skip to Main Content
focus_logo_azul

Desenvolvido por

PRODAH - Programa de Transtornos de Déficit de Atenção/Hiperatividade - UFRGS

ESTRESSE, ESGOTAMENTO E FADIGA: CUIDADO O TDAH DO SEU FILHO PODE TER PROFUNDAS CONSEQUÊNCIAS EM VOCÊ

ESTRESSE, ESGOTAMENTO e FADIGA: CUIDADO O TDAH DO SEU FILHO PODE TER PROFUNDAS CONSEQUÊNCIAS EM VOCÊ

Cuidar de uma criança com TDAH é um dos mais desafiadores trabalhos. Famílias com filhos diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade precisam aprender a superar grandes cargas de estresse.

Neste caso, é importante que você domine diversas capacidades de gerenciamento para manter ou restaurar a calma e a resolução de problemas.

Sim, ter filhos pequenos, com TDAH ou não, exige tais capacidades. Mas, mães e pais de crianças com distúrbios de desenvolvimento e saúde mental geralmente têm que lidar com estas questões em outra magnitude.

Cuidar de um filho com TDAH pode se tornar um trabalho em turno integral:
– você monitorará seu filho constantemente;
– você repetirá regras e direções o tempo todo;
– você, fatalmente, passará grande parte do tempo conversando com professores e coordenadores da escola;
– você estará cansado grande parte do tempo.

São reais as consequências do estresse crônico relacionado à tarefa de educar crianças com necessidades especiais. Estudos1 mostraram que pais de crianças com distúrbios de desenvolvimento e de aprendizagem têm muito mais chances de passar pelas seguintes situações:
– Ansiedade
– Depressão
– Insônia
– Fadiga
– Problemas mentais1

De acordo com um estudo britânico2, o estresse crônico coloca estes pais em riscos médicos graves. Esta pesquisa descobriu que pais de crianças com autismo ou TDAH tem muito mais chance de terem altos níveis de cortisol (o hormônio do estresse), e PCR (Proteína c-reativa), um biomarcador ligado a incontáveis questões, que vão do câncer colorretal até diabetes, passando por problemas cardíacos.

É importante que abordemos estes riscos, tanto pelo bem-estar das crianças quanto pela saúde dos pais.

Vamos dar uma olhada em fatores geradores de estresse. Veremos, também, algumas sugestões para colaborar na construção de famílias mais equilibradas e emocionalmente capazes de se comprometer com o bem-estar de todos.

Aceite seus limites

Especialistas concordam que a grande causa do estresse é um pensamento típico: você passa a acreditar que é a única pessoa que pode ajudar seu filho e que sua capacidade é ilimitada.1

Dr. Wendy Blumenthal, uma psicóloga de Atlanta, diz que vê mães chegarem a um ponto de colapso, porque carregam todas responsabilidades de seus filhos com necessidades extras. “Estas supermães não dormem, estão sempre ansiosas e ligam para todos os médicos que conseguem imaginar”, explica Blumenthal.

Elaine Taylor Klaus, cofundadora do Impact ADHD3, oferece treinamento para pais de crianças com TDAH e outras desordens. Ela conta que “estes pais sentem que deveriam ser capazes de fazer tudo, sendo que a primeira coisa que precisam aprender é a cuidarem de si mesmos”. Klaus alerta para os perigos que situações de estresse constante geram em longo prazo.

Precisamos salientar que existem diversos tipos e intensidade de esgotamento. Este amplo espectro inclui exaustão física e mental, monotonia, frustração ou até o conhecido sentimento de derrotismo.

Claro, é muito provável que você sinta um pouco de cada um deles. Porém, é importante que você entenda o que está sentindo para buscar a abordagem mais eficiente, que restaure sua energia e habilidade de seguir enfrentando os desafios.

Independentemente do que você estiver sentindo – ou da intensidade da questão, algumas práticas são fundamentais para a saúde física e mental de pais de crianças com TDAH:
– Durma sempre que possível. Dormir é o maior aliado do combate ao estresse e você, provavelmente, já sabe disso. Entendemos que o sono parece um luxo nestes casos, mas falamos sobre priorizar seu sono acima do celular, da televisão ou de quaisquer distrações que não sejam cruciais para o seu relaxamento.
– Mantenha-se hidratado e bem alimentado.
– Mexa seu corpo. Exercite-se com regularidade.
– Tenha um lazer prazeroso, um momento para ficar longe das crianças.

Agora que já abordamos as inevitáveis questões fundamentais para o seu bem-estar, podemos passar a outras situações e soluções que melhorarão sua qualidade de vida em geral.

Isolamento e exaustão

Quando você tem uma criança com um comportamento difícil ou cujas necessidades são desafiadoras, o sentimento de isolamento se acentua e, com ele, o estresse. Colegas, vizinhos, amigos, família e até mesmo o cônjuge parecem estar em outro planeta.

Mas, a verdade é que as pessoas querem ajudar – elas só não sabem como.

Os pais precisam aprender a dar direções objetivas aos ajudantes e cuidadores:
– você pode ficar com as crianças na quarta-feira para que eu consiga cortar o cabelo?
– você pode comprar esta lista de itens no supermercado para mim?

Estes pedidos concretos serão atendidos pelas pessoas e você mudará sua percepção sobre o abandono e o isolamento.

Caso não seja possível contratar uma babá, você pode propor períodos de troca com outros pais (até mesmo formar uma rede de pais) de crianças com desordens de aprendizado na sua cidade. Vocês podem alternar momentos de cuidados dos pequenos e, assim, criar folgas saudáveis para todos.

Vida social

Muitos pais de crianças com distúrbios de comportamento e desenvolvimento acabam perdendo o contato com amigos ou param de fazer atividades fora de casa.

Cuidar da sua saúde emocional e social é tão importante quanto qualquer outra prática física, como se exercitar ou dormir bem, diz Dr. Matthew Rouse, psicólogo do Child Mind Instute.3

Ele levanta a importância da vida social adulta e questiona os pais que atende em seu consultório:
– O que vocês estão fazendo por si mesmos?
– O que vocês estão fazendo como casal?
– Quando foi a última vez que você se divertiu com amigos?

Para minimizar estes sentimentos de afastamento da vida social, Dr. Rouse recomenda:

Crie uma rede de amigos fora do âmbito familiar. Grupos de apoio são ótimos, diz ele, mas ainda estão ligados ao universo do seu filho.

O que você deve buscar aqui são atividades que coloquem você em foco. São momentos de prazer, como ler em um parque, correr ou pintar.

O psicólogo explica que, se você apenas doar suas energias mentais sem repô-las, cedo ou tarde, elas se esgotarão – e seu filho sofrerá as consequências junto com você.

Cuidar do casamento

Ao longo dos anos, os pais terão que dar atenção extra para a relação mais vulnerável das suas vidas: o casamento.

Uma pesquisa concluiu que pais com crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm duas vezes mais chance de se divorciarem até o filho atingir a idade de oito anos.

Surpreendentemente, após os oito anos da criança, as diferenças nas taxas de divórcio entre pais de crianças diagnosticadas com TDAH ou não se tornam irrelevantes.4

Outros fatores colaboram no desfecho da separação, dizem os pesquisadores. Desordens coexistentes, como Transtorno Desafiador Opositivo ou Transtorno de Conduta podem agravar o quadro dos conflitos em casa.

Comportamentos antissociais do pai também impactam na probabilidade da separação, bem como diferenças no grau de educação entre os cônjuges.

William E. Pelham Jr., Ph.D, professor de Psicologia e Pediatria na Universidade de Buffalo, participou do estudo.

Ele explica que o mais grave fator de conflitos é a dissonância na forma de enxergar as dificuldades do filho. Por exemplo, a mãe considera determinado comportamento na escola um problema, mas o pai releva, considerando a situação algo natural da criança.

Este tipo de desarmonia na percepção da educação do filho é o maior fator de brigas no casal, explica o pesquisador.

Mas, nada disso é uma fatalidade inescapável. São alertas para que você compreenda que você e seu casamento também são uma prioridade no tratamento do seu filho.

Pelham já traz o caminho para as conclusões do próprio estudo: os pais precisam trabalhar em conjunto, argumenta. Eles precisam aprender, juntos, habilidades necessárias para o desafio de ter um filho.5

Utilizem os momentos que a criança está na escola ou na terapia para fazerem algo breve em casal. Em casa, tirem instantes para namorar, cozinhar ou ouvir música juntos.

Sobre a dissonância de percepção na educação e no comportamento do filho, Dr. Rouse propõe uma prática benéfica: tire um momento antes de dormir para conversar com seu parceiro sobre a situação mais difícil e a mais recompensadora do dia. Estes balanços, tão positivos para afinar a vida em casal, também são estratégias eficientes para afinar a percepção sobre o filho.3

Mãe e filhos com TDAH: ainda mais interligados

Todos sabemos do poder das relações entre mães e filhos. A mãe é capaz de adoecer com seu filho, de vibrar junto com a felicidade do filho e de sentir tristeza paralisante frente ao fracasso do filho.

Porém, as mães de crianças diagnosticadas com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm laços ainda mais sensíveis.

Foi o que descobriu um estudo da Universidade da Califórnia, em Irvine.6 Os pesquisadores avaliaram o humor das crianças com TDAH e de 51 mães a cada 30min. A descoberta não foi nada surpreendente: o humor das mães e dos filhos coincidiram. Os comportamentos que mais geraram estresse nas mães estavam relacionados à hiperatividade, falta de concentração e desobediência.7

Você e seu filho se influenciam mutuamente. Sua saúde mental e física é uma peça-chave na qualidade de vida da criança.

Agora, você já pode compreender a importância de pensar no tratamento do TDAH como uma dinâmica familiar, que inclui você e seu casamento. Abordagens integradas e a participação de toda a família transformam o peso da dificuldade em desafios (e celebrações) de crescimento conjunto.

1 WHY SELF-CARE IS ESSENTIAL TO PARENTING. THE CHILD MIND INSTITUTE. Disponível em: https://childmind.org/article/fighting-caregiver-burnout-special-needs-kids/ . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

2 LOVELL B et al., 2011. The psychosocial, endocrine and immune consequences of caring for a child with autism or ADHD. Psychoneuroendocrinology. 2012 Apr;37(4):534-42. doi: 10.1016/j.psyneuen.2011.08.003. Epub 2011 Sep 1. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21889267 . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

3 IMPACT ADHD. Disponível em: https://impactadhd.com/author/elainetaylorklaus/ . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

4 WYMBS et al., 2008. Rate and predictors of divorce among parents of youth with ADHD. J Consult Clin Psychol., 76(5), 735–744. doi:10.1037/a0012719 Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2631569/ . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

5 DIVORCE MORE LIKELY IN ADHD FAMILIES?. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/childhood-adhd/news/20081024/divorce-more-likely-in-adhd-families#1 . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

6 WHALEN CK et al., 2008. Dissecting daily distress in mothers of children with ADHD: an electronic diary study. J Fam Psychol. 2011 Jun;25(3):402-11. doi: 10.1037/a0023473. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21517172 . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

7 THE ADHD ROLLERCOASTER: STRESSED PARENTS NEED HELP, TOO. LIVE SCIENCE. Disponível em: https://www.livescience.com/15198-adhd-stressed-parents.html . Acesso em: 24 de setembro de 2018.

Compartilhe com seus amigos!
VIDA SEXUAL COM TDAH: O Que Pode Acontecer

VIDA SEXUAL COM TDAH: o que pode acontecer

O Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH) é caracterizado por uma gama de sintomas que podem incluir hiperatividade, desatenção e questões comportamentais. Contudo, o TDAH também pode afetar os relacionamentos, a autoestima e até mesmo a performance sexual.

“Qualquer casal pode ter uma discrepância de desejo quando um dos parceiros sente mais apetite sexual do que o outro”, explica Ari Tuckman, psicólogo clínico norte-americano, especializado no diagnóstico e no tratamento de crianças, jovens e adultos com o transtorno.

Gina Pera, autora da obra “Is It You, Me, Or Adult A.D.D.?” afirma que a maioria dos casais, em que um dos parceiros foi diagnosticado com TDAH, reporta uma boa vida sexual. Mas, há vezes em que o transtorno pode “criar problemas significativos”, sendo um deles a falta de capacidade de iniciar uma relação sexual.
Pessoas com TDAH que não começam as relações sexuais podem fazê-lo por incontáveis razões, esclarece Pera. Em alguns casos, o comportamento procrastinador frequentemente presente no transtorno pode ser a causa da situação. Em outros, a dificuldade de planejamento e a falta de noção de tempo se tornam um desafio para determinar quando e como se aproximar do parceiro.

Tuckman diz que um bom preditor de satisfação sexual inclui o tratamento adequado tanto para quem tem TDAH quanto para quem não tem o transtorno. O psicólogo explica que casais mais felizes são aqueles que sentem que seu parceiro está se esforçando para ajudar a controlar os sintomas e suas consequências. Um destes esforços é ligado à vida sexual. Tuckman explica que, ao trabalhar junto, o casal pode transformar o que era um problema em um “afrodisíaco”, porque o sentimento de apreciação potencializa a relação.

Já Gina Pera, alerta sobre outro problema sexual que pode ocorrer: o parceiro que quer fazer sexo constantemente. Ela nota que a maior parte das pesquisas conclui que a chamada hipersexualidade está ligada mais ao tipo desatento do transtorno, mesmo que isso pareça surpreendente. Gina sugere que isso pode ocorrer por fatores subjetivos, como crescer sem o estigma do TDAH e não desenvolver os graves problemas que a baixa autoestima pode acarretar.
Vimos como o TDAH pode levar tanto à falta de sexo quanto ao sexo em excesso. Vamos observar alguns fatores que podem acontecer na vida sexual de pessoas diagnosticadas com o transtorno.

Como o TDAH pode afetar sua vida sexual

– Você pode ter problemas para prestar atenção durante o sexo. A mente divaga no momento das preliminares, do carinho ou até mesmo durante a relação em si.
– Seu humor ou desejo muda subitamente. Em um dia, você sente vontade de carinho e sexo. No outro, as mesmas questões simplesmente lhe incomodam.
– Sentimentos de braveza e solidão podem reduzir o desejo. Eles também podem gerar desafios comunicacionais entre você e seu parceiro.
– Você pode ser levado a comportamentos de risco, como sexo sem proteção. O TDAH pode reduzir o nível de alguns neurotransmissores no cérebro – isso pode impulsionar comportamentos de risco ou de impulsividade.
– Você pode desejar ter diferentes e variados parceiros. Isso dificulta a ideia de um relacionamento em longo prazo e aumenta as chances de risco.

O que você pode fazer?

– Seja aberto com seu parceiro sobre seus sintomas de TDAH, como falta de foco e irritabilidade. Saiba, lembre, reforce que isso não é culpa sua e não tem relação com seu parceiro.
– Explique o que lhe dá prazer. Se você não gosta de ser tocado o tempo todo, diga isso ao outro. Mostre como lhe tocar, quando lhe tocar. Isso previne conflitos e incompreensão.
– Livre-se de distrações. Se você perde o foco durante o sexo, apague a luz, tire a televisão, desligue telefones.
– Tome suas medicações como foram prescritas. Alguns remédios para o transtorno podem potencializar a capacidade de foco e de prazer sexual, enquanto outros podem reduzir o desejo e até mesmo a performance. Se este for o caso, converse com seu médico e com seu parceiro sobre isso.
– Foque na intimidade. Problemas com foco podem dificultar o prazer, a excitação e o orgasmo. Dedique algum tempo ao carinho e ao relaxamento ao lado do outro. Isso reduz a pressão e ajuda o casal a se divertir junto.
– Mantenha-se ativo. Exercícios regulares podem lhe ajudar a focar e a aumentar neurotransmissores como a dopamina, que colabora com a melhoria da intimidade e reduz o risco de comportamentos inseguros.
– Considere terapias. Um terapeuta pode ser de grande valor no aprendizado da comunicação com o seu parceiro, seja na cama ou fora dela.

Fontes:

1 HOW HAVING ADHD CAN IMPACT YOUR SEX LIFE. HEALTH U.S NEWS. Disponível em: <https://health.usnews.com/health-care/patient-advice/articles/2017-12-13/how-having-adhd-can-impact-your-sex-life>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.
2 ADHD AND YOUR SEX LIFE. WEBMD. Disponível em: <https://www.webmd.com/add-adhd/adhd-adhdsex>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

Compartilhe com seus amigos!
O QUE FAZER EM MEIO A TANTOS “PALPITES” TDAH? Ph.D Dá Uma Lição De Força, Acolhimento E Sabedoria Para Pais E Mães

O QUE FAZER EM MEIO A TANTOS “PALPITES” TDAH? Ph.D dá uma lição de força, acolhimento e sabedoria para pais e mães

“TDAH é culpa dos pais”. “Corte o açúcar e os videogames e o TDAH desaparecerá”. “Você precisa ser mais firme e impor limites”.

Se você tem um filho com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, provavelmente já ouviu algum destes “conselhos”, vindos de pessoas com pouco ou nenhum conhecimento sobre a desordem.

A frustração de ouvir algo assim é grande. Estas falas, mesmo sem fundamento, podem acabar afetando os pais (e os filhos indiretamente).

Sabemos como o tratamento para TDAH não envolve apenas os pacientes. A família deve estar engajada nos mais diversos aspectos e, feliz ou infelizmente, saber como agir para mudar estas ideias preconcebidas, tão desestabilizadoras, é uma forma de reafirmar seu poder e sua segurança sobre si mesma, como mãe, e sobre seu filho.

Para fortalecer as mamães e os papais que estão cansados do falatório, hoje vamos aprender o que Ruth Hughes, Ph.D, nos ensina sobre estes momentos cansativos e destrutivos1. Veremos o que pode ser feito para combater os estigmas sobre o TDAH e esclarecer os principais mitos sobre o transtorno.

Ruth Hughes foi uma peça importante na organização CHADD (Children & Adults with ADHD), uma das mais respeitadas do mundo. Psicóloga, Ruth foi a responsável pela criação dos treinamentos para famílias e escolas da instituição. Não apenas uma especialista na área com ampla experiência profissional, Ruth passou por tudo isso pessoalmente: ela é mãe de um paciente com TDAH, hoje já adulto.2

Vamos aprender as preciosas lições da doutora Ruth não apenas para educarmos as pessoas ao nosso redor, mas como também para nos sentirmos mais confiantes e otimistas sobre tudo que temos feito por nossas famílias.

Os dados aqui apresentados foram extraídos da palestra de Ruth Hughes para a CHADD. Se você fala inglês, sugerimos que assista à apresentação da psicóloga. Se não fala, sem problemas, fique conosco e prossiga sua leitura! https://www.youtube.com/watch?v=NE30kNOsl44

Qualquer pessoa que tenha um familiar com TDAH já ouviu alguma coisa próxima destes exemplos:

– Você não quer ficar medicando seu filho, não é mesmo?

– Se você fosse uma mãe melhor, seu filho se comportaria melhor.

– TDAH é desculpa para desorganização.

– Na minha época, isso não existia. Isso é culpa dos pais atuais.

O primeiro a ser dito é que não foi você que ouviu isso. Todos ouviram. Pais, avós, até mesmo os pacientes foram vítimas dos estigmas sobre o transtorno em algum momento de suas vidas.

Não é possível medir se dói mais ouvirmos estas questões como pais ou quando ficamos sabendo que os filhos escutaram, de professores ou colegas, que não conseguem fazer nada direito ou que só atrapalham.

Falas sem conhecimento podem vir de pessoas bem-intencionadas ou de pessoas nem tão bem-intencionadas assim. Independentemente da intenção, o impacto em nós é sempre negativo.

É isso que os estigmas fazem.

O que são estigmas?

São conjuntos de crenças negativas (e geralmente injustas), que a sociedade tem sobre um grupo ou sobre alguma coisa. Estigmas têm base em preconceito, falta de informação e discriminação.

Ou seja, não é apenas o TDAH que sofre com os estigmas.

Há não muitos anos, pacientes de câncer e AIDS sofriam de forma indescritível com os estigmas sobre suas doenças. Perceba como tudo isso tem mudado em pouco tempo: as campanhas de conscientização, o apoio que recebem e a informação que a sociedade tem.

Esta união entre informação e engajamento muda os estigmas, a cultura, os sistemas de crença e o julgamento. Isso exige tempo e esforço, mas as mudanças são necessárias e possíveis sim.

Principais mitos sobre o TDAH

Os três principais mitos sobre o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade são bem conhecidos por nós.

1 – “TDAH não é uma condição médica real. É falta de limites dos pais.”

O que responder a isso?

Bem, o TDAH é uma desordem neurobiológica. Podemos observar claramente as diferenças na atividade cerebral de pacientes diagnosticados com TDAH. Podemos ver respostas em diferentes partes do cérebro ou até falta de atividades em determinadas regiões. Vemos diferenças celulares – a própria comunicação entre um neurônio e outro. A dopamina e a norepinefrina são de fato diferentes em pessoas com TDAH.

TDAH é, sem sombra de dúvidas, uma condição médica.

2 – “Apenas crianças têm TDAH. Pare de se preocupar tanto. Elas vão crescer e superar tudo isso com o tempo.”

O que responder a isso?

A própria comunidade médica comprou este mito até uns 15 anos atrás. Hoje, sabemos que isso não é verdade. O TDAH é uma desordem que permanece a vida toda. O que percebemos é que os pacientes se tornam mais eficientes em administrar os sintomas ao longo dos anos.

3 – TDAH é hiperdiagnosticado. Estão medicando as crianças excessivamente.

O que responder a isso?

Na realidade, o TDAH é subdiagnosticado, explica a doutora Ruth. As avaliações podem ser mal conduzidas, os sintomas apresentados podem não ser apropriadamente verificados ou até mesmo confundidos com outras desordens. Por isso, é crucial enfatizarmos a importância de os pais serem incansáveis na fase do diagnóstico.

Mecanismos para lidar com a desordem

Ruth Hughes nos explica que há dois caminhos principais para enxergar o TDAH na sua vida e na vida do seu filho. Não existem respostas definitivas, certas ou erradas, mas a diferença na percepção sobre a condição tem um grande impacto na vida da criança e da família.

1 – O TDAH é algo positivo.

Você pode ir pelo caminho positivo e identificar as forças individuais que o Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade gera no paciente.

Aqui, você observará a capacidade criativa que pacientes com TDAH podem ter. Você compreenderá a grande capacidade de enfrentar desafios e de assumir riscos dos pacientes e entenderá como estas características foram a base de grandes empresários e de profissionais mundialmente reconhecidos por sua inovação.

Identificar as forças individuais é uma das mais efetivas formas de lidar com os estigmas, defende a Dra. Ruth. Mas, você pode escolher outra via.

2 – O TDAH é uma condição médica séria.

Aqui, você optará pela seriedade da condição. Você compreenderá que o cérebro de um paciente com TDAH funciona de forma diferente e que um tratamento médico é necessário. Isso pode colaborar muito na forma com que os pais percebem os diferentes sintomas dos filhos, argumenta a doutora.

Os sintomas deixarão de ser tão cansativos e você poderá lidar com as situações sob outro viés, um viés médico, que pode ajudar na compreensão e na tranquilidade para cruzar os dias.

Como mudar a percepção das pessoas (e até mesmo a minha)?

Esta é a grande questão. Nossa percepção sobre o mundo não é exatamente uma decisão que tomamos a qualquer hora do dia. Estratégias e ferramentas são necessárias. É preciso esforço, reforço e comprometimento.

A Dra. Ruth Hughes enfatiza a importância de você compreender que sim, os estigmas externos, culturais, midiáticos, sociais etc podem ser prejudiciais, mas é o estigma interno – no seio familiar – que é o mais destrutivo.

Claro, pense em como você pode transformar sua comunidade, mas não esqueça de revolucionar sua própria percepção sobre seu filho e sua família.

Ainda, é importante que você entenda que é muito comum que pessoas com TDAH comecem a internalizar estas mensagens negativas vindas da sociedade ou da própria percepção familiar.

Surgem ideias como “eu sempre erro”, “eu sou um fracasso”, “eu nunca vou conseguir”. A Dra. Ruth categoriza estes pensamentos com o mais devastador sintoma do TDAH.

Felizmente, diz ela, este sintoma é o mais fácil de ser corrigido, porque ele não é causado pela desordem em si. Esta internalização dos estigmas são reações ao mundo externo. Esforce-se para elevar a autoestima do seu filho ao longo do tempo.

Agora, falando dos estigmas sociais, vamos finalizar vendo as três diferentes classes de intervenções que podemos assumir para transformar percepções públicas. Veremos as três maneiras possíveis de transformar crenças, segundo a doutora, e como elas podem ser aplicadas ao universo do TDAH.

Três maneiras para mudar percepções:

– Advocacy (engajamento)

Como falamos, estigmas envolvem discriminação. É aqui que entra o chamado advocacy, uma maneira de enfrentar problemas de forma politicamente ativa. Para engajar-se nesta causa, você localizará os locais onde o preconceito ocorre e analisará como ele se manifesta.

Exemplos de preconceito comuns no universo do TDAH: a escola se recusa a levar em conta a condição do seu filho (se a criança fosse cega, ela não passaria por isso), práticas disciplinares que não estão ajustadas ao TDAH, tratamento para a desordem não ser coberto por planos de saúde ou, ainda, mensalidades mais caras por causa da condição.

Estes são apenas alguns exemplos que os pais e as crianças sofrem cotidianamente. O que você pode fazer sobre isso? Inúmeros caminhos podem ser seguidos:

Você pode criar comunidades online para compartilhar esforços coletivamente, você pode levar estes grupos para o mundo real, promovendo passeatas, instituições, ONGs ou outras formas de mobilização social, você pode ir à mídia e pedir apoio para sua causa ou até mesmo encontrar o deputado da sua região e conversar para ver como esforços conjuntos podem ajudar na situação.

– Educação

Educação é sim uma importante ferramenta de transformação social. Contudo, surpreendentemente, a Dr. Ruth nos explica que esta estratégia, sozinha, é a que tem menos impacto. Não estamos dizendo que informação não importa, mas sim que, sem engajamento, participação e contato pessoal, ela pouco influenciará o público.

Podemos ver como a sociedade começou a mudar sua percepção sobre determinadas doenças com o engajamento de campanhas mensais sobre câncer de mama, de próstata, suicídio e outras graves questões de saúde. Informação aliada ao engajamento e ao contato pessoal é extremamente eficaz na mudança social.

E quais informações queremos levar ao público?

TDAH é uma condição real. TDAH tem tratamento. Com o tratamento e o apoio necessários, os pacientes podem sim administrar suas vidas. Aborde a importância da avaliação séria e aponte como fazê-la, onde obtê-la.

Compartilhe histórias pessoais. Inicie um blog, um grupo, um canal no YouTube. Fale com a mídia, com instituições na sua cidade, com o Prefeito. Promova eventos com médicos e especialistas na escola do seu filho. Ajude na conscientização sobre estas questões.

– Contato pessoal

Esta é a mais eficaz ferramenta para transformar estigmas. Não importa de qual estigma você esteja falando, explica a Dra. Ruth, o contato pessoal direto tem o poder de ultrapassar o preconceito.

Você vai além da sua percepção inicial, você passa a enxergar o outro não como uma ideia ou como uma desordem, mas sim como um ser humano. Este é o poder do contato.

Neste caso, você pode apresentar pessoas capazes de conviver com o TDAH, que administram suas vidas de forma bem-sucedida. Isso é crucial tanto para quem tem preconceito como para quem sofre com os sintomas.

Ainda, a Dra. Ruth nos fala como seu próprio filho, a partir dos sete anos, optou por contar aos seus colegas e professores sobre sua desordem. Ela educou o pequeno Chris a ensinar as outras crianças sobre as estratégias mais eficazes para conviverem com ele.

Desde então, quando Chris ficava excessivamente hiperativo e os colegas se afastavam, ele os avisava: eu tenho TDAH e vocês devem me lembrar de que eu devo me tranquilizar agora. Eu sei como fazer isso. Eu aprendi no tratamento para TDAH.

Dra. Ruth ensina que esta é a mais efetiva ferramenta para dissolver preconceitos. Quando o próprio paciente mostra, através de contato direto, que é possível conviver com o TDAH, que é possível dominar a desordem e que as estratégias do tratamento são sim eficientes.

Quando a sociedade enxerga e convive com a questão, as ideias preconcebidas simplesmente se desfazem. Vamos tentar?

Lembramos que os dados aqui apresentados foram extraídos da palestra da psicóloga Ruth Hughes para a CHADD. Assista à palestra na íntegra e conheça as histórias e conselhos desta Ph.D, responsável pelos treinamentos para pais e professores da CHADD. https://www.youtube.com/watch?v=NE30kNOsl44

Fontes:

1 COMBATING STIGMA AND ADDRESSING MYTHS ABOUT ADHD. HELP FOR ADHD. Disponível em: https://youtu.be/NE30kNOsl44 . Acesso em: 24 de outubro de 2018.

2 THE IMPORTANCE OF ADHD AWARENESS. VERYWELL MIND. Disponível em: https://www.verywellmind.com/the-importance-of-adhd-awareness-20474 . Acesso em: 24 de outubro de 2018.

Compartilhe com seus amigos!
CASAMENTO E FILHOS COM TDAH – Um Desafio A Ser Superado

CASAMENTO E FILHOS COM TDAH – Um desafio a ser superado

Por muitos anos, cientistas exploraram como os conflitos parentais e outros problemas conjugais impactam a qualidade de vida dos filhos. Porém, pouca atenção foi dada a como os filhos impactam a qualidade de vida dos pais.

Casais com filhos diagnosticados com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm o dobro de chances de se divorciarem, em comparação a casais com filhos sem TDAH1.

A razão é simples: uma criança com dificuldade de atenção ou com hiperatividade pode ser altamente estressante. Assim, a situação pode potencializar conflitos e tensões entre todos, especialmente entre os pais.

“É muito difícil manter um casamento nos eixos quando você passa dia e noite administrando os sintomas da criança”, diz Brian T. Wymbs, Ph.D, autor do estudo que encontrou esta relação entre divórcio e TDAH. “TDAH é uma condição crônica e não irá embora. Então, não há fuga do estresse marital causado por um filho com o transtorno”, explica o pesquisador.2

Mas, não se desespere. Os pesquisadores apontam dois dados de grande importância para manter a calma e traçar um plano:

1 – A pesquisa de Wymbs concluiu que, após os oito anos de idade da criança, as taxas de divórcio entre casais com filhos com TDAH e com filhos sem TDAH se equiparam. Existe algo de mágico no número oito que traz esperança para os casais que chegam nesta etapa.

Claro que não é mágica: é tempo e dedicação para encontrar as estratégias necessárias tanto para minimizar os sintomas do filho quanto para afinar as diferenças naturais entre os pais – isso nos leva à próxima questão.

2 – O mais grave fator de conflitos entre o casal é a dissonância na forma de enxergar as dificuldades do filho com TDAH. Por exemplo, a mãe considera determinado comportamento na escola um problema, mas o pai releva, considerando a situação algo natural da criança.

Este tipo de desarmonia na percepção da educação do filho é o maior fator de brigas no casal, explica William E. Pelham Jr., Ph.D, professor de Psicologia e Pediatria na Universidade de Buffalo, que participou do estudo.

Agora que você sabe onde deve agir e quando as coisas ficarão mais tranquilas, é hora de traçar o plano de ação.

Como trabalhar em equipe?

Terry Dickson, diretor do Behavioral Medicine Clinic of NW Michigan, tem TDAH. Seus dois filhos também. Mas, sua esposa não. Ele explica que filhos com o transtorno “afetarão o casamento e ambos precisam estar igualmente comprometidos com fazer as coisas funcionarem”.3

Como podemos fazer isso?

Crie estrutura e rotina: previsibilidade é bom para as crianças e para o casal, porque ajuda a controlar o relógio e a criar tempo para o casamento.

Planeje regras para a vida em casa: todas as regras devem ser criadas de comum acordo e esclarecidas para todos. Quando o casal está em sintonia sobre o que deve ser feito com relação aos filhos, o espaço para conflitos é drasticamente reduzido.

Dialogue: pais com filhos diagnosticados com TDAH tendem a colocar as necessidades das crianças em primeiro lugar, o que é compreensível. Mas, vocês precisam dedicar tempo às necessidades de vocês dois e estas questões serão conhecidas apenas através do diálogo.

Escutem um ao outro: aprender a escutar é uma rara virtude. Em casais com TDAH, a qualidade do diálogo é essencial. As respostas e as reações às necessidades do outro devem ser equilibradas também. É isso que lhes ajudará a cruzar os conflitos, sejam eles sobre o filho ou sobre outra questão qualquer.

Compartilhem a carga: aprendam a dividir tarefas e problemas. Esta prática gera empatia e cumplicidade, componentes básicos para relações saudáveis. Não presuma que o outro fará algo. Planeje e deixe as regras claras, escritas pela casa.

Priorize o tempo do casal: momentos juntos são muito importantes para você e para seu cônjuge. Consequentemente, para seu filho. Os pais dificilmente entendem a importância da qualidade da relação para os filhos. Quando se trata de crianças com TDAH, cujas deficiências sociais são ainda mais notáveis, este fundamento relacional é crucial para o tratamento.

Criar uma criança com TDAH não é fácil, mas muitos casais conseguem fazer deste desafio uma ferramenta para uma aproximação ainda maior. Esta é sua meta: construir novos modelos de percepção e atitude capazes de transformar problemas em oportunidades de crescimento e fortalecimento individual e coletivo.

FONTES

1 WYMBS et al., 2008. Rate and predictors of divorce among parents of youth with ADHD. J Consult Clin Psychol., 76(5), 735–744. doi:10.1037/a0012719 Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2631569/ . Acesso em: 30 de agosto de 2018.

2 THE WEIGHT OF ADHD ON YOUR MARRIAGE. ADDITUDE. Disponível em: https://www.additudemag.com/marriage-stress-parenting-child-adhd/ . Acesso em: 25 de setembro de 2018.

3 WHEN YOUR CHILD’S ADHD AFFECTS YOU AS A COUPLE. WEBMD. Disponível em: https://www.webmd.com/add-adhd/childhood-adhd/features/child-adhd-parental-relationship#1 . Acesso em: 25 de setembro de 2018.

Compartilhe com seus amigos!

Vídeo comentado: Dra. Carmita Abdo

Dra. Carmita Abdo é médica psiquiatra, Doutora e Livre-Docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e Coordenadora do Curso de Especialização em Sexualidade Humana da FMUSP. Neste vídeo a Dra. fala mais sobre a vida sexual para pacientes de TDAH e o início de sua atividade na adolescência.

Compartilhe com seus amigos!
Back To Top