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PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

VIDEOGAME PARA O TRATAMENTO DO TDAH É APROVADO PELO FDA

VIDEOGAME PARA O TRATAMENTO DO TDAH É APROVADO PELO FDA

Recentemente o FDA (Food and Drug Administration- organização responsável pela aprovação de tratamentos médicos nos Estados Unidos) aprovou o primeiro videogame capaz de ser usado como tratamento para problemas de saúde.

O EndeavorRX (AKL-T01), jogo produzido pela Akili Interactive, é um jogo mobile que foi autorizado para o tratamento de crianças com TDAH entre 8-12 anos de idade. Essa é uma decisão tomada após 7 anos de estudos para analisar a eficácia do vídeo-game.

Um desses estudos, um ensaio clínico randomizado, publicado no The Lancet Digital Health esse ano, avaliou 857 crianças entre 15 de julho de 2016 e 30 de novembro de 2017. Os pacientes foram randomizados em dois grupos, um de intervenção com o jogo AKL-T01 e outro de grupo controle. A intervenção no grupo controle foi desenhada para parear o AKL-T01 em expectativa, engajamento e tempo de jogo na forma de um jogo digital, que tinha como alvo domínios cognitivos diferentes do AKL-T01 e não associados primariamente ao TDAH.

A intervenção com o AKL-T01 melhorou significativamente a performance numa medida objetiva de atenção, um teste computacional de atenção (TOVA API), em crianças com TDAH em comparação com o grupo controle. Desfechos secundários como medidas de atenção feitas por pais e médicos não encontraram diferenças entre os grupos. Por conta disso, os pais não devem necessariamente esperar grandes mudanças no comportamento dos filhos.

Efeitos adversos foram encontrados em um número muito pequeno de pacientes (7% no grupo intervenção e 2% no grupo controle). Os mais comuns foram: frustração, dor de cabeça, tontura, reação emocional ou agressão.

Contudo, como os especialistas alertam, não é recomendado que o tratamento habitual do TDAH – medicação e terapia comportamental- seja descontinuado. O vídeo-game seria apenas um adicional, não um substituto.

De acordo com um porta-voz da empresa, o jogo foi aprovado apenas para ser usado 5 dias por semana por até 25 min por dia. É necessário ter prescrição médica e atualmente é preciso se cadastrar em uma lista de espera no site do jogo para adquiri-lo.

Como os pesquisadores escrevem, o AKL-T01 pode ser adicionado ao tratamento habitual com poucos riscos e a natureza digital da intervenção pode ajudar a diminuir a barreira encontrada no acesso das diferentes formas de tratamento comportamental e outras terapias não medicamentosas.

Comentário do Professor Luis Augusto Rohde (PRODAH/HCPA/UFRGS):
Vários outros jogos envolvendo treinamento cognitivo foram testados em TDAH. Os resultados considerados centrais nos estudos prévios foram mudanças em sintomas de TDAH relatados por pais e/ou professores. Vários desses jogos mostraram melhora de funções cognitivas associadas ao TDAH, mas com pouca melhora nos sintomas do transtorno. O mesmo ocorreu com esse novo videogame. A diferença é que os autores promoveram os testes cognitivos a desfechos centrais a serem avaliados e passaram os sintomas do TDAH relatados para desfechos secundários. Assim, mesmo chegando a resultados similares aos de estudos anteriores, puderam dizer que a intervenção foi eficaz para o que consideraram central. Fica a pergunta: Como pais, o que buscam no tratamento do TDAH de seus filhos? Melhora de uma função cognitiva num teste computadorizado ou dos sintomas percebidos no dia a dia? Se a resposta é a segunda, o vídeogame não se mostrou a solução.

Referências:
– A novel digital intervention for actively reducing severity of paediatric ADHD (STARS-ADHD): a randomised controlled trial Prof Scott H Kollins, PhD, Denton J DeLoss, PhD, Elena Cañadas, PhD, Jacqueline Lutz, PhD, Prof Robert L Findling, MD, Prof Richard S E Keefe, PhD et al.
DOI:https://doi.org/10.1016/S2589-7500(20)30017-0
Link: https://www.thelancet.com/journals/landig/article/PIIS2589-7500%2820%2930017-0/fulltext#articleInformation
https://abcnews.go.com/GMA/Wellness/video-game-approved-fda-potentially-children-adhd/story?id=71340522
https://www.theverge.com/2020/6/15/21292267/fda-adhd-video-game-prescription-endeavor-rx-akl-t01-project-evo

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COMO CONVERSAR COM MEMBROS DA FAMÍLIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DO SEU FILHO?

COMO CONVERSAR COM MEMBROS DA FAMÍLIA SOBRE A SAÚDE MENTAL DO SEU FILHO?

Muitas vezes, pais podem precisar de uma ajuda extra na hora de cuidar dos filhos. Seja durante as horas de trabalho, finais de semana ou feriados. Nesses momentos, além das creches ou babás, os pais também podem contar com a ajuda dos avós ou de outros membros da família. No caso de crianças com problemas de saúde mental ou de comportamento, é necessário que os cuidadores estejam orientados quanto aos desafios, os esquemas terapêuticos e a forma de lidar em diferentes situações.

Quando o assunto é saúde física ou emocional, a constância no tratamento é fundamental. Assim como ela é necessária em problemas como asma e diabetes, ela também é importante na depressão, ansiedade ou no TDAH. Apesar disso, nem sempre é claro para os pais que eles devem compartilhar as dificuldades psiquiátricas dos seus filhos com outros membros da família da mesma forma como é feito para outras condições médicas. Seja por conta do estigma, vergonha ou ausência de um plano de abordagem consistente.

A falta de consistência é uma das razões para que ocorra falha no tratamento. É necessário que haja consistência na abordagem entre os diferentes ambientes –como dentro de casa ou na escola- e entre os cuidadores. Isso ajuda na identificação de comportamentos negativos e no reforço e promoção dos comportamentos positivos.

Descrevemos abaixo algumas dicas que podem ajudar na orientação e no preparo dos avós ou de outros familiares que irão se responsabilizar pelo cuidado da criança:

  1. Entender os desafios

Conforme descreve o Dr. Stuart Ablon em seu modelo colaborativo de resolução de problemas, as crianças – independente da dificuldade- querem agradar seus pais, atender as expectativas e serem amadas e admiradas. Contudo, quando as crianças se comportam de forma opositora, desafiante, mal-humorada ou distanciada, é comum assumir que elas estejam agindo propositalmente, que estão escolhendo confrontar e agir contra as expectativas. Na maioria das vezes esse não é o caso; e agir conforme essa suposição pode dificultar as coisas. Quando as crianças não se comportam conforme o esperado, isso frequentemente se deve à falta de habilidade e não de vontade. As crianças tendem a se comportar bem se elas conseguem. De forma similar, crianças com problemas de saúde mental podem ter pouca habilidade para se comportar conforme as normas e é importante que nós achemos formas de ajudá-las. Esse é um conceito muito importante que deve ser trazido sempre à tona.

No caso de crianças com TDAH por exemplo, pode parecer que elas não estejam prestando atenção de proposito, ou que também estejam se negando a fazer aquilo que lhes foi solicitado. É preciso que esse comportamento seja explicado para evitar mal-entendidos.

  1. Romper o estigma de doenças mentais

Ainda que mitos sobre transtornos psiquiátricos derivem de crenças culturais, da falta de conscientização pública ou de um histórico de estigmatização, doenças de saúde mental estão entre as condições médicas mais comuns ao redor do mundo. Buscar fontes de informação junto do pediatra ou do psiquiatra, ler artigos sobre os desafios enfrentados por seu filho, podem ajudar na hora de explicar para os avós sobre o transtorno e a forma como ele pode se manifestar.

Além de os instruir quanto informações básicas ou orientá-los quanto a fontes confiáveis de informação, ajude-os a sentir empatia com seu filho. Explique que as dificuldades que seu filho apresenta não são culpa de ninguém- nem do seu filho, sua ou deles-. Oriente-os que existe tratamento e que os desfechos podem ser tão bons quanto tratar outros problemas de saúde física comuns, como enxaqueca, problemas gastrointestinais, etc.

  1. Empoderando cuidadores com o tratamento

Toda criança com um ou mais problemas de saúde mental deve ter um esquema terapêutico. Isso idealmente inclui alguma estruturação do dia (hora de acordar, de ir pra cama, hora de fazer os temas de casa, tempo de televisão), dose e hora de tomada da medicação, bem como abordagens terapêuticas que podem ser aprendidas (ex. terapia cognitivo comportamental, meditação). É importante também ter para quem ligar em situações de emergência, saber como lidar com emoções ou comportamentos desafiantes (como conversar, intervalos, tempo para ficar sozinho no quarto). Idealmente essas coisas devem estar escritas tanto para os pais quanto para quem for cuidar da criança (avós, professores) e até mesmo para a criança.

Uma vez que o esquema terapêutico esteja bem esclarecido, a chance de sucesso é maior e o risco de se desviar do esquema é diminuído.

  1. Esclarecer que todos somos parte do problema e da solução

Todas as doenças no geral, sejam físicas ou emocionais, tem bases biológicas, psicológicas e ambientais. Por conta disso, nós podemos ter controle sobre muitos fatores causadores ou agravantes do problema.

Crianças e adolescentes tendem a viver em ambientes complexos, cheios de desafios, e ambos os pais ou avós podem ajudar a suavizar ou exacerbar o estresse que afeta o transtorno ou dificuldade da criança.

Se nós aceitarmos isso, podemos fazer duas coisas. Primeiro, nos tornamos responsáveis pelo nosso comportamento e nos vermos como agentes de mudança. Segundo, isso nos faz dividir a responsabilidade do problema, nos abstendo da tendência de ver a criança como “o problema”.

Rótulos negativos tem poder imenso e são muito danosos. Muitas crianças que sofrem de problemas de saúde mental lidam com baixa autoestima. Elas sofrem com sentimentos de inadequação, fracasso, medo de rejeição, o que pode fazer com que elas se vejam como debilitadas e culpadas, fazendo-as incorporar essas visões negativas na sua identidade.

Esse é uma das razões importantes que diferencia doenças de saúde mental de doenças físicas. É raro uma doença de origem física como hipertensão, diabetes ou asma gerar rótulos para a  criança de “deficiente”. Nós podemos fazer melhor por elas e redefinir o conceito de saúde mental, começando por conversar abertamente com nossa família e comunidade.

  1. Explicar o que funciona para cada criança ou irmão

Toda criança ou adolescente é diferente e assim também são os problemas de ordem mental. Além disso, algumas crianças podem ter mais de um transtorno. O TDAH por exemplo frequentemente vem associado com depressão, ou ansiedade. Cuidadores precisam entender o que cada transtorno é e como ele se manifesta no seu filho. Pode ocorrer ainda de mais de uma criança na família sofrer com problemas de saúde mental, fazendo com que os cuidadores tenham de entender mais de um esquema terapêutico.

Também precisamos levar em conta como o problema de saúde mental de uma criança pode afetar o outro irmão que também precisa de atenção. É normal que se foque mais na criança com comportamentos mais desafiadores, porém isso pode fazer com que a outra criança se sinta excluída e até ressentida.

Para cada criança, é preciso levar em conta a sua personalidade: algumas crianças são mais passivas e isoladas enquanto outras são mais irritáveis e agressivas. Esses traços devem ser considerados na hora do cuidado. Os pais são especialistas em seus filhos e podem dar aos avós ou cuidadores dicas valiosas. Como por exemplo:

Algumas crianças podem ter dificuldade de seguir cronogramas e podem precisar de avisos ou alarmes para começar a próxima tarefa.

Se a criança se negar a fazer determinada tarefa, como o tema de casa ou desligar a TV, o que pode ajudar?

Quando você der alguma medicação, quanto tempo leva para ela fazer efeito?

  1. Encorajar a participação dos cuidadores na conversa

Certamente há muito o que dizer para membros da família para que eles entendam as dificuldades de saúde mental do seu filho. A melhor forma de fazer isso é se os cuidadores tiverem uma participação ativa na conversa.

Encoraje-os a fazer perguntas. Você pode tranquiliza-los dizendo que isso já foi -ou talvez ainda seja- uma novidade para você também.  Eles podem ter dúvidas sobre como lidar em situações de colapso nervoso, quando usar recompensas ou punições, o quão rígidos devem ser e quando as regras podem sofrer exceções.

Assim como você faria com seu filho, considere conversar mais de uma vez com os avós ou cuidadores. Tente fazer com que o esforço de cuidado seja mutuo, observando o que cada um vê ou faz com a criança. Também é bom receber feedbacks das crianças. Reuniões em família podem ser úteis e não precisam ser formais. Às vezes é bom conversar durante o jantar ou no carro.

Cuidar de crianças e adolescentes é um esforço coletivo. As crianças se saem melhor quando sabem que todos estão trabalhando juntos para o bem-estar e saúde de todos.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychologytoday.com/us/blog/inside-out-outside-in/202005/how-talk-family-members-about-kids-mental-health

 

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DESCONTINUAR A MEDICAÇÃO DIMINUI LIGEIRAMENTE A QUALIDADE DE VIDA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TDAH.

DESCONTINUAR A MEDICAÇÃO DIMINUI LIGEIRAMENTE A QUALIDADE DE VIDA EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES COM TDAH.

Descontinuar a medicação para o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em crianças e adolescentes parece estar associada com uma queda pequena, mas estatisticamente significativa, na qualidade de vida, de acordo com os resultados de uma meta-análise e revisão sistemática publicada no Journal of Clinical Psychiatry. O mesmo efeito não foi detectado para pacientes adultos.

Prejuízos funcionais nos relacionamentos interpessoais, na educação e na vida laboral, bem como na qualidade de vida, são comuns em pacientes com TDAH. Contudo, existe pouca evidência da eficácia e da segurança do uso prolongado de medicamentos nessa população.

Para determinar a taxa de risco-benefício do uso prolongado de medicações para o TDAH, Noa Tsujii, MD, PhD do departamento de neurospsiquiatria da Kindai University Faculty of Medicine do Japão, e colaboradores usaram o PubMed, a biblioteca da Cochrane e a base de dados da Embase para identificar estudos que comparavam os desfechos de continuar ou descontinuar a medicação em pacientes com TDAH.

Ao todo, 9 estudos foram incluídos pra análise, com 5 estudos focando em crianças e adolescentes (n=1126 crianças com idade entre  6-17 anos) e 4 em adultos ( n=708 adultos com idades entre 18-65 anos). Enquanto 5 estudos avaliaram qualidade de vida, todos os 9 estudos mediram relapso dos sintomas. Em 5 estudos os pacientes receberam estimulantes, enquanto, nos 4 outros, os pacientes receberam não estimulantes como atomoxetina e guanfacina.

Os pesquisadores encontraram que a qualidade de vida diminui naqueles que descontinuaram a medicação para o TDAH comparado com aqueles que continuam a usar medicação (diferença média padronizada[DMP] 0,19; 95% CI, 0.08-0.30). A análise de subgrupo mostrou que a DMP em crianças e adolescentes com TDAH que descontinuaram a medicação, comparado com aqueles que não descontinuaram, era de 0.21 (05% CI, 0.06-0.36). Na análise de subgrupo dos adultos, os investigadores não encontraram diferença significativa entre aqueles que descontinuaram e aqueles que continuaram com a medicação (DMP, 0.02; 95% CI, -0.46 a 0.50)

Na análise de subgrupo avaliando medicamentos não estimulantes, a queda na qualidade de vida era maior entre aqueles que descontinuaram a medicação comparado com os que continuaram (DMP, 0.21; 95% CI, 0.10-0.32). Contudo, uma análise de subgrupo restrita aos estimulantes não pôde ser conduzida porque apenas um estudo avaliou mudanças na qualidade de vida com estimulantes. Os investigadores encontraram uma taxa de recaida dos sintomas de TDAH estatisticamente significativa (2.86;95% CI, 1.78-4.56) entre aqueles que descontinuaram a medicação para o TDAH, que permaneceu significativa nas análises de subgrupo em ambos os grupos etários.

Entre as limitações do estudo, os investigadores apontaram a impossibilidade de ser feita uma meta-analise sobre qualidade de vida no subgrupo dos estimulantes, a impossibilidade de se realizar análise de viés de publicação dado que são necessários no mínimo 10 estudos para usar o gráfico de funil e a variabilidade nas ferramentas usadas para avaliar qualidade de vida e severidade dos sintomas.

“Depois de descontinuar a medicação, avaliar regularmente a qualidade de vida pode ajudar na tomada de decisão sobre a reintrodução do tratamento em pacientes com TDAH”, apontam os pesquisadores.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychiatryadvisor.com/home/topics/adhd/discontinuation-of-medication-slightly-decreases-quality-of-life/

Referencias:
-Tsujii N, Okada T, Usami M, et al. Effect of continuing and discontinuing medications on quality of life after symptomatic remission in attention-deficit/hyperactivity disorder: A systematic review and meta-analysis. J Clin Psychiatry. 2020;81:3.
Link: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32237294/

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EXCESSO DE MEDICAÇÃO PARA TDAH? Novas Estatísticas Apontam O Contrário Na Inglaterra… E No Brasil?

EXCESSO DE MEDICAÇÃO PARA TDAH? Novas estatísticas apontam o contrário na Inglaterra… E No Brasil?

Poucas crianças estão recebendo tratamento adequado para o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) na Inglaterra, especialmente meninas.

O jornal The Guardian divulgou1 dados que contrariam o senso comum da população, de que medicações para o TDAH estariam sendo prescritas em demasia pelos médicos.

Os números, pedidos especificamente pelo jornal através do Freedom of Information Act, apontam que, entre 2017 e 2018, 61 mil meninos entre 6 e 17 anos tomaram medicamentos para o transtorno naquele país – algo como 1,5% dos meninos nesta idade. Contudo, o número médio de crianças diagnosticadas com TDAH no mundo é de 5,3%.2

Os números obtidos pelo The Guardian afirmam que a quantidade de meninas que receberam a prescrição é menor: 0,35% das garotas entre 6 e 17 anos tomaram medicações. Ainda, das quase 75 mil crianças que receberam prescrição de remédios para TDAH na Inglaterra, naquele período, apenas 18% eram meninas.

Apesar de estudos em crianças tipicamente mostrarem uma preponderância masculina no TDAH, acredita-se que este predomínio seja resultado de subdiagnóstico nas garotas, devido aos diferentes sintomas sofridos pelas meninas, argumenta o National Institute for Health and Care Excellence (NICE) em seu guia Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management3.

Tony Lloyd, chefe-executivo da ADHD Foundation afirma que eles reconhecem que o transtorno é subdiagnosticado e submedicado na Inglaterra. Lloyd acrescenta que, no passado, garotos eram mais comumente enviados aos médicos, porque eram eles que geravam problemas em sala de aula.

“Isso ocorria por causa da hiperatividade”, disse Lloyd. Uma década atrás, a relação de casos de TDAH era de quatro meninos para cada menina. Atualmente, com uma compreensão mais precisa de como o transtorno age nas meninas, a relação caiu para 2,8 meninos para cada menina, explica ele ao The Guardian.

Mas, os números de crianças recebendo medicamentos ainda é baixo, concluiu Lloyd. “Eu só consigo explicar isso através da combinação de estigmas e poucos recursos sobre a saúde mental das crianças. As listas de espera para os tratamentos também colaboram e podem levar de um a dois anos para que a criança receba alguma ajuda.”

No Brasil, a situação não é muito diferente.

Luis Augusto Rohde, Coordenador-Geral do Programa de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) do Hospital de Clinicas de Porto Alegre, afirma que, também no Brasil, não erramos pelo excesso, mas sim pela falta de diagnósticos4.

“Em termos de saúde pública, não existe no Brasil problema de superdiagnóstico e supertratamento”, diz o médico especialista em psiquiatria da infância e adolescência. O Brasil tem 47 milhões de crianças e adolescentes de 6 a 18 anos; uma média de 5% deles teria o transtorno, explica Rohde. Isso seria 2,35 milhões de crianças. “Não temos mais do que 100 mil crianças usando a medicação”, estima o especialista.

O psiquiatra Guilherme Polanczyk, professor de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, diz que as questões de saúde mental são subdiagnosticadas em qualquer país do mundo.

Mas, a situação é ainda mais frequente em crianças. “O reconhecimento de problemas mentais em crianças é recente, vem da década de 50 do século passado. Em todo o mundo, o número de profissionais treinados e especializados em psiquiatria infantil ainda é reduzido. Consequentemente, ainda há poucos serviços públicos e privados capazes de acolhê-las. Aliado aos preconceitos e estigmas, o resultado é que muitas vezes, quem não tem TDAH é diagnosticado com o problema; e quem tem pode ficar anos sem tratamento correto”, esclarece o psiquiatra.

1 TOO FEW CHILDREN RECEIVING TREATMENT FOR ADHD, FIGURES SUGGEST. THE GUARDIAN. Disponível em: https://www.theguardian.com/society/2018/oct/05/too-few-children-receiving-treatment-for-adhd-figures-suggest . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

2 MATTOS P et al., 2012. ADHD is undertreated in Brazil. Rev. Bras. Psiquiatr. vol.34 no.4 São Paulo Dec. 2012. http://dx.doi.org/10.1016/j.rbp.2012.04.002. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462012000400023 . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

3 ATTENTION DEFICIT HYPERACTIVITY DISORDER: DIAGNOSIS AND MANAGEMENT. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng87/resources/attention-deficit-hyperactivity-disorder-diagnosis-and-management-pdf-1837699732933 . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

4 A ERA DA DESATENÇÃO. FOLHA DE SÃO PAULO. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il3005201004.htm . Acesso em: 11 de outubro de 2018.

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CAFEÍNA E TDAH: Devo Evitar Ou Tormar?

CAFEÍNA E TDAH: Devo evitar ou tormar?

Pessoas com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm diferenças químicas e físicas no cérebro1, que podem levar a uma variedade de sintomas, como falta de atenção hiperatividade e impulsividade. Para controlar estes sintomas, o tratamento mais comum é a prescrição de medicações estimulantes. Estes medicamentos são comprovadamente capazes de melhorar o foco, a atenção e o comportamento impulsivo.

A partir disso, o raciocínio lógico seria: se estimulantes ajudam em tudo isso, tomarei mais café, o mais consumido estimulante no mundo, certo?

Não necessariamente.

Alguns estudos analisaram o efeito da cafeína nos sintomas de TDAH, mas os resultados foram conflitantes. Mesmo que a cafeína seja um estimulante, não é geralmente recomendada como um tratamento para o TDAH, porque não há provas científicas de sua eficiência.

– Os efeitos da cafeína são muito mais intensos e rápidos do que os efeitos da medicação.
– O poder da cafeína vai diminuindo ao longo do tempo e quantidades mais altas de café seriam necessárias para obter o mesmo resultado.
– É preciso manter em mente que muitos alimentos e bebidas têm variadas quantidades de cafeína. Entre o consumo de café, chá ou chocolate, como você conseguiria estipular a quantidade de estimulantes que consumiu durante o dia? Missão quase impossível, o que é um tanto quanto arriscado quando falamos em termos de tratamento.2

Como funcionam os estimulantes?

Estimulantes, incluindo a cafeína, aumentam a quantidade de químicos utilizados pelo seu cérebro para enviar sinais. Um destes é a dopamina, que está relacionada ao prazer, à atenção e ao movimento – e cujos níveis no cérebro do paciente com TDAH são mais baixos.

Por isso, quando você é diagnosticado com TDAH, os médicos frequentemente prescrevem estimulantes para que você fique mais tranquilo e focado. Alguns pesquisadores acreditam que o café teria o mesmo poder, já que a cafeína do chá é capaz de melhorar o estado de alerta e a concentração.3

Cafeína com medicação

Quando você combina cafeína com medicação estimulante, você tem o chamado efeito sinérgico. A sinergia acontece quando duas drogas têm mecanismos de ação aditivos, tornando seu efeito mais poderoso – o que não é necessariamente bom. A cafeína pode tornar a medicação mais eficiente sim, mas os efeitos colaterais podem ser maiores.

Para algumas pessoas, a cafeína pode colaborar no ajuste dos níveis de dopamina. Para outras, adicionar mais estimulantes à dieta pode elevar demais os níveis de dopamina, gerando agitação, ansiedade, dores de cabeça, irritabilidade, insônia etc.4
O que nos leva à grande cautela que você, pai ou mãe, precisa ter:

Cafeína para crianças?

Especialistas não recomendam a ingestão de cafeína por crianças, especialmente se estão tomando medicação para o TDAH. Crianças são mais vulneráveis aos efeitos colaterais da cafeína, que também pode afetar o desenvolvimento cerebral na fase de crescimento.

Crianças com TDAH, geralmente, têm mais problemas para dormir e para se manterem alertas durante o dia. A cafeína será uma inimiga nesta questão, potencializando ambos os problemas.

Usar a cafeína durante o tratamento do TDAH é algo que apenas o seu médico pode avaliar. De acordo com a The Academy of Nutrition and Dietetics, a maioria das crianças já consome cafeína em excesso, através dos refrigerantes. Uma lata de Coca-Cola, de 350ml, tem aproximadamente 35mg de cafeína.2

O Governo Brasileiro não estipulou um limite diário para o consumo da substância, tampouco o norte-americano. Os dados que utilizamos no Brasil vieram do Governo do Canadá, que determina os seguintes valores: 45mg diárias para crianças entre 4 e 6 anos, 62mg para crianças entre 7 e 9 anos, 85mg para crianças entre 10 e 12 anos.5

Não vamos esquecer, é claro, das altas doses de açúcar nos refrigerantes – uma única lata, com seus 40g de açúcar, já excede o limite diário até dos adultos.

1 NEUROBIOLOGY. SHIRE ADHD INSTITUTE. Disponível em: https://adhd-institute.com/burden-of-adhd/aetiology/neurobiology/ . Acesso em: 27 de setembro de 2018.

2 WHAT EFFECT DOES CAFFEINE HAVE ON PEOPLE WITH ADHD?. MEDICAL NEWS TODAY. Disponível em: https://www.medicalnewstoday.com/articles/315169.php . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

3 CAFFEINE AND ADHD. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/adhd-caffeine . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

4 HOW DOES CAFFEINE AFFECT ADHD?. HEALTHLINE. Disponível em: https://www.healthline.com/health/adhd/caffeine . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

5 CAFÉ: OS LIMITES E OS RISCOS DE CONSUMIR EM EXCESSO. ÉPOCA. Disponível em: https://epoca.globo.com/saude/check-up/noticia/2017/06/cafe-os-limites-e-os-riscos-de-consumir-em-excesso.html . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

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TIQUES, CACOETES, TOURETTE E TDAH: Com Que Frequência Acontecem E Como Fica O Tratamento?

TIQUES, CACOETES, TOURETTE E TDAH: com que frequência acontecem e como fica o tratamento?

Especialistas estimam que 7% das crianças com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade também desenvolvem tiques nervosos. Para muitas crianças e adolescentes, os tiques vocais (limpar a garganta, tossir com frequência ou bocejar) acontecem por um período de tempo limitado, indo embora sozinhos.

Medicamentos estimulantes podem tornar estes sintomas mais visíveis do que seriam sem a medicação. Contudo, os benefícios dos estimulantes podem ser maiores do que os danos dos tiques. Os tiques eventualmente passam, mesmo para quem prossegue o tratamento com estimulantes.1

O que são os tiques?

Tiques são movimentos ou sons rápidos, inesperados e não ritmados que as pessoas geram repetidamente. Os tiques podem incluir comportamentos como piscar os olhos, abrir a boca ou limpar a garganta com frequência. Os tiques são comuns na infância, mas eles não prosseguem na fase adulta em grande parte dos casos. Homens são mais afetados do que mulheres em uma relação de 4,4 para 1. A ocorrência pode ser temporária (menos de um ano) ou crônica.

Tiques podem ser simples ou complexos.

– Tiques simples são rápidos e envolvem apenas um grupo muscular.
– Tiques complexos têm duração mais longa e incluem uma série de tiques simples.
– Tiques motores podem variar entre movimentos simples (piscar os olhos, lamber os lábios ou abrir a boca) e movimentos complexos (mexer a cabeça, encolher os ombros ou fazer caretas).
– Tiques vocais incluem tosse, latido, limpeza de garganta, arroto ou vocalizações mais complexas, como repetir pedaços de palavras ou frases e, em casos raros, dizer palavrões repetidamente.

A relação entre Síndrome de Tourette e TDAH

A Síndrome de Tourette (ST) é uma doença crônica que envolve tiques motores e vocais e está comumente associada ao TDAH. Menos de 10% das crianças com TDAH desenvolvem Tourette. Porém, de 60% a 80% das crianças com ST têm TDAH.

Neste segundo caso, os sintomas do TDAH geralmente aparecem antes dos tiques da Tourette. Ainda, o TDAH é um fator de risco para a ST. Pesquisas sugerem que o desenvolvimento da Síndrome de Tourette em crianças com TDAH não está relacionada ao uso de medicações estimulantes. Porém, uma abordagem cautelosa é recomendada quando existem Tourette ou tiques no histórico familiar.1

Algumas crianças com TDAH podem desenvolver tiques motores quando iniciam o tratamento do transtorno. Mesmo que estas duas condições aparentem estar ligadas, a maioria dos especialistas acredita que a co-ocorrência é puramente coincidência e não causada pelo TDAH ou por seu tratamento.2

Diagnóstico

Como parte do diagnóstico do TDAH, o profissional de saúde deve determinar se há desordens associadas afetando o indivíduo. Geralmente, os sintomas do TDAH podem se sobrepor aos outros transtornos. O desafio do profissional é descobrir se um sintoma pertence ao TDAH ou a diferentes desordens.

No caso dos tiques, a natureza intermitente da condição pode dificultar a identificação em estágios iniciais. Porém, ao longo do tempo, um padrão de tiques nervosos e de outros comportamentos emergirá.

Durante o processo de avaliação, é importante determinar a frequência e a gravidade destes sintomas, o quanto eles de fato prejudicam o paciente. Padrões associados com os tiques (por exemplo, se eles pioram com o estresse ou com o cansaço) também podem ser chave para recomendar mudanças no tratamento ou aliar estratégias específicas capazes de lidar com estes sintomas.2

Tratamento

Quando a criança tem TDAH e tiques simultaneamente, o profissional de saúde pode preferir tratar o TDAH antes, já que os tratamentos de TDAH tendem à redução do estresse, à melhoria na atenção e, às vezes, à melhoria da habilidade individual de controlar os tiques.

Mesmo assim, os tiques podem ser tratados separadamente se estiverem gerando problemas significativos. Em casos menos graves de tiques ou de Síndrome de Tourette, educação e acompanhamento do paciente e da família podem ser suficientes. Intervenção psicológica, incluindo aconselhamento e treinamento de habilidades, devem guiar o tratamento do paciente, o que inclui necessidades escolares e familiares.

O uso de medicamentos, porém, pode ser levado em conta se os sintomas interferirem nas relações sociais, escolares ou profissionais. As terapias devem sempre ser voltadas às necessidades do paciente e os sintomas mais problemáticos devem ser tratados como prioridade.

Se a criança está sendo tratada com estimulantes e desenvolveu tiques significativos, o médico pode optar pela troca de medicação ou pela redução das doses até que os tiques estejam sob controle. Em alguns casos, os benefícios dos estimulantes são mais relevantes do que os sintomas dos tiques.3

1 FREQUENTLY ASKED QUESTIONS ABOUT ADHD. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: http://www.chadd.org/understanding-adhd/about-adhd/frequently-asked-questions-about-adhd.aspx . Acesso em: 29 de agosto de 2018.

2 TICS AND TOURETTE SYNDROME. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: http://www.chadd.org/understanding-adhd/about-adhd/coexisting-conditions/tics-and-tourette-syndrome.aspx . Acesso em: 29 de agosto de 2018.

3 HOUNIE, A.; MIGUEL, E. Tiques, Cacoetes, Síndrome de Tourette: 2. ed. Porto Alegre: Editora Artmed, 2012. P.43-47.

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