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PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL E TDAH EM CRIANÇAS

ESTILO DE VIDA SAUDÁVEL E TDAH EM CRIANÇAS

Segundo estudo publicado na edição de Abril da Psychosomatic Medicine,  seguir recomendações de estilo de vida saudável aos 10 e 11 anos de idade está associado a menos diagnóstico de TDAH do nascimento até os 14 anos.

Em uma das primeiras investigações do tipo, um estudo com mais de 3000 mil estudantes do Quinto ano na Nova Escócia, Canada, mostrou que aqueles que seguiam ao menos 7 dentre  9 recomendações de estilo de vida saudável tinham um incidência significativamente menor de TDAH comparado com aqueles que seguiam apenas um ou 3 dos critérios.

“Já existe evidência da associação entre estilo de vida e saúde física. Agora parece que essas mesmas recomendações também protegem crianças de desenvolver TDAH. Quanto maior o número de recomendações que elas seguem, menos chance elas têm de desenvolver TDAH. Até hoje, nenhum outro estudo considerou todos esses fatores de estilo de vida simultaneamente”, disse Paul Veugelers, PhD da Escola de Saúde Pública da Universidade de Alberta.

A incidência de TDAH entre crianças e jovens norte Americanos permanece alta, com mais de 6 milhões de crianças diagnosticadas com o transtorno nos EUA.

Além disso, o aumento das taxas do transtorno ocorre ao mesmo tempo em que há uma piora das escolhas de estilo de vida, como os investigadores descrevem. Fatores como dieta pobre, inatividade física, maus hábitos de sono e sedentarismo foram todos associados ao TDAH.

Enquanto os estimulantes são um tratamento comprovado e eficaz, os investigadores ressaltam que houve pouca pesquisa em estratégias de prevenção.

“Até hoje”, disse Veugelers “não houve nenhum estudo prospectivo examinando a associação independente e combinada entre recomendações de estilo de vida saudável na infância e a incidência de TDAH até o início da adolescência. ”

“O meu interesse de estudo sempre foi como o estilo de vida pode afetar a saúde das crianças”, disse Veugelers. “ Inicialmente eu apenas considerava a saúde física, porém nos últimos anos se tornou aparente que o estilo de vida também afeta a saúde mental.

Então originalmente eu não planejava olhar para o TDAH”, ele completa. “Porém devido as associações que continuavam aparecendo eu decidi que isso merecia uma investigação adicional e esse estudo é um dos produtos dessa investigação adicional. ”

Para o estudo, os investigadores analisaram dados de uma pesquisa de estilo de vida de 3436 crianças entre 10-11 anos de idade que participam do Children’s Lifestyle and School Performance Study (CLASS).

As crianças e seus pais forneceram dados sobre a adesão a 9 recomendações de estilo de vida saudável, que incluíam dieta, atividade física, sono e tempo de telas, todos os quais apresentavam evidência de benefício para a saúde das crianças. Os pais também forneceram informações sobre renda, educação e local de residência.

Os pesquisadores usaram analises de regressão de risco proporcional de Cox e regressão binomial negativa para determinar as associações entre o estilo de vida das crianças e o diagnóstico de TDAH e/ou o número de visitas ao médico por TDAH até os 14 anos.

Historicamente, a prevalência de TDAH tem sido maior em grupos socioeconômicos menos favorecidos então os pesquisadores ajustaram esses fatores, disse Veugelers.

Os pesquisadores encontraram que 10,8% dos participantes haviam recebido diagnóstico de TDAH antes dos 14 anos. Eles também encontraram que crianças que seguiam de 7 a 9 recomendações de estilo de vida saudável apresentavam uma incidência significativamente menor de TDAH (hazard ratio, 0.42; 95% CI, 0.28 – 0.61) e menos visitas ao médico por TDAH (rate ratio, 0.38; 95% CI, 0.22 – 0.65), comparado com crianças que seguiam apenas  1 a 3 recomendações.

Como pode-se esperar, o link entre o estilo de vida e o risco de TDAH tinha uma relação de dose-dependência, de forma que para cada incremento adicional de recomendação que a criança seguia, havia uma queda de 18% na chance de diagnóstico de TDAH.

Os resultados não surpreenderam Veugelers, que tem sido a bastante tempo um defensor dos benefícios dos hábitos saudáveis.

“Crianças que são fisicamente ativas são geralmente as crianças que também dormem melhor e comem mais saudável, e provavelmente passam menos tempo em frente de uma tela porque elas precisam do tempo para ser fisicamente ativas”, disse ele.

Em uma era em que o TDAH é voltado para medicamentos, o estudo fornece aos pais um ímpeto adicional para promover o estilo de vida saudável para os seus filhos, escrevem os investigadores.

“ Se você perguntar para uma pessoa porque ela quer que seu filho tenha um estilo de vida saudável, ela provavelmente vai dizer que é por conta da saúde física dele. Agora nós também sabemos que isso será benéfico para a saúde mental, e especificamente para a prevenção do TDAH”, disse Veugelers.

“Obviamente, isso não é garantido já que múltiplos fatores contribuem para a saúde mental, mas isso é algo com que os pais podem de fato trabalhar”, disse Veugelers.

Julia Rucklidge, PhD e professora de Psicologia Clínica na Universidade de Canterbury, Nova Zelândia, que não esteve envolvida no estudo, comentou que os resultados desse trabalho ajudam a desviar o foco das medicações no TDAH para o estilo de vida.

“Nós temos sido quase exclusivamente dependentes de medicação para tratar problemas psiquiátricos. Por outro lado, esse estudo está mostrando que encorajar as crianças a saírem e praticarem atividade física e a serem mais cuidadosas quanto a alimentação também é relevante para a saúde mental”.

Como ela afirma, os investigadores estão focando sua atenção no potencial impacto dos fatores ambientais no TDAH. “ Tudo o que pudermos fazer para diminuir a chance de uma criança  ter TDAH deve ser algo positivo”, diz ela.

Esse estudo foi subsidiado pelo Instituto Canadense de Pesquisa médica e Inovação de Alberta. Veugelers e Rucklidge não declararam nenhum interesse econômico relevante.

Artigo adaptado e traduzido de: https://www.medscape.com/viewarticle/929207#vp_1

Comentários da equipe FOCUS:
Esse estudo encontrou uma relação entre o estilo de vida saudável e a presença de TDAH. Contudo, como ele não é um estudo prospectivo que avaliou os hábitos saudáveis antes do diagnóstico de TDAH, não se pode afirmar que tipo de relação é essa. Não podemos dizer, por exemplo, se o seguimento das recomendações de estilo de vida previne o TDAH, se o não seguimento pode causar o TDAH, ou, o mais provável, que ter TDAH está associado a hábitos de vida menos saudáveis. Podemos apenas observar que existe uma relação: crianças com TDAH diagnosticado até os 14 anos seguiam menos recomendações de estilo de vida saudável aos 10 e aos 11 anos. Isso pode se dever talvez ao fato de que crianças que irão desenvolver TDAH, ou que na verdade já tinham TDAH ou sintomas do transtorno, tem mais dificuldade de seguir as recomendações ou tendem a não seguir as recomendações. Também pode ser que outro fator que propicie o desenvolvimento de TDAH também influencia na falta de hábitos saudáveis, explicando a ocorrência mútua desses eventos.

Apesar dessas ressalvas, dado que promover o estilo de vida saudável fornece inúmeros impactos positivos conhecidos na saúde física e que existe a possibilidade de ser benéfico para a saúde mental, esses achados nos reforçam ainda mais a necessidade de se promover hábitos saudáveis nas crianças com TDAH. Promover hábitos saudáveis não apresenta riscos, pelo contrário, apenas benefícios potenciais.

Referências:
Adherence to Life-Style Recommendations and Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder
A Population-Based Study of Children Aged 10 to 11 Years
Loewen, Olivia K. MSc; Maximova, Katerina PhD; Ekwaru, John P. PhD; Asbridge, Mark PhD; Ohinmaa, Arto PhD; Veugelers, Paul J. PhD
Psychosomatic Medicine: April 2020 – Volume 82 – Issue 3 – p 305-315
doi: 10.1097/PSY.0000000000000787
Link: https://journals.lww.com/psychosomaticmedicine/Abstract/2020/04000/Adherence_to_Life_Style_Recommendations_and.8.aspx

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