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COMO A ADVERSIDADE PRECOCE SE RELACIONA COM A ATIVIDADE CEREBRAL ANOS DEPOIS

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Post Series: TDAH & Cérebro

Em janeiro de 2019, o governo dos EUA informou que cerca de 3.000 crianças foram separadas à força de seus pais que migravam pela fronteira americana com o México e foram colocadas em abrigos de detenção ou assistência social. Muito do que os cientistas sabem sobre como o desenvolvimento do cérebro em crianças é prejudicado por experiência adversas de vida vem de estudos sobre órfãos romenos que sofreram grave negligência sob o governo do ditador romeno comunista Nicolae Ceausescu.

A pesquisa mais recente de cientistas que rastreiam o desenvolvimento neurológico dessas crianças, publicado na revista Developmental Science mostra que interrupções do cuidador produzem efeitos prejudiciais na função cerebral de uma criança, evidenciada pela análise de eletroencefalograma após as crianças chegarem à adolescência (16-17 anos). Os novos dados mostram que as melhorias na atividade elétrica cerebral vistas após órfãos terem sido retirados de orfanatos e colocados em lares adotivos foram revertidas quando o lar adotivo foi descontinuado.

Este mais recente relatório é uma continuação de um longo estudo longitudinal dos órfãos romenos por Charles Nelson, do Hospital Infantil de Boston, Nathan Fox, da Universidade de Maryland, College Park, Charles Zeanah, da Universidade de Tulane, e os co-autores Ranjan Debnath e Alva Tang, da Universidade de Maryland. Esta pesquisa estudou os efeitos do cuidado parental no desenvolvimento do cérebro usando um delineamento experimental randomizado, como nos estudos sobre medicações . Os órfãos foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: os que permaneceram institucionalizados ou os que foram colocados em lares adotivos. Cento e trinta e seis crianças pequenas, entre 6 e 31 meses de idade, de orfanatos em Bucareste, Romênia, participaram do estudo. Sessenta e oito das crianças foram designadas aleatoriamente para lares adotivos e 68 crianças foram designadas para continuar nos cuidados institucionais. O desenho de estudo longitudinal e randomizado (significando que as mesmas crianças foram seguidas ao longo do tempo) fornece a abordagem experimental mais rigorosa possível, mas levantou questões éticas difíceis.

O estudo relatou anteriormente que a análise EEG das ondas cerebrais dos órfãos indica que a atividade elétrica do cérebro se desvia significativamente das crianças neurotípicas. Outras pesquisas documentaram atrasos no desenvolvimento e prejuízos psicológicos e neuroanatômicos nessas crianças. Os órfãos têm baixo poder de ondas cerebrais alfa e beta e maior poder de ondas cerebrais teta do que controles (normalmente crianças da mesma idade criadas dentro das suas famílias). Estas são diferentes bandas de frequência das oscilações das ondas cerebrais, aumentando a frequência de oscilação de teta (4-7 Hz) para alfa (8-13 Hz) para ondas beta (14-25 Hz).

Essa assinatura alterada do EEG tem sido associada ao TDAH, distúrbios de aprendizagem, transtornos de comportamento disruptivo e fatores de risco psicossociais. No entanto, órfãos que foram colocados em lares adotivos mostraram EEGs (eletroencefalogramas) normais quando avaliados 12 anos depois, enquanto aqueles que permaneceram em instituições ainda tinham essas características anormais em seu EEG.

Este estudo de acompanhamento confirmou que a colocação dos órfãos em um lar adotivo restaurou o eletroencefalograma ao normal, acrescentando que esta melhoria persiste no cérebro adolescente. Mas também descobriu que as interrupções no lar adotivo, incluindo a mudança de lares adotivos ou a reunificação com suas famílias biológicas, reverteram os benefícios.

Um número maior de interrupções no cuidado adotivo foi associado ao aumento do poder teta e à diminuição do poder alfa, um padrão de atividade cerebral frequentemente observado em crianças que vivem em ambientes empobrecidos. Os autores concluem que interrupções em um ambiente familiar estável influenciam negativamente a atividade elétrica cerebral em crianças, com efeitos que podem persistir no cérebro adolescente.

Os autores caracterizam essas diferenças no poder do EEG como uma indicação de um estágio imaturo do desenvolvimento do cérebro,. Deve-se notar, no entanto, que as diferenças no traçado do EEG e na função cerebral são variáveis que se correlacionam, não há necessariamente uma relação de causa e efeito. Existem muitas variantes normais da atividade EEG, incluindo baixo poder de onda alfa, que são, em parte, geneticamente determinados.

Em segundo lugar, o poder do EEG medido com eletrodos no couro cabeludo é afetado por diferenças na densidade do crânio, que pode ser influenciada por condições adversas. Ondas cerebrais penetram o crânio em diferentes extensões, dependendo da sua frequência de oscilação.

Finalmente, caracterizar essas diferenças nas funcionalidades das ondas cerebrais como sendo prejudiciais também depende da correlação. Precisamente como o poder da onda alfa, por exemplo, se correlaciona com as consequências prejudiciais da experiência adversa na infância, não é certo. Uma interpretação alternativa poderia ser que as mudanças na função cerebral subjacentes a essas diferenças no EEG são adaptações aos diferentes ambientes que as crianças experimentam. Por exemplo, uma maior vigilância pode ser uma adaptação benéfica para um ambiente novo, estressante ou instável, e tais alterações no cérebro da criança podem ter efeitos em seu EEG.

No entanto, essas mudanças na atividade elétrica no cérebro adolescente correlacionam-se com o rompimento de um ambiente familiar normal que pode ser revertido devolvendo-se a criança a um ambiente familiar sadio, desde que seja estável.

Não há dúvida, no entanto, que a instabilidade no ambiente doméstico de uma criança, produzida pela separação de crianças de seus pais, afeta o desenvolvimento do cérebro e a atividade elétrica de maneiras que podem persistir até a adolescência. Neurocientistas aprenderam muito estudando a situação trágica dos órfãos romenos – lições que podem se conectar com as experiências de outras crianças separadas de seus pais.

Artigo adaptado e traduzido de R. Douglas Fields, Ph.D., que leciona na Universidade de Maryland, College Park e é o autor do livro Why We Snap. Postado em 2 de junho, 2019. https://www.psychologytoday.com/za/blog/the-new-brain/201906/how-early-adversity-relates-brain-activity-years-later?amp

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