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DIETILESTILBESTROL PODE ELEVAR O RISCO DE TDAH NOS SEUS NETOS

700 Dietilestilbestrol Pode Elevar O Risco De TDAH Nos Seus Netos
Post Series: TDAH & Cérebro

Os netos de mulheres que tomaram o estrogênio sintético Dietilestilbestrol (DES) durante a gravidez podem ter risco aumentado de Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), de acordo com um estudo publicado na JAMA Pediatrics1, ano passado.

Dietilestilbestrol (DES) é um disruptor endócrino que, entre a década de 1940 e 1970, foi indicado a mulheres grávidas, na crença de que reduziria o risco de complicações na gravidez. No entanto, seu uso começou a ser reduzido a partir de 1953, quando um estudo descobriu que não havia benefício algum na utilização2.

Análises posteriores também demonstraram que o DES poderia, potencialmente, causar uma série de efeitos adversos graves ao longo da vida daqueles que foram expostos ao disruptor.
Dentre estes problemas, descobriu-se que o DES poderia causar adenosis e adenocarcinoma vaginal, um tumor raro, em mulheres que tinham sido expostas a esta droga in utero. Ainda, que as netas de mulheres que utilizaram o DES poderiam sofrer de ciclos menstruais irregulares e ter o risco de morte de seus bebês elevado. Já os netos, poderiam sofrer de hipospádia peniana, uma condição muito incomum, em que a abertura do pênis fica na parte de baixo, não na ponta.

Nos Estados Unidos, entre 5 e 10 milhões de mulheres utilizaram o DES, até que ele foi banido do país, em 1971.

O estudo do JAMA Pediatrics trouxe mais um possível efeito: a utilização do DES no primeiro trimestre de gravidez poderia aumentar o risco do diagnóstico de TDAH nos netos em até 36%.

“Uma exposição durante a gravidez tem o potencial de impactar múltiplas gerações se o nenê for menina. Isso ocorre porque os oócitos (células sexuais produzidas nos ovários) que se desenvolverão nas netas destas mulheres se formam enquanto suas mães ainda estão no útero de suas avós”, explica a líder da pesquisa, Marianthi-Anna Kioumourtzoglou, da Columbia University, em Nova York3.
Este estudo analisou dados de mais de 47 mil mulheres. Destas, 861 haviam utilizado o DES na gravidez. Os investigadores constataram uma variação significativa entre o diagnóstico dos netos de mulheres que utilizaram o DES (7,7% dos netos diagnosticados com TDAH) e daquelas que não utilizaram (5,3% diagnosticados com o transtorno). O sexo dos nenês não foi relevante na variação do diagnóstico.
É importante lembrar as limitações deste estudo que residem no fato de que a análise dos dados foi feita com base no depoimento das mulheres sobre as medicações usadas por suas mães. Isso associa-se a um tremendo recall bias, ou seja, quem vive um problema tem mais chance de lembrar de potenciais situações ruins do passado que pense que possa estar associadas ao problema atual. Também, por possíveis diagnósticos de TDAH equivocados – os diagnósticos de TDAH não foram avaliados por médicos mas relatados pelas mães ao entrevistadores.

Os pesquisadores alertam que deficiências neurodesenvolvimentais multigeracionais associadas com a exposição do DES in utero podem estar ligadas a outros disruptores endócrinos ambientais, como a poluição. “Já que os químicos disruptores são ubíquos, a alta prevalência da exposição e a possibilidade de consequências cumulativas precisam ser levadas em conta”, esclarecem2.

Os efeitos da exposição ao Dietilestilbestrol podem surgir de duas formas: alterações diretas na sequência de DNA ou mudanças epigenéticas, que afetam os cromossomos e a expressão dos genes, mas não a estrutura básica do DNA.

Em um editorial de acompanhamento do estudo4, Joel T. Nigg, Ph.D, do Departamento de Psiquiatria da Oregon Health & Science University (EUA), foca na possibilidade de que o risco elevado de TDAH seja resultado de mudanças epigenéticas geradas pela utilização do DES. Ele também enfatiza a relevância de compreender a complexidade dos disruptores endócrinos ambientais.
“Kioumourtzoglou e sua equipe usam uma abordagem que nem sempre é levada em conta: o exame de uma transmissão multigeracional de associações ambientais. Esta abordagem pode ser a mais relevante da perspectiva epigenética”, escreve Nigg.
“Quando se trata de uma patologia psiquiátrica, estamos uma década atrasados tanto no meio ambiente quanto na epigenética, e é por isso que a ciência verdadeiramente integrativa deve assumir o centro da questão”, diz Nigg, que conclui: “o que fica ainda mais claro é que os fatores ambientais e os mediadores de psicopatologias e desordens neurodesenvolvimentais devem ser prioridade máxima na pesquisa”.
Apesar do DES não ser mais prescrito, outros químicos que alteram o desenvolvimento fetal podem entrar no organismo dos nenês, como pesticidas, produtos de beleza e poluição do ar.

Fontes
1 KIOUMOURTZOGLOU M, et al. Association of Exposure to Diethylstilbestrol During Pregnancy With Multigenerational Neurodevelopmental Deficits. JAMA Pediatrics. 2018;172(7):670-677. doi:10.1001/jamapediatrics.2018.0727. Disponível em: <https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/article-abstract/2680954>. Acesso em: 08 de janeiro de 2019.
2 DES RAISES ADHD RISK IN GRANDCHILDREN. MEDSCAPE MEDICAL NEWS. Disponível em: <https://www.medscape.com/viewarticle/896947>. Acesso em: 038 de janeiro de 2019.
3 DES TIED TO ADHD GENERATIONS LATER. PSYCH CONGRESS NETWORK. Disponível em: <https://www.psychcongress.com/news/des-tied-adhd-generations-later>. Acesso em: 08 de janeiro de 2019.
4 Toward an Emerging Paradigm for Understanding Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder and Other Neurodevelopmental, Mental, and Behavioral Disorders Environmental Risks and Epigenetic Associations. JAMA PEDIATRICS – EDITORIAL. Disponível em: <https://relaped.com/wp-content/uploads/2018/05/4-1.pdf>. Acesso em: 038 de janeiro de 2019.

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