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PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

APONTANDO A DIFERENÇA ENTRE DEMÊNCIA E TDAH EM ADULTOS MAIS VELHOS.

APONTANDO A DIFERENÇA ENTRE DEMÊNCIA E TDAH EM ADULTOS MAIS VELHOS.

Nós podemos pensar que um aumento do esquecimento na idade avançada é um sinal de alarme de declínio cognitivo ou demência. Contudo, parece que alguns dos sintomas cognitivos podem ser manifestações de outra condição crônica: o déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Como Stephanie Collier – psiquiatra no hospital McLean- escreve, enquanto muitos de nós pensamos no TDAH como uma doença da infância, ele pode afetar adultos mais velhos. De fato, cerca de 3 em cada 100 adultos tem TDAH.

A pratica clínica e a pesquisa sobre TDAH têm aumentado: cada vez mais pessoas têm recebido diagnóstico e tratamento para o TDAH, e pesquisadores acreditam que o TDAH é uma das desordens mais herdáveis da medicina. Entretanto, por conta do TDAH ter sido mais compreendido nas últimas décadas, para muitos, ele passou despercebido, e a pesquisa e pratica clínica com adultos mais velhos com TDAH é ainda escassa.

“Pessoas mais velhas com TDAH que nunca foram diagnosticadas podem temer que estão desenvolvendo demência porque são distraídas e esquecidas”, disse Kathleen Nadeau, fundadora e diretora clínica do The Chesapeake Center ADHD,Learning and Behavioral Health.

Apesar disso, ela diz, é difícil encontrar médicos experientes: “muito poucos neurologistas tiveram algum treinamento sobre como reconhecer e diagnosticar o TDAH em adultos.”

E, devido aos sintomas se assemelharem aos da demência, declínio cognitivo leve ou envelhecimento normal, é preciso ter um olhar crítico e fazer uma análise cuidadosa para se diagnosticar corretamente adultos mais velhos com TDAH.

Procurando sinais de TDAH não diagnosticado em adultos

“Para distinguir o TDAH de alterações cognitivas relacionadas a idade é preciso entender que o TDAH é um transtorno da infância e adolescência que persiste na vida adulta”, disse Paul Goodman, professor assistente de psiquiatria e ciências do comportamento na Johns Hopkins University School of Medicine.

Para averiguar se os pacientes tiveram TDAH no início da vida, Goodman geralmente pergunta para seus pacientes sobre seus sintomas no ensino fundamental e no ensino médio, na faculdade ou no início da carreira de trabalho.

De acordo com J Russell Ramsay, professor associado de psicologia clínica na University of  Pennsylvania Perelman School of Medicine, os membros da família podem ajudar a relembrar a presença desses sintomas durante a vida de uma pessoa. Relatórios escolares também podem fornecer pistas.

As pessoas podem ter tido dificuldade de se concentrar nas aulas. Talvez elas tenham sido conhecidas como os “palhaços da turma”. Alguns podem não ter avançado os estudos tanto quanto queriam. Elas podem ter trocado de emprego frequentemente. No trabalho, as pessoas podem ter tido dificuldade em completar as tarefas com eficiência, falhando em seguir os cronogramas e trabalhando extra para compensar por sua procrastinação.

“O TDAH não aparece repentinamente quando você tem 75 anos”,disse Nadeau. “Para fazer o diagnóstico diferencial, você precisa colher informações de fontes confiáveis, pessoas que conhecem o paciente há muitos anos. ”

Segundo Ramsay, os médicos também podem diferenciar melhor se uma pessoa está apresentando sintomas de TDAH ao invés de outras condições perguntando sobre suas habilidades de auto-regulação – como ela maneja o tempo, organiza suas tarefas e se motiva para completar as atividades.

Algumas pessoas podem ter tido sintomas de TDAH muito leves para um diagnóstico formal, disse Nadeau, especialmente aquelas com um QI alto que podem ter sido capazes de compensar os problemas do TDAH. Entretanto, os sintomas das pessoas podem piorar conforme elas assumem tarefas mais complexas.

O vai e vem dos sintomas do TDAH

“Nós temos estereótipos de que pessoas com TDAH são todas hiperativas, são maus alunos e de que elas não chegam muito longe na vida”, disse Nadeau. “De fato essas pessoas existem, mas o TDAH aparece entre uma gama variada de habilidades”.

Nadeau tinha um paciente que era um estudante de sucesso com um diploma e mestrado em Harvard. Ao ser deparado com a tarefa difícil de completar sua dissertação para seu doutorado em filosofia, os seus sintomas de TDAH pioraram.

“Ele apenas não conseguia se organizar para fazer esse projeto longo”, disse Nadeau.

“O que nós observamos é que se as pessoas são espertas, moram em lares acolhedores e bem organizados e vão para escolas que não são terrivelmente desafiadoras para elas, elas podem ser estudantes notáveis. E mesmo assim elas têm TDAH, e o TDAH começa a se manifestar conforme a escola se torna mais demandante. ”

Os sintomas de TDAH também podem aflorar quando as pessoas perdem a estrutura de suas vidas. Em adultos com TDAH, isso pode ocorrer junto com a aposentadoria.

Muitos podem achar que o abandono da rotina diária de trabalho seja um grande ajuste, e para adultos com TDAH, isso pode fazer com que os sintomas apareçam. Esses sintomas podem causar dificuldades de sono e alimentação, o que por sua vez pode exacerbar ainda mais os sintomas. Adultos mais velhos com TDAH podem se sentir inquietos, inadequados socialmente, interrompendo outros durante conversas e falando impulsivamente. Eles podem apresentar também lapsos de memória.

Como Ramsay coloca: “Por mais que reclamemos da escola e do trabalho, eles dão estrutura para o nosso dia.”

Tratando o TDAH em adultos mais velhos

Estimulantes usados para o tratamento em crianças e adolescentes, como metilfenidato e dextroanfetamina, têm sido efetivos para tratar os sintomas em adultos mais velhos, de acordo com Goodman. “As pessoas mais velhas tendem a responder igualmente bem a essas medicações”, diz ele.

No geral, adultos mais velhos precisam de doses mais baixas de medicação. Para os seus pacientes, Goodman diz que ele iniciaria com uma dose baixa e aumentaria aos poucos conforme os sintomas clínicos. Os médicos também devem considerar os riscos cardíacos dessas medicações, incluindo aumento da frequência cardíaca e pressão sanguínea.

Mudanças de estilo de vida como alimentação saudável, bom sono e exercício regular também podem ser benéficas para pessoas com TDAH.

“Quando fazemos exercícios aeróbicos, nosso cérebro produz essa proteína chamada BDNF, que significa fator neurotrofico derivado do cérebro”, disse Nadeau. “O BDNF promove crescimento de novos neurônios no nosso cérebro o que melhora a memória. Eu sempre falo para os idosos com TDAH sobre como é importante se exercitar o suficiente para produzir uma frequência cardíaca de até 80% o máximo por pelo menos 20/30 min por dia.”

De acordo com Collier, exercício regular ajuda a impulsionar a dopamina, norepinefrina e serotonina no cérebro, potencialmente ajudando na atenção, enquanto a melhora do sono e da rotina de sono, pedir suporte da família ou de outros para criar estrutura e simplificar tarefas e criar lembretes para lembrar das atividades diárias podem ajudar a criar estrutura e diminuir os sintomas de TDAH.

Ramsay diz que a terapia cognitivo-comportamental – que tem sido efetiva em tratar depressão e ansiedade – pode também ser benéfica para pessoas com TDAH, especialmente para adultos mais velhos entrando na aposentadoria.

“ Se você suspeita que seus sintomas podem ser o resultado do TDAH, especialmente se algum membro próximo da família recebeu o diagnóstico,” escreve Collier, “não hesite em pedir para o médico generalista um encaminhamento para um especialista especializado no diagnóstico e manejo do TDAH e adultos mais velhos.”

Artigo adaptado e traduzido de https://www.beingpatient.com/adhd-in-older-adults/

Comentário da equipe do PRODAH:
A mensagem central da matéria de que o TDAH pode estar presente na terceira idade e que devemos avaliar a sua presença é fundamental. Como ilustração, a idade mais avançada para um diagnóstico na terceira idade feito pela equipe do PRODAH foi 82 anos. O paciente, hoje, aos 88 anos, está muito melhor com o tratamento implementado. Entretanto, algumas das considerações contidas na matéria são ainda especulativas. Por exemplo, não sabemos ao certo qual o grau de eficácia da terapia cognitiva comportamental em idosos com TDAH, ou por quais mecanismos neurobiológicos o exercício aeróbico parece melhorar a atenção. Por fim, na presença dos sintomas de disfunção executiva importantes na terceira idade sempre é prudente também termos uma avaliação por médico com experiência com os diversos tipos de demência.

O Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade (ProDAH) é uma área de atividades do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência e do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e do Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) dedicada ao ensino, pesquisa e atendimento a pacientes com o transtorno.
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COMO É TER TDAH COM MAIS DE 50 ANOS DE IDADE?

COMO É TER TDAH COM MAIS DE 50 ANOS DE IDADE?

Muito do nosso conhecimento sobre o TDAH vem de estudos com crianças e adultos jovens. Apesar de que boa parte das crianças com TDAH persistirão com o problema até a idade adulta, há menos estudos avaliando os impactos do TDAH nessa população. Mundialmente, as estimativas de prevalência do transtorno em adultos variam entre 2,8-4,4%. Muitos deles também sofrem com outras comorbidades, como depressão, transtornos de humor e conduta e abuso de substâncias.

Recentemente, um estudo sueco buscou avaliar os impactos do TDAH na vida de pessoas com mais de 50 anos de idade. Os pesquisadores entrevistaram 10 adultos com idades entre 51 e 74 anos sobre diversos aspectos da vida. Os participantes eram “encorajados a compartilhar sobre os sentimentos, pensamentos e desafios da vida diária, como eles lidavam com eles, o que havia mudado ao longo dos anos e se alguma coisa melhorou com a idade”, escrevem os pesquisadores.

Segundo os autores do estudo, estudos qualitativos anteriores nessa população demonstraram que os adultos referiam pouca diferença nos sintomas e impactos do TDAH com a idade. Além disso, alguns aspectos positivos como criatividade, entusiasmo, percepção da multiplicidade das coisas, hiperfoco e multitasking também foram referidos previamente.

Nesse estudo, os pesquisadores escrevem que os participantes ficaram felizes por poder compartilhar suas experiências.  “Eles se sentiam tristes por terem sofrido por tantos anos sem ajuda ou sem um bom entendimento do porquê ou como lidar com o problema”. Além disso, “o abuso de álcool, comida ou drogas também foi revelado bem como outras áreas de problemas físicos ou emocionais. As áreas de maior problema eram esquecimento, pensamentos acelerados incontroláveis, dificuldade com o manejo do tempo e a inabilidade de focar nas tarefas”.

De forma interessante, os entrevistados que possuíam “ trabalho criativo, tarefas desafiadoras, mudança de local de trabalho e horas tarde de trabalho parecia ter menos problemas relacionados ao trabalho”.

Os participantes também apontaram fatores protetivos como “ família compreensiva, amigos fiéis, trabalho flexível e colegas de trabalho compreensivos”.

O estudo separou os achados em temas:

Quanto ao sentimento de ser diferente, desorganizado e esquecido:

Muitos dos participantes se queixavam de sentimento de culpa e vergonha, sobretudo quando havia alguma forma de avaliação de performance. Um entrevistado disse: “Sobre estudar: eu não entendia rápido ou suficientemente. Eu precisava saber exatamente o que fazer, eu não entendo. Eu tenho um bloqueio na mente e me sinto culpado. Eu ficava com tanta ansiedade que me escondia no banheiro. O que eu devo fazer? ”

Eles relataram que os problemas pareciam ter aliviado com a idade e que o diagnostico deu algum senso de alívio.

Eles também descreveram dificuldade no planejamento e com a expectativa criada pelos outros. As tarefas diárias eram um desafio, para as quais eles precisavam desenvolver estratégias: alguns usavam calendários e notas. Muitos se queixaram também da dificuldade com o cuidado do lar, tendo problemas com bagunça e limpeza.

Controle de Impulsos:

A impulsividade causava muitos problemas como: multas de trânsito por excesso de velocidade, perda da carteira de motorista, acidentes de transito, fugas de casa, envolvimento sexual precipitado e gravidez precoce.

Relacionamentos:

Muitos dos entrevistados revelaram preocupação com as relações sociais. Eles sofriam para entender as normas sociais e para agir de maneira adequada com as situações. Muitas vezes falavam demais, falavam coisas que não deviam ou sem pensar nas consequências, ou eram muito sensíveis.

Trabalho e finanças:

Quanto a vida laboral, muitos tinham dificuldade de manter a funcionalidade e tinham medo de serem excluídos dos grupos de trabalho. Dificuldade em pagar contas e manejar as finanças de casa era um problema comum. Eles descreveram uma dificuldade para entender termos, condições e preços nos contratos. Para lidar com isso, a solução era criar rotinas e ter ajuda no planejamento.

Esse estudo é interessante porque mostrou que algumas das dificuldades que são comumente enfrentadas por adultos jovens com TDAH, se mantem na meia-idade e terceira idade. Muitos dos entrevistados se frustravam com o fato de terem sofrido boa parte da vida sem saber que problema tinham ou como podiam lidar com ele. Isso nos mostra como o diagnóstico é importante. Infelizmente muitas pessoas recebem diagnóstico tardio ou nunca são diagnosticadas. O TDAH pode causar muitas dificuldades em diversos aspectos diferentes da vida de uma pessoa. Existem várias estratégias que podem ser empregadas para ajudar a lidar com esses problemas e uma parte crucial para isso é entender que dificuldades são essas e o que está acontecendo.

Uma boa notícia é que cada vez mais a ciência compreende o TDAH e cada vez mais pessoas estão sendo diagnosticadas. Hoje se sabe, por exemplo, que algumas pessoas podem receber o diagnóstico na vida adulta e assim elas podem receber ajuda.

 

Referência:
– Anne Nyström, Kerstin Petersson & Ann-Christin Janlöv (2020): Being Different but Striving to Seem Normal: The Lived Experiences of People Aged 50+ with ADHD, Issues in  Mental Health Nursing, DOI: 10.1080/01612840.2019.1695029

Link: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/01612840.2019.1695029

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