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MEU FILHO CULPA TODO MUNDO POR SEUS ERROS – exceto a si mesmo. O que fazer?

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Post Series: TDAH & Cérebro

“Não fui eu”.

Uma frase típica nas crianças e nos adolescentes, mas, ainda mais típica naqueles diagnosticados com TDAH. A lista de justificativas apresentadas vai crescendo e os supostos culpados vão sendo indicados. Foi o gato, o cachorro, o professor, o irmão. Com o passar dos anos, as justificativas vão se complexificando: “foi minha infância com TDAH”, “é o meu cérebro que não consegue fazer” etc.

Outro comportamento muito comum é a fuga do enfrentamento: isso pode acontecer quando o jovem inventa incontáveis novos conflitos para não falar a respeito do que fez ou quando simplesmente se fecha e nada mais consegue ser discutido.1

Entre justificativas, culpados e fugas, fica a pergunta: afinal de contas, por que crianças e adolescentes com TDAH não conseguem admitir os próprios erros?

Não, não é apenas manha ou negação. Muitos pacientes não conseguiram atingir um bom desenvolvimento da chamada metacognição, a capacidade de refletir sobre seus próprios atos, pensamentos ou sentimentos. Estas pessoas terão dificuldade de perceber quando são tomadas por devaneios e de compreender o comportamento adequado para determinado contexto.2

Quando uma pessoa sofre de alguma desordem e não percebe seus sintomas (ou até a própria doença), ela tem a chamada anosognosia.

Anosognosia

Derivada do grego “doença” (nossos) e conhecimento (gnosis), a anosognosia é um fenômeno clínico em que o paciente com uma disfunção cerebral parece desconhecer a deterioração da função neurológica ou neuropsicológica, que é evidente para os médicos e para as outras pessoas. Ela afeta anatomicamente as regiões do cérebro envolvidas na consciência, resultando em uma diminuição da capacidade de reconhecer a gravidade das deficiências.

A consciência que temos de nós mesmos fica relegada a um segundo plano e não consegue integrar as informações como parte de nós; é como se o transtorno ou seus sintomas não existissem.

O universo do seu filho

É fundamental que você perceba que aquilo que parece ser tão óbvio para você e para outros observadores pode permanecer invisível ou distorcido para pessoas com TDAH. Até que você, mãe ou pai, aceite esta realidade, o risco que você corre é de elevar sua impaciência ou irritação e, assim, acabar minando sua relação com seu filho.

Ao lidar com essas situações, mantenha uma máxima em mente: o órgão que está causando tantos problemas para o seu filho é o mesmo órgão que seu filho está utilizando para avaliar os problemas.3

Como desenvolver o sentido de responsabilidade no jovem com TDAH

Tipicamente, as crianças com TDAH vivem no presente e consideram muito difícil olhar para o futuro ou desenvolver uma relação direta com o passado. Uma vez que o momento passou, ele literalmente se torna uma história: esta é uma das principais razões pelas quais elas não conseguem assumir responsabilidade por estas narrativas.

Porém, juntamente com uma estrutura familiar e escolar coesa, a terapia comportamental fornece ferramentas muito úteis para o desenvolvimento do sentido de consequência. Estas estratégias funcionam, porque são capazes de expressar claramente as performances positivas e negativas do seu filho. Utilize cartões, adesivos, estrelinhas e outros motivadores que marquem visivelmente o que são boas ou más atitudes. Aposte em ferramentas que reforcem, de forma clara e rápida, as consequências dos atos.

Lembre-se: jovens com TDAH precisam perceber os reflexos de suas ações assim que elas acontecem. Eles dificilmente serão motivados por objetivos de longo prazo, como uma viagem ao final do ano ou qualquer presente em um futuro distante por seu bom comportamento. Recompensas objetivas, consistentes e imediatas são, portanto, vitais para que as ferramentas comportamentais funcionem.

Encontrar recompensas positivas para seu filho pode ser um desafio, mas a grande maioria se sentirá motivado por alguma coisa. Envolver seu filho no processo de escolha das recompensas é uma maneira de garantir o sucesso da estratégia. As recompensas baseadas em atividades podem variar muito de acordo com a idade do seu filho e podem ir de um tempo extra no computador ou mais idas ao parque para as crianças menores.

O reforço das consequências negativas exige bastante cuidado e deve ser usado como parte de um processo gradativo e tático. O primeiro passo é a resposta não-verbal à má atitude. Um olhar severo, a retirada da criança do ambiente para se acalmar, uma conversa. Tudo deve seguir uma escalada na gradação das ferramentas e os próximos passos só devem ser tomados se o primeiro não funcionou. Não há necessidade de longas discussões se o seu filho compreendeu o que fez com um olhar seu, certo?

Regras são outro fator essencial em qualquer terapia comportamental Novamente, as ferramentas fornecem estrutura e previsibilidade, tudo que uma criança com TDAH precisa. As regras na escola ou em casa precisam ser simples e diretas – não mais do que quatro ou cinco regras fundamentais do lar – e que podem ser ilustradas em cartões, quadros ou pôsteres em diferentes ambientes.4

1 HOLDING ADD & ADHD INDIVIDUALS RESPONSIBLE. JONATHAN CARROL M.A. Disponível em: <http://adhdefcoach.com/2012/01/11/holding-add-adhd-children-responsible>. Acesso em: 29 de agosto de 2018.

2 ADHD CHILD, WHY IS IT NEVER THEIR FAULT?. INTENSIVE CARE FOR YOU. Disponível em: <https://intensivecareforyou.com/adhd-child-why-is-it-never-their-fault>. Acesso em: 29 de agosto de 2018.

3 PERA, G. Is it You, Me, Or Adult A.D.D.?: 1. ed. Chicago: Alarm Press, 2008. P.185-193.

4 ATTENTION DEFICIT HYPERACTIVITY DISORDER (ADHD) TEACHERS’ PACK. DAVID JENKINS CHARTERED EDUCATIONAL PSYCHOLOGIST. Disponível em: <https://www.dronfield.derbyshire.sch.uk/site_content/unsecure/sen/SEND-teachers_booklet_for_ADHD.pdf>. Acesso em: 29 de agosto de 2018.

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