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RECOMPENSAS: O QUE ELAS PODEM FAZER POR VOCÊ

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Post Series: TDAH & Cérebro

Um problema no sistema de recompensas do cérebro pode estar ligado a sintomas como falta de atenção, associado ao Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH). Uma pesquisa1 sugeriu que uma disfunção do sistema interfere em como as pessoas experienciam a recompensa e a motivação.

“Este déficit no sistema de recompensas do cérebro pode explicar sintomas clínicos do TDAH, incluindo desatenção e falta de motivação, bem como uma propensão para complicações como abuso de drogas e obesidade entre os pacientes”, disse a pesquisadora Nora Volkow2, diretora do National Institute on Drug Abuse.

O estudo mediu marcadores do sistema de dopamina no cérebro em 53 adultos sem medicação, diagnosticados com TDAH, e os compararam com um grupo de 44 adultos sem o transtorno.

Os resultados mostraram que os indivíduos com TDAH tinham uma redução nos receptores e transportadores de dopamina em duas regiões do cérebro que envolvem a recompensa e a motivação.

“Estes caminhos têm um papel fundamental na motivação e no aprendizado da associação de vários estímulos com recompensas”, explicou Volkow. “Os resultados que encontramos também apoiam o uso contínuo de medicações estimulantes – o tratamento farmacológico mais comum para o TDAH – que têm demonstrado aumentar a atenção em tarefas cognitivas ao elevar a dopamina no cérebro”, concluiu a pesquisadora.

O professor Chris Hollis, da Nottingham University, reforça a tese de que uma combinação de medicamentos estimulantes e uso de recompensas pode ser eficaz. Hollis foi responsável por outro estudo3, que utilizou eletroencefalogramas para analisar como recompensas imediatas atuavam no cérebro de crianças com o transtorno.

O resultado foi que ambas as abordagens, comportamental e medicamentosa, normalizavam componentes similares da função cerebral, mesmo que a eficácia da medicação seja superior, explica o professor.

A pesquisa de Hollis enfatizou que a recompensa precisa ser imediata neste caso. Por isso, diz ele, esta abordagem pode ser um pouco complicada, já que seria necessário estar ao lado da criança 24h por dia e desenvolver um trabalho conjunto com a escola4.

Os tipos de recompensas

Srini Pillay, Professor de Psiquiatria na Universidade de Medicina de Harvard, explica que há dois tipos de recompensas, Hedonia e Eudaimonia5.

Hedonia (recompensa-H) inclui prazeres superficiais, como perda de peso, boa aparência e aceitação dos outros. Estas recompensas são mais concretas e, geralmente, efêmeras.

As recompensas Eudaimonia (recompensas-E), por outro lado, se referem a um significado e um propósito que contribuem para a construção de um bem-estar geral. Conectar os objetivos do estilo de vida às recompensas-E seria, assim, uma maneira mais interessante de colaborar com a motivação.

As recompensas-E, explica o professor, ativam uma região do cérebro chamada de corpo estriado ventral. Quando esta região é ativada, o indivíduo se sente menos deprimido. Ao contrário, quando apenas as recompensas-H são ativadas, diz Pillay, isso pode gerar ainda mais depressão e falta de motivação em longo prazo.

Para manter a motivação, afirma o professor, é importante perguntar a si mesmo sobre os sentidos de significado e de propósito individuais.

O conceito de recompensas-E nos remete ao pensamento de Aristóteles, que acreditava que o mais alto nível de bondade humana não vinha da satisfação de apetites, mas sim da luta para expressar o que há de melhor em nós. Isso, dizia o filósofo, só poderia ser atingido através da autorrealização, um processo contínuo e individual, pois depende dos talentos e das disposições de cada um.

Como apontava Aristóteles, o objetivo final de todos os seres humanos é o bem-estar, que deve ser o foco primordial para atingir metas ligadas à saúde. Ao contrário de outros teóricos do tema, o filósofo explicava que recompensas-H – amigos, riqueza e poder – também têm seu valor. Mas, há mais na vida do que isso. Para realmente experienciar uma recompensa-E, é preciso sentir o florescimento da vida. Neste estado de inspiração, o indivíduo tem mais chances de se sentir motivado na conquista de seus objetivos.

Para começar este processo, sugere o professor de Harvard, reflita sobre quanto tempo do dia você dedica à alimentação deste sentido de ser.

Pillay explica que há seis áreas da vida capazes de nutrir as recompensas-E: autoaceitação, melhor qualidade nas relações humanas, controle sobre a própria vida, domínio sobre as opiniões mesmo quando os outros discordam, crescimento pessoal e desenvolvimento de um sentido de propósito intrínseco.

Se você trabalhar nestes fatores, explica o professor, é possível aumentar a motivação para conquistar mudanças duradouras, no estilo de vida. Ele argumenta que a tendência geral é focar nas recompensas-H para a conquista de metas. Mas, as recompensas-E são motores de foco adicional para manter a motivação ao longo da vida.

Fontes:

1 VOLKOW N, et al. Evaluating Dopamine Reward Pathway in ADHD. JAMA. 2009, Setembro; 302(10): 1084–1091. Doi: [10.1001/jama.2009.1308]. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2958516>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

2 ADHD TIED TO BRAIN’S REWARD PATHWAY. WEBMD. Disponível em: <https://www.webmd.com/add-adhd/news/20090908/adhd-tied-to-brains-reward-pathway>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

3 GROOM MJ, N, et al. Effects of motivation and medication on electrophysiological markers of response inhibition in children with attention-deficit/hyperactivity disorder. Biol Psychiatry. 2010 Apr 1;67(7):624-31. doi: 10.1016/j.biopsych.2009.09.029. Disponível em: <https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19914599>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

4 BEHAVIORAL INCENTIVES MIMIC EFFECTS OF MEDICATION ON BRAIN SYSTEMS IN ADHD. EUREKA ALERT. Disponível em: <https://www.eurekalert.org/pub_releases/2010-04/uon-bim041510.php>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

5 THE MISSING REWARDS THAT MOTIVATE HEALTHY LIFESTYLE CHANGES. HARVARD MEDICAL SCHOOL. Disponível em: <https://www.health.harvard.edu/blog/the-missing-rewards-that-motivate-healthy-lifestyle-changes-201603179301>. Acesso em: 06 de dezembro de 2018.

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