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PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

TEMPO DE EXPOSIÇÃO A TELAS ANTES DE DORMIR E O EFEITO NO SONO DE CRIANÇAS

TEMPO DE EXPOSIÇÃO A TELAS ANTES DE DORMIR E O EFEITO NO SONO DE CRIANÇAS

Muito se houve falar, sobretudo quando o tema é higiene do sono, que a exposição às telas como televisão e celular próximo ao horário de dormir tem um efeito negativo na qualidade do sono, o que pode ser um motivo de preocupação para pais de crianças e adolescentes.

Um estudo financiado pelo instituto Eunice Kennedy Shriver National Institute of Child Health and Human Development (NICHD) encontrou que o uso de mídias eletrônicas a noite estava associado a redução do sono em crianças, mais acentuadamente naquelas que pontuavam menos em uma medida de auto-controle – a capacidade de filtrar impulsos inapropriados, focar a atenção e completar tarefas difíceis.

Embora seja possível ajudar crianças a desenvolver auto-controle, os pesquisadores dizem que seria mais produtivo ajudá-las a desenvolver um hábito saudável de uso de telas e de rotina de sono antes da adolescência, quando os pais passam a ter menos influência nos hábitos de sono de seus filhos.

O estudo foi conduzido por Kathryn Lemery-Chalfant, Ph.D., da Arizona State University, e colegas e foi publicado na Psychological Science.

Estudos anteriores haviam associado o uso de mídias eletrônicas próximo do horário de dormir com diferenças na qualidade, quantidade e tempo de sono em crianças e adolescentes. O presente estudo se propôs então a avaliar se essa associação variaria de acordo com as características das crianças. Eles buscaram determinar se diferenças na capacidade de auto-controle seriam capazes de influenciar o sono após o uso de mídias.

Os pesquisadores acompanharam o padrão de sono de 547 crianças, com idades entre 7 e 9 anos, por uma semana. Os pais mantinham diários dos horários que seus filhos iam dormir e acordavam e dos horários em que eles usavam mídias. O uso de mídias consistia em usar um computador desktop ou laptop, ver televisão, jogar videogames ou usar um telefone celular ou tablet para jogos ou internet.  Para avaliar objetivamente o sono, as crianças usavam actígrafos – dispositivos semelhantes a um relógio de pulso que analisava os seus movimentos e a luz ambiente. Ao registrarem  inatividade, os pesquisadores estimavam quanto tempo as crianças dormiram.

Os pais responderam ao questionário “Temperament in Middle Childhood Questionnaire”, desenhado para pontuar os traços de personalidade dos seus filhos, incluindo o auto-controle. As medidas de auto-controle incluíam o grau de capacidade que as crianças tinham para se obrigar a fazer os temas de casa, mesmo quando elas tinham vontade de brincar; se elas se distraiam facilmente ao ouvir uma história e se elas tinham facilidade em esperar para abrir um presente.

Em média, as crianças dormiam 8 horar por noite e usavam mídia antes de dormir em 5 das 7 noites. Aquelas que usavam mídia antes de dormir, dormiam em média 23 minutos a menos por noite e iam dormir 34 minutos mais tarde que aquelas que não usavam. Contudo, ao comparar usos equivalentes de mídia antes de dormir, crianças que tinham um alto grau de auto-controle dormiam 8 horas e aquelas com baixo grau de auto-controle dormiam 40 minutos a menos.

Portanto, de acordo com os resultados, a capacidade de auto-controle seria capaz de atenuar o efeito do uso de mídias a noite sobre o sono. Os pesquisadores teorizaram que crianças com baixo nível de auto-controle podem ter dificuldade de se acalmar após usarem mídias e podem ter dificuldade de adormecer. Apesar de que o auto-controle possa ser melhorado, eles adicionam, isso é um traço de personalidade e é difícil de mudar.

“Ao invés dos pais pensarem em como eles podem ajudar seu filho a melhor regular seu comportamento, eles podem tentar focar em desenvolver um cronograma mais consistente do sono e do uso de mídias”, disse a autora Leah Doane, Ph.D., da Arizona State University.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.nichd.nih.gov/newsroom/news/062620-screen-time

Mensagem da curadoria PRODAH:
Lembrem sempre que estudo de correlação não mede causalidade. Pode ser que exista algum fator biológico cerebral que determina tanto a dificuldade de sono, como de autocontrole e de maior avidez por tempo de tela, ou ainda causalidade inversa, ou seja, quem dorme menos, tem menos autocontrole e por ter menos necessidade de sono fica mais tempo na tela.

Referência:
1.Clifford S, Doane LD, Breitenstein R, Grimm KJ, Lemery-Chalfant K. Effortful Control Moderates the Relation Between Electronic-Media Use and Objective Sleep Indicators in Childhood. Psychological Science. 2020;31(7):822-834. doi:10.1177/0956797620919432

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RECEBER UM DIAGNÓSTICO DE TDAH PODE PREJUDICAR A PERFORMANCE ACADÊMICA?

RECEBER UM DIAGNÓSTICO DE TDAH PODE PREJUDICAR A PERFORMANCE ACADÊMICA?

O diagnóstico de doenças -tanto físicas como mentais- além de influenciar no tratamento e prognóstico, possui um impacto psicológico no paciente. Comparando-se afecções físicas e mentais, esse impacto pode ser muito maior nos transtornos psiquiátricos, seja pelo estigma social ou por serem doenças com potencial de influenciar diversos aspectos da vida.

Recentemente, foi publicado um estudo sobre os efeitos do diagnóstico de TDAH em crianças no Sociology of Education. Os resultados levantam uma questão interessante: a intensidade dos sintomas antes do diagnóstico pode estar associada ao ajustamento após o mesmo. No estudo, as crianças que tinham sintomas menos graves de TDAH antes do diagnóstico que usaram medicação ou não tinham ajustamento de comportamento social e acadêmico pós diagnóstico pior do que as crianças sem TDAH. Já as crianças com sintomas mais graves de TDAH antes do diagnóstico que usaram medicação tiveram um ajustamento pós-diagnóstico similar ao das crianças sem diagnóstico. Os autores do estudo interpretaram os achados como sinalizando que o diagnóstico e tratamento teve um efeito deletério em crianças com TDAH mais leve, diferentemente dos casos de TDAH com sintomas mais intensos.

Alguns pesquisadores teorizam que crianças com TDAH em idade escolar demonstram consciência das diferenças entre elas e os outros, fazendo com que elas inconscientemente diminuam sua performance em medidas sociais e acadêmicas em comparação com seus colegas, ao mesmo tempo em que a medicação poderia reforçar essa diferença de percepção.

Outros estudos também sugerem o impacto do rótulo na avaliação dos estudantes pelos professores. Mesmo quando apresentados com descrições hipotéticas sobre estudantes, os professores tendiam a avaliar a inteligência, o comportamento e a personalidade dos estudantes com TDAH desfavoravelmente em relação com seus colegas.

O estudo publicado no Sociology of Education analisou dados longitudinais de cerca de 10.000 estudantes de ensino fundamental dos Estados Unidos. Os dados, retirados da Early Childhood Longitudinal Study-Kindergarten Cohort (ECLS-K), foram coletados entre 1998 a 2008 pelo National Center for Education Statistics. Esses dados permitiram que pesquisadores observassem os efeitos a longo prazo do diagnóstico de TDAH e da medicação na performance acadêmica e social das crianças.

Contudo, os dados do ECLS-K possuem várias limitações. Todos os dados sobre TDAH provém de apenas três perguntas feitas aos pais sobre o diagnóstico entre a primeira e terceira séries do ensino fundamental, ou seja, nenhuma avaliação diagnóstica foi feita. A pergunta sobre uso de medicação foi feita apenas sobre uso corrente. Portanto, se naquele período, os pais reportaram que seus filhos não faziam uso de medicação, o ECLS-K computou que eles nunca fizeram uso de medicação, mesmo que tenham feito uso anteriormente ou que viessem a fazer uso depois. Isso pode ter feito com que as conclusões desses estudos sobre o impacto do uso de medicação na aprendizagem tenham sido enviesadas. Além disso, não houve avaliação da dosagem, aderência e o tempo de tratamento do TDAH, fatores que podem contribuir na performance. Sabe-se, por exemplo, que pais de crianças com sintomas mais graves de TDAH tendem a manter de forma mais consistente o tratamento medicamentoso de seus filhos, o que poderia resultar nos melhores resultados para esse grupo vistos no estudo. Pais de crianças com sintomas de TDAH mais leve aderem pior, o que pode determinar pior ajustamento futuro de seus filhos pelo uso inadequado do tratamento.

“Nós precisamos de um estudo de acompanhamento longo, com controles -não apenas estudantes não diagnosticados- que acompanhe os participantes dos 7 aos 18 anos”, disse o Dr Atih Amanda Seif, psiquiatra de crianças e adolescentes de Los Angeles, “uma vez que muitos estudantes não demonstram sintomas de TDAH até a adolescência”. Além disso, ao focar em melhorias em testes padronizados “estamos focados em medidas que podem mascarar outras melhorias que os estudantes experienciam ao tomar medicação para os seus sintomas de TDAH”.

Apesar das falhas potenciais nesses estudos, esses achados nos lembram a importância de se levar em consideração as percepções e o estigma envolvendo o TDAH e os problemas de comportamento ou aprendizado. Eles também apontam para o estresse dos pais e professores e para a estrutura dos sistemas de ensino que se baseia fortemente em testes padronizados.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.neurologyadvisor.com/topics/neurobehavioral-disorders/adhd-diagnosis-effect-on-academic-performance/

 

 

 

 

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ADESÃO A MEDICAMENTOS EM PACIENTES COM TDAH.

ADESÃO A MEDICAMENTOS EM PACIENTES COM TDAH.

O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) é uma condição médica crônica comum, que afeta entre 6-9% das crianças e se estende até a vida adulta em até 60% dos casos. Dados de 2016 da população dos Estados Unidos mostraram que 9,4% das crianças entre 2-17 anos apresentava diagnóstico de TDAH. Mundialmente, a prevalência do TDAH é estimada em 4% e meninos tem entre 2 a 4 vezes mais chance de serem diagnosticados com TDAH do que meninas.

A abordagem do TDAH é multidisciplinar e inclui educação, psicoterapia e farmacoterapia, independentemente da idade. Entre crianças e adolescentes com TDAH, cerca de 2/3 recebem farmacoterapia e aproximadamente metade recebe psicoterapia. A terapia combinada com fármacos e atendimento psicológico é comum, mas não ocorre para todas as pessoas. Estima-se que 25% das pessoas permanecem sem tratamento.

Os medicamentos estimulantes como metilfenidato e derivados anfetamínicos são a base da terapia farmacológica e têm sido usados por mais de de 30 anos. Uma variedade de formulações dessas medicações está disponível no mercado: na forma de tabletes orais e capsulas. As capsulas e tabletes existem na forma de liberação imediata, que necessitam de 2 a 3 administrações diárias ou formulações de liberação lenta que podem ser tomadas 1 vez ao dia. Existem vários medicamentos não estimulantes, como atomoxetina, clonidina e guanfacina (apenas a clonidina disponível no Brasil). Os benefícios, riscos e perfis de segurança desses medicamentos são bem conhecidos.

Numerosos estudos têm demonstrado que estimulantes melhoram significativamente a atenção, a concentração, o comportamento, a memória visual de curto prazo e performance global no TDAH. Um parâmetro muito utilizado para avaliar a magnitude dos desfechos é o número necessário para tratar (NNT) que, quanto menor o número, mais eficaz é o tratamento. Por exemplo, um NNT de 1 significa que toda pessoa que receber o tratamento vai se beneficiar.

Em um estudo de Biederman et al, o NNT dos estimulantes foi estimado em “3” para prevenir desordens de comportamento disruptivo e reprovação de matérias na escola,  e em “4” para prevenir acidentes de veículos automotores. Esses achados comprovam que os estimulantes são efetivos em prevenir comportamentos disruptivos, impedir que uma criança reprove em uma matéria na escola e prevenir acidentes de transito comparado com o TDAH não tratado. Para adolescentes e adultos jovens, prevenir acidentes de transito pode ser de grande benefício para a saúde pública.

Infelizmente, a adesão pobre e a descontinuação prematura dos estimulantes continuam a ser um problema. Pappadopulos et al reportaram que as taxas de adesão em crianças com TDAH variava entre 56-75%, com mais de 50% delas descontinuando o tratamento apesar da eficácia. A acurácia de estudos de adesão depende da metodologia do estudo. Estudos de adesão com crianças tipicamente utilizam métodos que incluem prescrição e renovação de receita e o relato verbal dos pais. Esses métodos podem não representar a verdadeira adesão a medicação pelas crianças.

Em um estudo, a medição da concentração de biomarcadores na saliva para avaliar adesão foi comparada ao relato verbal dos pais. Todos os 254 participantes receberam metilfenidato por 14 meses.  Em cada visita mensal, os pacientes foram considerados aderentes se os pais referiam que a criança tomou 80% ou mais da medicação. Quatro amostras de saliva foram coletadas no 2, 6, 9 e 14º mês, para detecção dos níveis de metilfenidato na saliva.

Devido a variabilidade nas amostras de salivas obtidas por criança, os pacientes eram considerados aderentes se mais de 50% das amostras de saliva continham níveis detectáveis de metilfenidato. Os resultados dos níveis de medicação na saliva mostraram que 24,8% dos pacientes eram não-aderentes (até 50% das amostras de saliva sem detecção de medicamento) e 12,2% dos pacientes eram não-aderentes para todas as amostras. Apenas 53,5% dos pacientes eram aderentes em todas as 4 amostras de saliva. Portanto, de acordo com os resultados, o relato verbal dos pais pode superestimar a adesão e subestimar a não-adesão nos seus filhos.

Em um outro estudo, comparou-se o padrão de adesão em crianças com TDAH conforme o sexo, a gravidade do transtorno, status socioeconômico, entre outros fatores. Os dados foram coletados do Longitudinal Study of Australian Children (LSAC). Observou-se as prescrições de metilfenidato, dexamfetamina e atomoxetina entre maio de 2001 e março de 2015 em crianças acompanhadas continuamente com dados coletados a cada 2 anos. O tempo total de uso de medicação foi definido como o tempo entre a primeira e a última prescrição.

Os resultados mostraram que apenas metade (54%) tiveram um uso contínuo da medicação. Cerca de 21,6% tiveram uma interrupção e 25,4% tiveram duas ou mais interrupções no tratamento. A única variável capaz de predizer a cobertura medicamentosa foi o status socioeconômico. Um status socioeconômico mais elevado foi associado a um maior uso de medicação. Além disso, a cobertura medicamentosa tendia a ser maior no primeiro ano com queda progressiva até 3-4 anos e um aumento após 5 anos naqueles que permaneceram com uso de medicação depois desse período.

A análise de um grupo de crianças mostrou que a cobertura medicamentosa média era de 81% pelos primeiros 90 dias de uso e caia para 54% em diante após os 90 dias. Esse estudo sugere que os psiquiatras e outros profissionais de saúde devem frequentemente estimular pais e pacientes a manterem o tratamento por longos períodos. Além disso, aproximadamente 90% das crianças e adolescentes com TDAH responderam efetivamente a tanto o metilfenidato quanto a dexamfetamina.

Estudos diferentes, utilizando métodos de avaliação distintos, encontraram resultados semelhantes de não-adesão em aproximadamente 50% dos participantes. Muitos fatores podem contribuir para a não adesão, como o estigma, a explicação que os pais usam para o uso da medicação, estilo de vida, esquecimento, falta de tempo e status socioeconômico. Efeitos adversos e o uso concomitante de várias medicações podem também prejudicar a adesão. O monitoramento cuidadoso do uso de estimulantes e formulações de dose única diária podem ajudar a contornar esse problema.

Os guidelines atualizados para crianças e adolescentes com TDAH tem recomendações fortes sobre o uso de medicação em crianças maiores de 6 anos. Existem muitas áreas em aberto para pesquisa no desenvolvimento de métodos que facilitem a adesão, como o próprio uso de Apps como o FOCUS. Os estimulantes fornecem vários benefícios importantes comprovados no TDAH e todo o esforço deveria ser feito para minimizar a não-adesão.

 

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.psychiatrictimes.com/adhd/adherence-challenges-medications-patients-adhd

Referências:
-Efron D, Mulraney M, Sciberras E, et al. Patterns of long-term ADHD medication use in Australian children. Arch Dis Child. Epub ahead of print: (21, March 2020). https://adc.bmj.com/content/early/2020/01/14/archdischild-2019-317997

 

 

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CORONAVÍRUS: COMO CONVERSAR COM SEU FILHO E QUAL O IMPACTO EMOCIONAL NAS CRIANÇAS?

CORONAVÍRUS: COMO CONVERSAR COM SEU FILHO E QUAL O IMPACTO EMOCIONAL NAS CRIANÇAS?

Nesse momento cheio de incertezas em que estamos vivendo, muitos de nós nos sentimos angustiados. Essa nova carga de estresse emocional também pode pesar sobre as crianças e os adolescentes, o que deixa os pais preocupados e com dúvidas sobre como devem agir.

O professor e médico psiquiatra Luis Augusto Rohde selecionou algumas dicas de como os pais podem ajudar seus filhos durante esse período. Vale lembrar, como o próprio médico ressalta, que não existe uma receita certa de abordagem, mas que existem algumas técnicas que foram aprendidas ao longo do tempo pelos profissionais de saúde mental:

  • A máxima aqui de que “a fantasia é sempre pior do que a realidade” é o ponto de início. As escolas estão fechando, as pessoas andando com máscara nas ruas. Fazer de conta que nada está acontecendo, só aumenta a angústia das crianças. Essa angústia é “o caldo de cultura” para fantasias horríveis em crianças pequenas, como a do fim do mundo!
  • Inicie perguntando o que ela sabe sobre o coronavírus. Procure ter um entendimento claro do que ela tem medo, separando o que são fantasias da realidade. Crianças menores tendem a se preocupar mais intensamente com que algo de ruim possa acontecer com elas, familiares ou amigos. Lembre-se que esses temores podem ser ainda maiores para filhos de profissionais da área de saúde.
  • Na conversa, alguns componentes são fundamentais: usa uma linguagem apropriada para a idade da criança. Lembra da dificuldade que você teve para entender aquele epidemiologista mostrando diversos modelos matemáticos das curvas possíveis de transmissão da doença na TV? Pois é, não faça o seu filho passar pela mesma tortura! Seja honesto. Não prometa o que não pode cumprir. Coisas do tipo: “Nenhum de nós vai pegar essa doença” devem ser substituídas por: Temos várias maneiras de enfrentar essa doença, temos que trabalhar como time em casa”. Torne a situação um desafio a ser vencido, como uma etapa nos jogos de videogame.
  • Se temos que passar uma etapa, dois aspectos são essenciais: um clima de segurança de que temos condições de enfrentar a situação, e o aprendizado de estratégias de enfrentamento, como: lavar as mãos com agua e sabão por 20 segundos (para crianças pequenas, tempo igual a dois “parabéns a você) quando chegam em casa, antes de comer, após assoar o nariz, tossir, espirrar ou usar o banheiro, uso de álcool gel e as medidas de etiqueta respiratória. Um dos segredos aqui é tornar a tarefa algo lúdico com crianças menores. Por exemplo, descobrir maneiras inovadoras de cumprimentar-se sem o toque de mãos.
  • Um cuidado importante é não empurrar “goela abaixo” informações que a criança não perguntou, ou ainda não está no melhor momento para absorver. Em outras palavras, não comece a conversa sobre coronavírus falando sobre o colega de trabalho que parece estar doente e indo para o hospital. Ou seja, lembre-se de que para conversar de forma tranquila, você não pode estar num momento de maior estresse. Mais do que é falado, a criança aprende com o modelo! Dizer para a criança que a situação não requer preocupação maior e levá-la para comprar “o supermercado inteiro”, só por precaução, pouco ajuda.
  • Controle e supervisione a exposição de seus filhos a mídia. A exposição maciça e, muitas vezes, de informações que eles não têm condições de elaborar ou alarmistas, só aumenta o estresse.
  • Procure manter uma rotina previsível e estável. Fácil de falar, mas difícil de implementar nesse momento em que, de uma hora para outra, você foi notificado que seus filhos não vão mais a escola “desde ontem”! Pior ainda, provavelmente não poderá contar com os avôs que devem ficar mais resguardados. Nessa circunstância, os pais se perguntam: a partir de que idade o meu filho pode ficar sozinho em casa por um turno? Embora não pareça haver um divisor de águas nem científico e nem jurídico, a resposta da maioria dos especialistas seria que vai depender da maturidade de cada criança, mas certamente não antes dos 12-14 anos. Embora valha sempre lembrar que a realidade da maioria das famílias brasileiras não permite esse luxo, mesmo em tempos sem COVID-19, evite estratégias para as quais a criança não teve o adequado preparo. É o momento de implementar estratégias solidárias similares àquela de valer-se do grupo de amigos para o rodízio do transporte de crianças à escola.
  • Se há uma área onde os estudos são consistentes é a de que o suporte social é fundamental para lidar com o estresse. Vamos ter que ser inovadores nessa área e nos valermos inclusive das tão discutíveis plataformas digitais para mantermos o contato da criança com primos, outros familiares e amigos, ainda mais se evoluirmos para um estágio de “lockdown” mais restritivo.
  • Conversar uma vez é excelente, mas essa é uma conversa que deve se repetir continuamente. Até porque a situação e as recomendações estão mudando dinamicamente.

Essas estratégias podem ajudar as crianças à enfrentarem o estresse emocional associado ao COVID-19. No entanto, é importante lembrar que essa é uma situação ainda mais delicada em crianças com vulnerabilidade emocionais, como aquelas que experienciaram doenças graves ou perdas no passado e aquelas com suscetibilidade para transtornos psiquiátricos, como os Transtornos de Ansiedade, Transtorno Obsessivo-Compulsivo ou de Estresse Pós-Traumático. Essas crianças podem merecer uma atenção mais cuidadosa de um profissional de saúde mental nesse momento.

Artigo adaptado de https://veja.abril.com.br/blog/letra-de-medico/coronavirus-qual-o-impacto-emocional-na-crianca-e-como-conversar-com-ela/

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ESTRESSE, ESGOTAMENTO E FADIGA: CUIDADO O TDAH DO SEU FILHO PODE TER PROFUNDAS CONSEQUÊNCIAS EM VOCÊ

ESTRESSE, ESGOTAMENTO e FADIGA: CUIDADO O TDAH DO SEU FILHO PODE TER PROFUNDAS CONSEQUÊNCIAS EM VOCÊ

Cuidar de uma criança com TDAH é um dos mais desafiadores trabalhos. Famílias com filhos diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade precisam aprender a superar grandes cargas de estresse.

Neste caso, é importante que você domine diversas capacidades de gerenciamento para manter ou restaurar a calma e a resolução de problemas.

Sim, ter filhos pequenos, com TDAH ou não, exige tais capacidades. Mas, mães e pais de crianças com distúrbios de desenvolvimento e saúde mental geralmente têm que lidar com estas questões em outra magnitude.

Cuidar de um filho com TDAH pode se tornar um trabalho em turno integral:
– você monitorará seu filho constantemente;
– você repetirá regras e direções o tempo todo;
– você, fatalmente, passará grande parte do tempo conversando com professores e coordenadores da escola;
– você estará cansado grande parte do tempo.

São reais as consequências do estresse crônico relacionado à tarefa de educar crianças com necessidades especiais. Estudos1 mostraram que pais de crianças com distúrbios de desenvolvimento e de aprendizagem têm muito mais chances de passar pelas seguintes situações:
– Ansiedade
– Depressão
– Insônia
– Fadiga
– Problemas mentais1

De acordo com um estudo britânico2, o estresse crônico coloca estes pais em riscos médicos graves. Esta pesquisa descobriu que pais de crianças com autismo ou TDAH tem muito mais chance de terem altos níveis de cortisol (o hormônio do estresse), e PCR (Proteína c-reativa), um biomarcador ligado a incontáveis questões, que vão do câncer colorretal até diabetes, passando por problemas cardíacos.

É importante que abordemos estes riscos, tanto pelo bem-estar das crianças quanto pela saúde dos pais.

Vamos dar uma olhada em fatores geradores de estresse. Veremos, também, algumas sugestões para colaborar na construção de famílias mais equilibradas e emocionalmente capazes de se comprometer com o bem-estar de todos.

Aceite seus limites

Especialistas concordam que a grande causa do estresse é um pensamento típico: você passa a acreditar que é a única pessoa que pode ajudar seu filho e que sua capacidade é ilimitada.1

Dr. Wendy Blumenthal, uma psicóloga de Atlanta, diz que vê mães chegarem a um ponto de colapso, porque carregam todas responsabilidades de seus filhos com necessidades extras. “Estas supermães não dormem, estão sempre ansiosas e ligam para todos os médicos que conseguem imaginar”, explica Blumenthal.

Elaine Taylor Klaus, cofundadora do Impact ADHD3, oferece treinamento para pais de crianças com TDAH e outras desordens. Ela conta que “estes pais sentem que deveriam ser capazes de fazer tudo, sendo que a primeira coisa que precisam aprender é a cuidarem de si mesmos”. Klaus alerta para os perigos que situações de estresse constante geram em longo prazo.

Precisamos salientar que existem diversos tipos e intensidade de esgotamento. Este amplo espectro inclui exaustão física e mental, monotonia, frustração ou até o conhecido sentimento de derrotismo.

Claro, é muito provável que você sinta um pouco de cada um deles. Porém, é importante que você entenda o que está sentindo para buscar a abordagem mais eficiente, que restaure sua energia e habilidade de seguir enfrentando os desafios.

Independentemente do que você estiver sentindo – ou da intensidade da questão, algumas práticas são fundamentais para a saúde física e mental de pais de crianças com TDAH:
– Durma sempre que possível. Dormir é o maior aliado do combate ao estresse e você, provavelmente, já sabe disso. Entendemos que o sono parece um luxo nestes casos, mas falamos sobre priorizar seu sono acima do celular, da televisão ou de quaisquer distrações que não sejam cruciais para o seu relaxamento.
– Mantenha-se hidratado e bem alimentado.
– Mexa seu corpo. Exercite-se com regularidade.
– Tenha um lazer prazeroso, um momento para ficar longe das crianças.

Agora que já abordamos as inevitáveis questões fundamentais para o seu bem-estar, podemos passar a outras situações e soluções que melhorarão sua qualidade de vida em geral.

Isolamento e exaustão

Quando você tem uma criança com um comportamento difícil ou cujas necessidades são desafiadoras, o sentimento de isolamento se acentua e, com ele, o estresse. Colegas, vizinhos, amigos, família e até mesmo o cônjuge parecem estar em outro planeta.

Mas, a verdade é que as pessoas querem ajudar – elas só não sabem como.

Os pais precisam aprender a dar direções objetivas aos ajudantes e cuidadores:
– você pode ficar com as crianças na quarta-feira para que eu consiga cortar o cabelo?
– você pode comprar esta lista de itens no supermercado para mim?

Estes pedidos concretos serão atendidos pelas pessoas e você mudará sua percepção sobre o abandono e o isolamento.

Caso não seja possível contratar uma babá, você pode propor períodos de troca com outros pais (até mesmo formar uma rede de pais) de crianças com desordens de aprendizado na sua cidade. Vocês podem alternar momentos de cuidados dos pequenos e, assim, criar folgas saudáveis para todos.

Vida social

Muitos pais de crianças com distúrbios de comportamento e desenvolvimento acabam perdendo o contato com amigos ou param de fazer atividades fora de casa.

Cuidar da sua saúde emocional e social é tão importante quanto qualquer outra prática física, como se exercitar ou dormir bem, diz Dr. Matthew Rouse, psicólogo do Child Mind Instute.3

Ele levanta a importância da vida social adulta e questiona os pais que atende em seu consultório:
– O que vocês estão fazendo por si mesmos?
– O que vocês estão fazendo como casal?
– Quando foi a última vez que você se divertiu com amigos?

Para minimizar estes sentimentos de afastamento da vida social, Dr. Rouse recomenda:

Crie uma rede de amigos fora do âmbito familiar. Grupos de apoio são ótimos, diz ele, mas ainda estão ligados ao universo do seu filho.

O que você deve buscar aqui são atividades que coloquem você em foco. São momentos de prazer, como ler em um parque, correr ou pintar.

O psicólogo explica que, se você apenas doar suas energias mentais sem repô-las, cedo ou tarde, elas se esgotarão – e seu filho sofrerá as consequências junto com você.

Cuidar do casamento

Ao longo dos anos, os pais terão que dar atenção extra para a relação mais vulnerável das suas vidas: o casamento.

Uma pesquisa concluiu que pais com crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm duas vezes mais chance de se divorciarem até o filho atingir a idade de oito anos.

Surpreendentemente, após os oito anos da criança, as diferenças nas taxas de divórcio entre pais de crianças diagnosticadas com TDAH ou não se tornam irrelevantes.4

Outros fatores colaboram no desfecho da separação, dizem os pesquisadores. Desordens coexistentes, como Transtorno Desafiador Opositivo ou Transtorno de Conduta podem agravar o quadro dos conflitos em casa.

Comportamentos antissociais do pai também impactam na probabilidade da separação, bem como diferenças no grau de educação entre os cônjuges.

William E. Pelham Jr., Ph.D, professor de Psicologia e Pediatria na Universidade de Buffalo, participou do estudo.

Ele explica que o mais grave fator de conflitos é a dissonância na forma de enxergar as dificuldades do filho. Por exemplo, a mãe considera determinado comportamento na escola um problema, mas o pai releva, considerando a situação algo natural da criança.

Este tipo de desarmonia na percepção da educação do filho é o maior fator de brigas no casal, explica o pesquisador.

Mas, nada disso é uma fatalidade inescapável. São alertas para que você compreenda que você e seu casamento também são uma prioridade no tratamento do seu filho.

Pelham já traz o caminho para as conclusões do próprio estudo: os pais precisam trabalhar em conjunto, argumenta. Eles precisam aprender, juntos, habilidades necessárias para o desafio de ter um filho.5

Utilizem os momentos que a criança está na escola ou na terapia para fazerem algo breve em casal. Em casa, tirem instantes para namorar, cozinhar ou ouvir música juntos.

Sobre a dissonância de percepção na educação e no comportamento do filho, Dr. Rouse propõe uma prática benéfica: tire um momento antes de dormir para conversar com seu parceiro sobre a situação mais difícil e a mais recompensadora do dia. Estes balanços, tão positivos para afinar a vida em casal, também são estratégias eficientes para afinar a percepção sobre o filho.3

Mãe e filhos com TDAH: ainda mais interligados

Todos sabemos do poder das relações entre mães e filhos. A mãe é capaz de adoecer com seu filho, de vibrar junto com a felicidade do filho e de sentir tristeza paralisante frente ao fracasso do filho.

Porém, as mães de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm laços ainda mais sensíveis.

Foi o que descobriu um estudo da Universidade da Califórnia, em Irvine.6 Os pesquisadores avaliaram o humor das crianças com TDAH e de 51 mães a cada 30min. A descoberta não foi nada surpreendente: o humor das mães e dos filhos coincidiram. Os comportamentos que mais geraram estresse nas mães estavam relacionados à hiperatividade, falta de concentração e desobediência.7

Você e seu filho se influenciam mutuamente. Sua saúde mental e física é uma peça-chave na qualidade de vida da criança.

Agora, você já pode compreender a importância de pensar no tratamento do TDAH como uma dinâmica familiar, que inclui você e seu casamento. Abordagens integradas e a participação de toda a família transformam o peso da dificuldade em desafios (e celebrações) de crescimento conjunto.

1 WHY SELF-CARE IS ESSENTIAL TO PARENTING. THE CHILD MIND INSTITUTE. Disponível em: https://childmind.org/article/fighting-caregiver-burnout-special-needs-kids/ . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

2 LOVELL B et al., 2011. The psychosocial, endocrine and immune consequences of caring for a child with autism or ADHD. Psychoneuroendocrinology. 2012 Apr;37(4):534-42. doi: 10.1016/j.psyneuen.2011.08.003. Epub 2011 Sep 1. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21889267 . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

3 IMPACT ADHD. Disponível em: https://impactadhd.com/author/elainetaylorklaus/ . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

4 WYMBS et al., 2008. Rate and predictors of divorce among parents of youth with ADHD. J Consult Clin Psychol., 76(5), 735–744. doi:10.1037/a0012719 Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2631569/ . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

5 DIVORCE MORE LIKELY IN ADHD FAMILIES?. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/childhood-adhd/news/20081024/divorce-more-likely-in-adhd-families#1 . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

6 WHALEN CK et al., 2008. Dissecting daily distress in mothers of children with ADHD: an electronic diary study. J Fam Psychol. 2011 Jun;25(3):402-11. doi: 10.1037/a0023473. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21517172 . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

7 THE ADHD ROLLERCOASTER: STRESSED PARENTS NEED HELP, TOO. LIVE SCIENCE. Disponível em: https://www.livescience.com/15198-adhd-stressed-parents.html . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

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O QUE FAZER EM MEIO A TANTOS “PALPITES” TDAH? Ph.D Dá Uma Lição De Força, Acolhimento E Sabedoria Para Pais E Mães

O QUE FAZER EM MEIO A TANTOS “PALPITES” TDAH? Ph.D dá uma lição de força, acolhimento e sabedoria para pais e mães

“TDAH é culpa dos pais”. “Corte o açúcar e os videogames e o TDAH desaparecerá”. “Você precisa ser mais firme e impor limites”.

Se você tem um filho com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, provavelmente já ouviu algum destes “conselhos”, vindos de pessoas com pouco ou nenhum conhecimento sobre a desordem.

A frustração de ouvir algo assim é grande. Estas falas, mesmo sem fundamento, podem acabar afetando os pais (e os filhos indiretamente).

Sabemos como o tratamento para TDAH não envolve apenas os pacientes. A família deve estar engajada nos mais diversos aspectos e, feliz ou infelizmente, saber como agir para mudar estas ideias preconcebidas, tão desestabilizadoras, é uma forma de reafirmar seu poder e sua segurança sobre si mesma, como mãe, e sobre seu filho.

Para fortalecer as mamães e os papais que estão cansados do falatório, hoje vamos aprender o que Ruth Hughes, Ph.D, nos ensina sobre estes momentos cansativos e destrutivos1. Veremos o que pode ser feito para combater os estigmas sobre o TDAH e esclarecer os principais mitos sobre o transtorno.

Ruth Hughes foi uma peça importante na organização CHADD (Children & Adults with ADHD), uma das mais respeitadas do mundo. Psicóloga, Ruth foi a responsável pela criação dos treinamentos para famílias e escolas da instituição. Não apenas uma especialista na área com ampla experiência profissional, Ruth passou por tudo isso pessoalmente: ela é mãe de um paciente com TDAH, hoje já adulto.2

Vamos aprender as preciosas lições da doutora Ruth não apenas para educarmos as pessoas ao nosso redor, mas como também para nos sentirmos mais confiantes e otimistas sobre tudo que temos feito por nossas famílias.

Os dados aqui apresentados foram extraídos da palestra de Ruth Hughes para a CHADD. Se você fala inglês, sugerimos que assista à apresentação da psicóloga. Se não fala, sem problemas, fique conosco e prossiga sua leitura! https://www.youtube.com/watch?v=NE30kNOsl44

Qualquer pessoa que tenha um familiar com TDAH já ouviu alguma coisa próxima destes exemplos:

– Você não quer ficar medicando seu filho, não é mesmo?

– Se você fosse uma mãe melhor, seu filho se comportaria melhor.

– TDAH é desculpa para desorganização.

– Na minha época, isso não existia. Isso é culpa dos pais atuais.

O primeiro a ser dito é que não foi você que ouviu isso. Todos ouviram. Pais, avós, até mesmo os pacientes foram vítimas dos estigmas sobre o transtorno em algum momento de suas vidas.

Não é possível medir se dói mais ouvirmos estas questões como pais ou quando ficamos sabendo que os filhos escutaram, de professores ou colegas, que não conseguem fazer nada direito ou que só atrapalham.

Falas sem conhecimento podem vir de pessoas bem-intencionadas ou de pessoas nem tão bem-intencionadas assim. Independentemente da intenção, o impacto em nós é sempre negativo.

É isso que os estigmas fazem.

O que são estigmas?

São conjuntos de crenças negativas (e geralmente injustas), que a sociedade tem sobre um grupo ou sobre alguma coisa. Estigmas têm base em preconceito, falta de informação e discriminação.

Ou seja, não é apenas o TDAH que sofre com os estigmas.

Há não muitos anos, pacientes de câncer e AIDS sofriam de forma indescritível com os estigmas sobre suas doenças. Perceba como tudo isso tem mudado em pouco tempo: as campanhas de conscientização, o apoio que recebem e a informação que a sociedade tem.

Esta união entre informação e engajamento muda os estigmas, a cultura, os sistemas de crença e o julgamento. Isso exige tempo e esforço, mas as mudanças são necessárias e possíveis sim.

Principais mitos sobre o TDAH

Os três principais mitos sobre o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade são bem conhecidos por nós.

1 – “TDAH não é uma condição médica real. É falta de limites dos pais.”

O que responder a isso?

Bem, o TDAH é uma desordem neurobiológica. Podemos observar claramente as diferenças na atividade cerebral de pacientes diagnosticados com TDAH. Podemos ver respostas em diferentes partes do cérebro ou até falta de atividades em determinadas regiões. Vemos diferenças celulares – a própria comunicação entre um neurônio e outro. A dopamina e a norepinefrina são de fato diferentes em pessoas com TDAH.

TDAH é, sem sombra de dúvidas, uma condição médica.

2 – “Apenas crianças têm TDAH. Pare de se preocupar tanto. Elas vão crescer e superar tudo isso com o tempo.”

O que responder a isso?

A própria comunidade médica comprou este mito até uns 15 anos atrás. Hoje, sabemos que isso não é verdade. O TDAH é uma desordem que permanece a vida toda. O que percebemos é que os pacientes se tornam mais eficientes em administrar os sintomas ao longo dos anos.

3 – TDAH é hiperdiagnosticado. Estão medicando as crianças excessivamente.

O que responder a isso?

Na realidade, o TDAH é subdiagnosticado, explica a doutora Ruth. As avaliações podem ser mal conduzidas, os sintomas apresentados podem não ser apropriadamente verificados ou até mesmo confundidos com outras desordens. Por isso, é crucial enfatizarmos a importância de os pais serem incansáveis na fase do diagnóstico.

Mecanismos para lidar com a desordem

Ruth Hughes nos explica que há dois caminhos principais para enxergar o TDAH na sua vida e na vida do seu filho. Não existem respostas definitivas, certas ou erradas, mas a diferença na percepção sobre a condição tem um grande impacto na vida da criança e da família.

1 – O TDAH é algo positivo.

Você pode ir pelo caminho positivo e identificar as forças individuais que o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade gera no paciente.

Aqui, você observará a capacidade criativa que pacientes com TDAH podem ter. Você compreenderá a grande capacidade de enfrentar desafios e de assumir riscos dos pacientes e entenderá como estas características foram a base de grandes empresários e de profissionais mundialmente reconhecidos por sua inovação.

Identificar as forças individuais é uma das mais efetivas formas de lidar com os estigmas, defende a Dra. Ruth. Mas, você pode escolher outra via.

2 – O TDAH é uma condição médica séria.

Aqui, você optará pela seriedade da condição. Você compreenderá que o cérebro de um paciente com TDAH funciona de forma diferente e que um tratamento médico é necessário. Isso pode colaborar muito na forma com que os pais percebem os diferentes sintomas dos filhos, argumenta a doutora.

Os sintomas deixarão de ser tão cansativos e você poderá lidar com as situações sob outro viés, um viés médico, que pode ajudar na compreensão e na tranquilidade para cruzar os dias.

Como mudar a percepção das pessoas (e até mesmo a minha)?

Esta é a grande questão. Nossa percepção sobre o mundo não é exatamente uma decisão que tomamos a qualquer hora do dia. Estratégias e ferramentas são necessárias. É preciso esforço, reforço e comprometimento.

A Dra. Ruth Hughes enfatiza a importância de você compreender que sim, os estigmas externos, culturais, midiáticos, sociais etc podem ser prejudiciais, mas é o estigma interno – no seio familiar – que é o mais destrutivo.

Claro, pense em como você pode transformar sua comunidade, mas não esqueça de revolucionar sua própria percepção sobre seu filho e sua família.

Ainda, é importante que você entenda que é muito comum que pessoas com TDAH comecem a internalizar estas mensagens negativas vindas da sociedade ou da própria percepção familiar.

Surgem ideias como “eu sempre erro”, “eu sou um fracasso”, “eu nunca vou conseguir”. A Dra. Ruth categoriza estes pensamentos com o mais devastador sintoma do TDAH.

Felizmente, diz ela, este sintoma é o mais fácil de ser corrigido, porque ele não é causado pela desordem em si. Esta internalização dos estigmas são reações ao mundo externo. Esforce-se para elevar a autoestima do seu filho ao longo do tempo.

Agora, falando dos estigmas sociais, vamos finalizar vendo as três diferentes classes de intervenções que podemos assumir para transformar percepções públicas. Veremos as três maneiras possíveis de transformar crenças, segundo a doutora, e como elas podem ser aplicadas ao universo do TDAH.

Três maneiras para mudar percepções:

– Advocacy (engajamento)

Como falamos, estigmas envolvem discriminação. É aqui que entra o chamado advocacy, uma maneira de enfrentar problemas de forma politicamente ativa. Para engajar-se nesta causa, você localizará os locais onde o preconceito ocorre e analisará como ele se manifesta.

Exemplos de preconceito comuns no universo do TDAH: a escola se recusa a levar em conta a condição do seu filho (se a criança fosse cega, ela não passaria por isso), práticas disciplinares que não estão ajustadas ao TDAH, tratamento para a desordem não ser coberto por planos de saúde ou, ainda, mensalidades mais caras por causa da condição.

Estes são apenas alguns exemplos que os pais e as crianças sofrem cotidianamente. O que você pode fazer sobre isso? Inúmeros caminhos podem ser seguidos:

Você pode criar comunidades online para compartilhar esforços coletivamente, você pode levar estes grupos para o mundo real, promovendo passeatas, instituições, ONGs ou outras formas de mobilização social, você pode ir à mídia e pedir apoio para sua causa ou até mesmo encontrar o deputado da sua região e conversar para ver como esforços conjuntos podem ajudar na situação.

– Educação

Educação é sim uma importante ferramenta de transformação social. Contudo, surpreendentemente, a Dr. Ruth nos explica que esta estratégia, sozinha, é a que tem menos impacto. Não estamos dizendo que informação não importa, mas sim que, sem engajamento, participação e contato pessoal, ela pouco influenciará o público.

Podemos ver como a sociedade começou a mudar sua percepção sobre determinadas doenças com o engajamento de campanhas mensais sobre câncer de mama, de próstata, suicídio e outras graves questões de saúde. Informação aliada ao engajamento e ao contato pessoal é extremamente eficaz na mudança social.

E quais informações queremos levar ao público?

TDAH é uma condição real. TDAH tem tratamento. Com o tratamento e o apoio necessários, os pacientes podem sim administrar suas vidas. Aborde a importância da avaliação séria e aponte como fazê-la, onde obtê-la.

Compartilhe histórias pessoais. Inicie um blog, um grupo, um canal no YouTube. Fale com a mídia, com instituições na sua cidade, com o Prefeito. Promova eventos com médicos e especialistas na escola do seu filho. Ajude na conscientização sobre estas questões.

– Contato pessoal

Esta é a mais eficaz ferramenta para transformar estigmas. Não importa de qual estigma você esteja falando, explica a Dra. Ruth, o contato pessoal direto tem o poder de ultrapassar o preconceito.

Você vai além da sua percepção inicial, você passa a enxergar o outro não como uma ideia ou como uma desordem, mas sim como um ser humano. Este é o poder do contato.

Neste caso, você pode apresentar pessoas capazes de conviver com o TDAH, que administram suas vidas de forma bem-sucedida. Isso é crucial tanto para quem tem preconceito como para quem sofre com os sintomas.

Ainda, a Dra. Ruth nos fala como seu próprio filho, a partir dos sete anos, optou por contar aos seus colegas e professores sobre sua desordem. Ela educou o pequeno Chris a ensinar as outras crianças sobre as estratégias mais eficazes para conviverem com ele.

Desde então, quando Chris ficava excessivamente hiperativo e os colegas se afastavam, ele os avisava: eu tenho TDAH e vocês devem me lembrar de que eu devo me tranquilizar agora. Eu sei como fazer isso. Eu aprendi no tratamento para TDAH.

Dra. Ruth ensina que esta é a mais efetiva ferramenta para dissolver preconceitos. Quando o próprio paciente mostra, através de contato direto, que é possível conviver com o TDAH, que é possível dominar a desordem e que as estratégias do tratamento são sim eficientes.

Quando a sociedade enxerga e convive com a questão, as ideias preconcebidas simplesmente se desfazem. Vamos tentar?

Lembramos que os dados aqui apresentados foram extraídos da palestra da psicóloga Ruth Hughes para a CHADD. Assista à palestra na íntegra e conheça as histórias e conselhos desta Ph.D, responsável pelos treinamentos para pais e professores da CHADD. https://www.youtube.com/watch?v=NE30kNOsl44

Fontes:

1 COMBATING STIGMA AND ADDRESSING MYTHS ABOUT ADHD. HELP FOR ADHD. Disponível em: https://youtu.be/NE30kNOsl44 . Acesso em: 24 de outubro de 2018.

2 THE IMPORTANCE OF ADHD AWARENESS. VERYWELL MIND. Disponível em: https://www.verywellmind.com/the-importance-of-adhd-awareness-20474 . Acesso em: 24 de outubro de 2018.

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CASAMENTO E FILHOS COM TDAH – Um Desafio A Ser Superado

CASAMENTO E FILHOS COM TDAH – Um desafio a ser superado

Por muitos anos, cientistas exploraram como os conflitos parentais e outros problemas conjugais impactam a qualidade de vida dos filhos. Porém, pouca atenção foi dada a como os filhos impactam a qualidade de vida dos pais.

Casais com filhos diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm o dobro de chances de se divorciarem, em comparação a casais com filhos sem TDAH1.

A razão é simples: uma criança com dificuldade de atenção ou com hiperatividade pode ser altamente estressante. Assim, a situação pode potencializar conflitos e tensões entre todos, especialmente entre os pais.

“É muito difícil manter um casamento nos eixos quando você passa dia e noite administrando os sintomas da criança”, diz Brian T. Wymbs, Ph.D, autor do estudo que encontrou esta relação entre divórcio e TDAH. “TDAH é uma condição crônica e não irá embora. Então, não há fuga do estresse marital causado por um filho com o transtorno”, explica o pesquisador.2

Mas, não se desespere. Os pesquisadores apontam dois dados de grande importância para manter a calma e traçar um plano:

1 – A pesquisa de Wymbs concluiu que, após os oito anos de idade da criança, as taxas de divórcio entre casais com filhos com TDAH e com filhos sem TDAH se equiparam. Existe algo de mágico no número oito que traz esperança para os casais que chegam nesta etapa.

Claro que não é mágica: é tempo e dedicação para encontrar as estratégias necessárias tanto para minimizar os sintomas do filho quanto para afinar as diferenças naturais entre os pais – isso nos leva à próxima questão.

2 – O mais grave fator de conflitos entre o casal é a dissonância na forma de enxergar as dificuldades do filho com TDAH. Por exemplo, a mãe considera determinado comportamento na escola um problema, mas o pai releva, considerando a situação algo natural da criança.

Este tipo de desarmonia na percepção da educação do filho é o maior fator de brigas no casal, explica William E. Pelham Jr., Ph.D, professor de Psicologia e Pediatria na Universidade de Buffalo, que participou do estudo.

Agora que você sabe onde deve agir e quando as coisas ficarão mais tranquilas, é hora de traçar o plano de ação.

Como trabalhar em equipe?

Terry Dickson, diretor do Behavioral Medicine Clinic of NW Michigan, tem TDAH. Seus dois filhos também. Mas, sua esposa não. Ele explica que filhos com o transtorno “afetarão o casamento e ambos precisam estar igualmente comprometidos com fazer as coisas funcionarem”.3

Como podemos fazer isso?

Crie estrutura e rotina: previsibilidade é bom para as crianças e para o casal, porque ajuda a controlar o relógio e a criar tempo para o casamento.

Planeje regras para a vida em casa: todas as regras devem ser criadas de comum acordo e esclarecidas para todos. Quando o casal está em sintonia sobre o que deve ser feito com relação aos filhos, o espaço para conflitos é drasticamente reduzido.

Dialogue: pais com filhos diagnosticados com TDAH tendem a colocar as necessidades das crianças em primeiro lugar, o que é compreensível. Mas, vocês precisam dedicar tempo às necessidades de vocês dois e estas questões serão conhecidas apenas através do diálogo.

Escutem um ao outro: aprender a escutar é uma rara virtude. Em casais com TDAH, a qualidade do diálogo é essencial. As respostas e as reações às necessidades do outro devem ser equilibradas também. É isso que lhes ajudará a cruzar os conflitos, sejam eles sobre o filho ou sobre outra questão qualquer.

Compartilhem a carga: aprendam a dividir tarefas e problemas. Esta prática gera empatia e cumplicidade, componentes básicos para relações saudáveis. Não presuma que o outro fará algo. Planeje e deixe as regras claras, escritas pela casa.

Priorize o tempo do casal: momentos juntos são muito importantes para você e para seu cônjuge. Consequentemente, para seu filho. Os pais dificilmente entendem a importância da qualidade da relação para os filhos. Quando se trata de crianças com TDAH, cujas deficiências sociais são ainda mais notáveis, este fundamento relacional é crucial para o tratamento.

Criar uma criança com TDAH não é fácil, mas muitos casais conseguem fazer deste desafio uma ferramenta para uma aproximação ainda maior. Esta é sua meta: construir novos modelos de percepção e atitude capazes de transformar problemas em oportunidades de crescimento e fortalecimento individual e coletivo.

FONTES

1 WYMBS et al., 2008. Rate and predictors of divorce among parents of youth with ADHD. J Consult Clin Psychol., 76(5), 735–744. doi:10.1037/a0012719 Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2631569/ . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

2 THE WEIGHT OF ADHD ON YOUR MARRIAGE. ADDITUDE. Disponível em: https://www.additudemag.com/marriage-stress-parenting-child-adhd/ . Acesso em: 25 de setembro de 2018.

3 WHEN YOUR CHILD’S ADHD AFFECTS YOU AS A COUPLE. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/childhood-adhd/features/child-adhd-parental-relationship#1 . Acesso em: 25 de setembro de 2018.

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