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MATEMÁTICA PARA CRIANÇAS COM TDAH: UM DESAFIO A SER TRABALHADO

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Post Series: TDAH & Cérebro

Matemática é algo que você usa todos os dias e que, muitas vezes, você nem percebe que está usando. Quando você avalia sobre o tempo que levará para fazer algo, quando você calcula o orçamento ou mede os ingredientes de uma receita, você está usando suas capacidades matemáticas.

Porém, resolver estes problemas pode ser um pouco mais complicado para muitas crianças e adultos com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH).

Estudantes com TDAH tendem a ter taxas mais elevadas de problemas de aprendizado em matemática do que a população geral.

O site WebMD1 prevê que até 60% dos indivíduos diagnosticados com o transtorno também desenvolvem uma desordem de aprendizado. Dentre elas, está a chamada discalculia, caracterizada por uma inabilidade ou incapacidade de pensar, refletir, avaliar ou raciocinar sobre processos ou tarefas que envolvam números ou conceitos matemáticos.

Até 7% dos estudantes do ensino básico têm discalculia, diz o WebMD. Pesquisas sugerem que é tão comum quanto a dislexia – uma desordem de leitura – mas, a discalculia não é tão bem compreendida. Na realidade, a desordem é às vezes chamada de “dislexia matemática”, mas isso pode ser confuso, já que a discalculia é uma condição completamente diferente. A escola do seu filho ou o seu médico podem chamar o transtorno de um “transtorno de aprendizagem de matemática” ou uma “desordem matemática”.

Mesmo alunos com TDAH que não se qualificam para uma desordem como a discalculia podem experienciar desafios complexos com a matemática. Estas questões podem ser vistas nos primeiros anos de escola, mas eles possivelmente prosseguirão e impactarão a vida do indivíduo durante a faculdade e a vida adulta.

Alunos com TDAH geralmente têm problemas com tarefas ligadas à matemática porque estes exercícios incorporam habilidades de leitura, escrita e, adicionalmente, conceitos de matemática construídos antes do conhecimento.

Os alunos precisam lembrar e acessar informações que eles aprenderam previamente2. Neste caso, muitos alunos têm dificuldade de lembrar dados matemáticos básicos – adição, subtração, multiplicação e divisão.

Chris Dendy, um especialista em TDAH com mais de 35 anos de atuação como professor de alunos com o transtorno, explica um pouco mais sobre o porquê da matemática causar tantos problemas para estas crianças e jovens:

“Como aprender é algo relativamente simples para grande parte de nós, simplesmente esquecemos o quão complexas estas tarefas são. Por exemplo, memorizar tabelas de multiplicação ou trabalhar em um problema matemático. Quando um aluno se debruça sobre um problema matemático, ele deve fluidamente cruzar capacidades analíticas e diversos níveis de memória (memória de trabalho, de curto prazo e de longo prazo). Com problemas cujas instruções utilizam palavras, ele precisa manter vários números e perguntas na cabeça enquanto decide os caminhos para solucionar o desafio. Depois, ele precisa mergulhar na memória de longo prazo para descobrir se ele encontra a regra matemática correta para usar no desafio. Então, ele precisa memorizar fatos importantes enquanto aplica as regras e usa informações entre diferentes memórias até encontrar a resposta.”

Ou seja, quando falamos sobre a complexidade da matemática, isso pode ser estendido para diversos âmbitos – principalmente, cerebrais.

De fato, um dos maiores especialistas do mundo em TDAH, o psicólogo Thomas Brown, Ph.D, dedicou à matemática uma parte de seu conhecido livro, “ADHD Comorbidities: Handbook for ADHD Complications in Children and Adults”.

Na obra3, Brown explica que são poucas as evidências científicas sobre a dificuldade matemática em crianças e jovens diagnosticados com TDAH. Contudo, Brown aponta que os estudos disponíveis sugerem que grande parte do problema está ligado à função executiva e ao déficit na memória de trabalho, e não a disfunções com habilidades matemáticas.

“Por exemplo, crianças sem o transtorno que estão desenvolvendo suas capacidades matemáticas, geralmente trocam a contagem nos dedos para a contagem mental por volta da quarta série”, explica o psicólogo. “Porém, crianças com TDAH continuam utilizando contagem nos dedos até a sexta série”, afirma o especialista.

A conclusão poderia ser que a contagem nos dedos significa um déficit em capacidades numéricas. Contudo, esclarece Brown, este argumento é facilmente rebatido com a descoberta de que uma única dose de metilfenidato reduz a contagem nos dedos e aumenta as respostas certas4. Isso sugere que a capacidade de contagem estava intacta, mas sendo mantida ineficiente por outros processos.

A vulnerabilidade matemática dos indivíduos portadores do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade também pode ser atribuída a uma falha na automação, que resultaria em um déficit na memória e na velocidade de processamento, sugere Thomas Brown. Por exemplo, crianças com TDAH (com ou sem transtorno de aprendizado) possuem uma capacidade de lembranças de fatos mais lenta em comparação com crianças sem a desordem. Esta diferença na velocidade prejudica a aquisição e a manutenção de fatos numéricos e este déficit resulta em uma computação equivocada, o que impede a execução de problemas matemáticos mais avançados5.

Isso sugere, diz o psicólogo, que problemas de memória podem estar por trás tanto das desordens de leitura quanto das desordens ligadas à matemática em crianças com TDAH. “Esta seria uma explicação para as altas taxas de coocorrência entre TDAH e transtornos de aprendizagem”, conclui Brown.

Metilfenidato e performance acadêmica

Um estudo6 de 2009 já previa a relação apontada por Thomas Brown entre o transtorno de aprendizagem e o metilfenidato. Os pesquisadores da Universidade de Berkeley encontraram evidência de que estudantes com TDAH, aqueles que tomavam as medicações prescritas por seus médicos, podiam ter suas notas aumentadas em termos gerais – mas ainda mais na matemática – do que alunos com TDAH que não tomavam o medicamento.

A pesquisa investigou 594 crianças diagnosticadas com o transtorno do jardim de infância até a quinta série e descobriu que 60% daqueles que tomavam estimulantes com o princípio ativo metilfenidato tinham notas superioras às dos colegas que não utilizavam a medicação.

“Nosso estudo descobriu que crianças com TDAH que eram medicadas estavam meses à frente de seus colegas sem medicação em leitura e em matemática. Isso é significativo, porque o progresso inicial na escola é crítico para o sucesso ao longo do tempo”, aponta Richard Scheffler, um dos pesquisadores7.

Ele ainda explica que crianças com TDAH que não recebem o devido tratamento têm performances ruins na escola, com taxas de evasão mais alta e mais abuso de substâncias químicas, prisões e isolamento social.

“Eles são taxados de jovens ruins”, argumentou Scheffler. “As medicações são parte da resposta, mas precisamos de envolvimento dos pais e compreensão sobre o que é o transtorno. Precisamos saber como trabalhar com a criança e engajar as instituições de ensino. Também defendemos serviços especiais nestes casos, como tutorias, que devem estar disponíveis para os alunos.”

Então, é hora de vermos como podemos nos engajar na questão, enquanto pais ou professores. Vamos dar algumas dicas retiradas do conteúdo especial da Chadd sobre o tema2, intitulado “Math Assignment Accommodations”.

Como ajudar meu filho/aluno nas tarefas de matemática?

1 – Destaques: destaque palavras e conceitos-chave com cores diferentes. É fácil para os estudantes esquecerem alguma informação importante, seja com os números ou na parte da orientação do problema. Ao destacar palavras-chave, você ajudará o jovem a lembrar os dados e a voltar a eles sempre que necessário;

2 – Tarefas impressas: imprima os problemas matemáticos para os estudantes com TDAH. É comum que estes alunos, ao copiarem tarefas do quadro, cometam pequenos erros que podem interferir completamente na solução do problema. Ao entregar as lições impressas, você minimiza a situação;

3 – Brinquedos matemáticos: compre para seu filho ou aluno brinquedos capazes de estimular o raciocínio matemático: tangran, cubos de encaixe, pirâmides, blocos lógicos, poliedros etc. Ao usar objetos concretos, eles praticarão os conceitos. Objetos oferecem maior engajamento e isso ajuda o estudante a se manter conectado com a matéria ensinada;

4 – Simplifique: exija que os alunos demonstrem o raciocínio utilizado apenas em alguns problemas. Mostrar o raciocínio requer mais tempo e aumenta a monotonia. Para avaliar a compreensão do conceito, você pode pedir que os alunos mostrem o raciocínio desenvolvido em algumas tarefas ou em apenas uma parte de cada problema;

5 – Espaço extra: deixe bastante espaço nas folhas para que os estudantes resolvam as tarefas. Pode ser um desafio extra solucionar a lição e ainda ter que organizar as informações em espaços pequenos;

6 – Evite a pressa: alunos com TDAH podem ter problemas na hora de trocar a atenção entre as tarefas, mas eles são capazes de focar profundamente nas questões que lhes interessam. Eles podem precisar de tempo extra para imergirem nos exercícios e, por isso, podem ter notas piores quando lhes for exigida a velocidade na performance;

7 – Ferramentas para focar: permita que os alunos utilizem calculadoras, tabelas ou programas de computador. Estas ferramentas possibilitam ao aluno que ele avance na complexidade dos problemas sem ter que se preocupar com déficit de memória. Softwares são bons, pois levam o aluno de um problema para o outro. Assim que uma questão é resolvida, a próxima aparece na tela. Ainda, a digitação pode ser mais fácil para alunos que lutam com a complexidade exigida pela escrita.

Fontes:

1 WHAT IS DYSCALCULIA? WHAT SHOULD I DO IF MY CHILD HAS IT?. WEBMD. Disponível em: <https://www.webmd.com/add-adhd/childhood-adhd/dyscalculia-facts#1>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

2 MATH ASSIGNMENT ACCOMMODATIONS. CHADD. Disponível em: <https://chadd.org/wp-content/uploads/2018/05/AccommodationsforMathAssignments.pdf>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

3 BROWN T. ADHD Comorbidities: Handbook for ADHD Complications in Children and Adults: 1. ed. American Psychiatric Publishing, 2008. P.203-204.

4 MOORE D, et al. Math computation, error patterns and stimulant effects in children with Attention Deficit Hyperactivity Disorder. Journal of Attention Disorders 3(3):121-134. 1999. DOI: 10.1177/108705479900300301. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/247779076_Math_computation_error_patterns_and_stimulant_effects_in_children_with_Attention_Deficit_Hyperactivity_Disorder>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

5 GEARY DC. Mathematical disabilities: cognitive, neuropsychological, and genetic components. Psychological Bulletin, 114, 345–362. 1993. DOI: 10.1037//0033-2909.114.2.345. Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/14783345_Mathematical_disabilities_Cognitive_neuropsychological_and_genetic_components>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

6 SCHEFFLER R. Positive Association Between Attention-Deficit/ Hyperactivity Disorder Medication Use and Academic Achievement During Elementary School. Pediatrics 2009;123;1273. DOI: 10.1542/peds.2008-1597. Disponível em: <https://gspp.berkeley.edu/assets/uploads/research/pdf/Pediatrics-2009-Scheffler-1273-9.pdf>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

7 CHILDREN WHO GET ADHD DRUGS SCORE HIGHER ON TESTS. REUTERS. Disponível em: <https://www.reuters.com/article/us-adhd-drugs-learning/children-who-get-adhd-drugs-score-higher-on-tests-idUSTRE53Q0GB20090427>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

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