK NO TRATAMENTO DO TDAH

O QUE A CIÊNCIA SABE SOBRE O USO DE NEUROFEEDBACK NO TRATAMENTO DO TDAH

O neurofeedback é uma modalidade terapêutica que utiliza como estratégia a auto-regulação de padrões de atividade cerebral. A atividade cerebral é observada através de parâmetros do eletroencefalograma (EEG), obtido com a disposição de eletrodos em certos pontos da cabeça do paciente. Esses parâmetros são então apresentados ao paciente através de estímulos visuais, auditivos ou tácteis de forma que o paciente voluntariamente altere esses parâmetros em direção a um padrão desejado.

Essa terapia se baseia no princípio de neuroplasticidade cerebral e na capacidade de exames como EEG de registrarem a atividade do cérebro. Boa parte dos protocolos de neurofeedback objetivam suprimir padrões indesejáveis observados no EEG ou aumentar a expressão de padrões desejáveis, o que pode ser alcançado através de treinamento. A forma como os eletrodos são dispostos e os parâmetros de EEG avaliados variam, dependendo do objetivo da terapia.

Apesar do racional teórico, as evidências sobre o uso do neurofeedback no TDAH são conflitantes. Uma meta analise de 13 estudos publicada por Cortese et al  em 2016 no American Academy of Child and Adolescent Psychiatry não encontrou evidências que sustentassem seu uso. Os pesquisadores afirmaram que quando os dados eram analisados selecionando-se apenas desfechos cegados (i.e., avaliação de parâmetros de resposta pelos pesquisadores sem saber se o paciente era do grupo do neurofeedback ou do grupo controle) ou grupos controle de alta qualidade, os efeitos do tratamento deixavam de ser significativos.

Eles escreveram que o tipo de protocolo de neurofeedback implementado nos ensaios clínicos também não parecia ter importância na determinação do desfecho. Existem algumas definições de protocolos padrão que consideram parâmetros de EEG, a montagem do EEG, numero de sessões, etc. Ao todo, foram encontrados apenas 3 ensaios clínicos que utilizaram o protocolo padrão e que cegaram a avaliação dos desfechos. A análise desses dados mostrou uma melhora de 20% nos sintomas de desatenção, contudo, os resultados também não foram estatisticamente significativos.

Os resultados dessa meta-analise foram limitados pela qualidade dos estudos avaliados, como ressaltam os próprios pesquisadores. Muitos estudos apresentavam cegamento incompleto ou duvidoso.

Uma segunda meta-analise mais recente de Van Doren at al publicada em 2018 European Child & Adolescent Psychiatry encontrou benefícios clínicos sustentados do tratamento com neurofeedback após 6-12 meses de seguimento. Esse estudo avaliou os efeitos nos sintomas de TDAH imediatamente após o tratamento e após um período de 2-12 meses. Foi encontrado uma melhora significativa nos sintomas de desatenção e hiperatividade-impulsividade.

Apesar disso, a possibilidade de efeito placebo na melhora observada com o neurofeedback não pôde ser totalmente descartada. Os efeitos do NF foram maiores que os encontrados no grupo controle que não recebeu tratamento, contudo, os pesquisadores afirmam que ensaios clínicos com grupos controle que mimetizem bem o tratamento de neurofeedback são necessários.

Mesmo com o grande volume de pesquisas, o neurofeedback continua a ser uma abordagem terapêutica no TDAH com evidências controversas sobre a sua eficácia, apesar de ser um método aparentemente seguro. Inúmeras limitações foram encontradas nos estudos produzidos até o momento, ao mesmo tempo em que alguns estudos não encontraram resultados estatisticamente significativos. É necessária uma maior padronização dos protocolos utilizados nos diferentes estudos, bem como metodologias com cegamento adequado e grupos controles que descartem melhor a possibilidade de efeito placebo.

 

Referências:
Van Doren, J., Arns, M., Heinrich, H. et al. Sustained effects of neurofeedback in ADHD: a systematic review and meta-analysis. Eur Child Adolesc Psychiatry 28, 293–305 (2019). https://doi.org/10.1007/s00787-018-1121-4
– Cortese S1, Ferrin M2, Brandeis D3, Holtmann M4, Aggensteiner P5, Daley D6, Santosh P7, Simonoff E7, Stevenson J8, Stringaris A7, Sonuga-Barke EJ9; European ADHD Guidelines Group (EAGG).Neurofeedback for Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder: Meta-Analysis of Clinical and Neuropsychological Outcomes From Randomized Controlled Trials
J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2016 Jun;55(6):444-55. https://doi.org/10.1016/j.jaac.2016.03.007
– Neurofeedback: https://www.sciencedirect.com/topics/neuroscience/neurofeedback

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PESO AO NASCIMENTO E A SAÚDE MENTAL NO FUTURO

PESO AO NASCIMENTO E A SAÚDE MENTAL NO FUTURO

Um estudo publicado no JAMA Psychiatry encontrou que um menor peso ao nascimento estava associado a maior risco para diversas desordens psiquiátricas.

Em uma amostra de cerca de 500,000 pares de irmãos, indivíduos com menor peso ao nascimento eram significativamente mais propensos a desenvolver depressão, transtorno obsessivo compulsivo, TDAH e autismo, como reportou Erik Pettersson, PhD do Karolinska Institutet de Estocolmo, Suécia, e colegas.

Dentro dos pares de irmãos, um incremento de 1kg no peso ao nascimento era associado a menor risco para desordens do neurodesenvolvimento incluindo TDAH e autismo, após o controle para variáveis como sexo, idade de nascimento e ordem de nascimento.

“Dado que o tamanho do efeito observado foi pequeno, o que está de acordo com pesquisas anteriores, intervenções potenciais possivelmente teriam um efeito pequeno nas condições psiquiátricas futuras”, eles escreveram.

“ Não obstante, dado a prevalência de desordens de saúde mental, combater a desnutrição materna e melhorar o atendimento de pré-natal ainda pode influenciar significativamente no número de casos psiquiátricos”

Joel Nigg, PhD do Oregon Health and Science University em Portland, Oregon, que não participou do estudo, afirmou que o baixo peso ao nascimento pode prejudicar o desenvolvimento cerebral, o que em contrapartida pode levar a desfechos desfavoráveis na saúde mental

“É uma evidência de que existe uma relação causal com baixo peso ao nascimento e certas desordens incluindo TDAH, autismo e depressão”, completa Nigg. “Isso é consistente com estudos anteriores, porém essa evidência é mais clara”

Pettersson e a equipe utilizaram um “fator comum” (uma medida de psicopatologia global) para controlar a covariância que pode ocorrer entre desordens psiquiátricas.

“ Fazendo a analise dessa forma, você é capaz de isolar as associações devido a esse fator comum”, disse Nigg. “O que é bom porque assim você pode dizer que a associação com TDAH ou autismo não se deve ao que é compartilhado com todas as outras desordens”.

Esse estudo combinou dados de diversos registros nacionais que cobriam todos os indivíduos suecos nascidos a partir de primeiro de janeiro de 1973 até 31 de dezembro de 1998. Os pesos de nascimento foram ajustados para a idade gestacional e a idade corrigida. Os diagnósticos de saúde mental foram incluídos apenas na idade de 12 anos ou mais, exceto pelo autismo e o TDAH, que foram incluídos a partir dos 2 anos de idade.

O par mais velho de irmãos nascidos com uma diferença de até 5 anos de idade era selecionado de cada família e acompanhado até 31 de dezembro de 2013. No total, 546,894 pares de irmãos foram incluídos, os quais eram 51,5% homens e tinham em média 27,2 anos de idade.

Os pesquisadores agruparam essas desordens em grupos específicos, cada qual contribuindo para o fator comum. Doenças do neurodesenvolvimento ( TDAH e autismo), transtornos psicóticos ( esquizofrenia e transtorno esquizoafetivo), transtornos de ansiedade ( transtorno obsessivo compulsivo e ansiedade) e “fatores externalizantes” ( crimes violentos, consumo de drogas e abuso de álcool) foram associados ao crescimento fetal, além do fator comum.

Dentro dos pares de irmãos, cada 1kg de incremento no peso ao nascimento foi significativamente associado a menores níveis de psicopatologia global, bem como de ansiedade e de transtornos do neurodesenvolvimento. Entretanto, o incremento no peso não foi associado a menores níveis de “fatores externalizantes”.

A analise global da população mostrou uma associação do peso ao nascimento com o aumento de risco para 9 dos 12 transtornos psiquiátricas examinadas: depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, bipolaridade, abuso de álcool, uso de drogas, crimes violentos, TDAH e autismo. Porém, analisando entre os pares de irmãos, os resultados mostraram apenas uma associação significativa entre o peso e o desenvolvimento global de psicopatologias e o desenvolvimento de transtornos do neurodesenvolvimento (autismo e TDAH).

 

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.medpagetoday.com/psychiatry/generalpsychiatry/77866

Referências:
Association of Fetal Growth With General and Specific Mental Health Conditions
Erik Pettersson, PhD1; Henrik Larsson, PhD1,2; Brian D’Onofrio, PhD3; et al
JAMA Psychiatry. 2019;76(5):536-543. doi:10.1001/jamapsychiatry.2018.4342
Link: https://jamanetwork.com/journals/jamapsychiatry/fullarticle/2722846

 


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ESTRESSE E POLUIÇÃO PODEM CAUSAR DIFICULDADES COGNITIVAS EM CRIANÇAS

ESTRESSE E POLUIÇÃO PODEM CAUSAR DIFICULDADES COGNITIVAS EM CRIANÇAS

 

Um estudo realizado na universidade de Columbia mostrou que crianças com exposição ao estresse precoce e com exposição alta a poluição durante o período pré-natal apresentaram mais problemas de pensamento e de atenção. O estresse precoce é comum em jovens de classe econômica menos favorecida e eles muitas vezes também vivem em áreas com maior poluição do ar.

A poluição do ar tem efeitos negativos na saúde física.Trabalhos recentes têm mostrado também efeitos deletérios na saúde mental. O estresse durante a vida, particularmente o estresse precoce, é um dos maiores contribuidores para problemas de saúde mental. Esse novo estudo é um dos primeiros a examinar os efeitos combinados da poluição atmosférica e do estresse no início da vida em crianças em idade escolar. Os resultados foram publicados no Journal of Child Psychology and Psychiatry.

“ A exposição pré-natal a hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, um neurotóxico comum na poluição atmosférica, parece intensificar ou sustentar os efeitos do estresse social e econômico precoce na saúde mental de crianças”, diz o primeiro-autor David Pagliaccio, PhD e professor assistente de neurobiologia clínica em psiquiatria na Columbia .

“Poluentes atmosféricos são comuns no nosso meio, particularmente nas cidades, e, dado as desigualdades socioeconômicas e a injustiça ambiental, crianças que crescem em circunstâncias menos favorecidas estão em maior risco de experienciar estresse durante a vida e exposição a químicos neurotóxicos”, diz a autora-senior Amy Margolis, PhD e professora assistente de psicologia medica em psiquiatria na Columbia .

Os dados foram coletados de um estudo de coorte longitudinal de nascimento do norte de Manhattan e do Bronx, que inclui muitos participantes que se identificam como afro-americanos ou dominicanos. As mães usavam um monitor de ar durante o terceiro trimestre de gravidez para medir a sua exposição diária a poluentes do ar. Quando seus filhos completavam 5 anos de idade, elas informavam sobre o estresse em suas vidas, incluindo variáveis como a qualidade da vizinhança, dificuldades financeiras, violência doméstica, falta de suporte social e percepção subjetiva de estresse. As mães então reportavam os sintomas psiquiátricos dos seus filhos nas idades de 5, 7, 9 e 11 anos.

Os efeitos combinados da poluição atmosférica e o estresse precoce foram vistos em várias medidas de problemas de pensamento e de atenção/TDAH aos 11 anos de idade. (Problemas de pensamento incluíam pensamentos ou comportamentos obsessivos ou pensamentos excêntricos). Os efeitos também foram relacionados aos níveis de produtos de PAH-DNA- um marcador sensitivo da poluição atmosférica.

Os pesquisadores afirmam que o PAH e o estresse precoce podem servir como um golpe duplo nos circuitos biológicos envolvidos com problemas de atenção e pensamento. O estresse provavelmente leva a mudanças variáveis na expressão epigenética, nos níveis de cortisol, na inflamação e na estrutura e função cerebral. Os mecanismos pelos quais age o PAH ainda são duvidosos, porém as alterações na estrutura e função cerebral sugerem um mecanismo de ação parecido.

Estudos anteriores que analisaram os dados dessa coorte encontraram que a exposição pré-natal a poluentes combinada com as dificuldades maternas aumentava significativamente os sintomas de TDAH nas crianças. Um estudo separado também encontrou que a poluição do ar e a pobreza diminuíam o QI em crianças.

Artigo traduzido e adaptado de https://www.mailman.columbia.edu/public-health-now/news/mix-stress-and-air-pollution-may-lead-cognitive-difficulties-children

Referências:

– Prenatal exposure to polycyclic aromatic hydrocarbons modifies the effects of early life stress on attention and Thought Problems in late childhood
David Pagliaccio  Julie B. Herbstman  Frederica Perera  Deliang Tang  Jeff Goldsmith  Bradley S. Peterson  Virginia Rauh  Amy E. Margolis https://doi.org/10.1111/jcpp.13189


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