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FUNÇÕES EXECUTIVAS E TDAH

Funcaoexectdah
Post Series: TDAH & Cérebro

A função executiva é uma função do cérebro incrivelmente complexa e multifacetada envolvendo:

– organizar e definir prioridades
– focar e mudar o foco
– regular o estado de alerta
– manter o esforço
– administrar os resultados
– regular a velocidade de processamento de informações na mente
– utilizar a memória
– monitorar e controlar de atitudes1

Modelos de Função Executiva

As funções executivas do cérebro estão relacionadas a situações em que “comando” e “controle” são necessários. Nesse sentido, estas funções podem ser vistas como as grandes condutoras das habilidades cognitivas. 2 Como diz, o psicólogo Thomas Brown, elas representam o maestro de uma orquestra. Sem ele, todos os instrumentistas podem ser ótimos, mas o resultado final não será bom! Ele vai definir as prioridades a cada momento, mudar o foco de um instrumento para outro!

Dois reconhecidos pesquisadores do Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade avaliam a função executiva com modelos diferentes. Falamos de Russel Barkley, Ph.D, e do já mencionado Thomas Brown, Ph.D.

O modelo de Barkley é baseado na ideia de que a incapacidade de autorregulação é a raiz de muitos desafios enfrentados por indivíduos com TDAH. Ele explica que os portadores do transtorno podem ser incapazes de reter respostas, portanto, agindo impulsivamente, sem consideração adequada às consequências futuras – sejam elas benefícios ou malefícios.3

Há incontáveis vídeos com Russell Barkley no YouTube. Muitos estão legendados em português.

Outro reconhecido pesquisador é Thomas Brown, Ph.D. Brown divide as funções executivas em seis conjuntos diferentes, que veremos logo a seguir. Segundo Brown, estes conjuntos operam de maneira integrada. Para ele, pessoas com TDAH tendem a sofrer falhas em cada um dos grupos, mesmo que em variados graus. Como estas falhas geralmente aparecem juntas, Brown defende que elas estão clinicamente relacionadas.4

Assista aos vídeos com Tom Brown e outros especialistas em TDAH no canal do Understood
https://www.youtube.com/playlist?list=PL0Kjy0JtEbaQK16g3JLMnjUTZAznDooBJ

Vamos observar cada um dos conjuntos descritos por Brown e conhecer o que o especialista concluiu sobre o comportamento dos portadores de TDAH ao longo dos anos em seus estudos e práticas:1

1 – Organização, priorização e ativação de tarefas

– Impulsivo ou procrastinador?
Mesmo que muitas pessoas associem o TDAH ao comportamento impulsivo (falar ou agir rápido demais, sem pensar), é inegável que muitos portadores da doença sentem dificuldade em iniciar determinadas tarefas. Apenas quando confrontados com consequências graves em um futuro imediato, os portadores do transtorno conseguem se motivar suficientemente para começar estas tarefas.

– Como priorizar?
Indivíduos com TDAH reclamam com frequência que é muito difícil elencar o que é mais importante. Grande parte da nossa rotina cotidiana exige esta capacidade de sequenciamento, definindo o que é urgente e o que pode ser feito.

– Expectativas irreais
Uma tendência similar aparece quando os pacientes ignoram as limitações reais em suas listas de afazeres. Eles parecem não ter noção de quantas tarefas conseguem realizar em um determinado período de tempo. Muitos criam listas com 30 itens para um único dia – algo que uma pessoa sem o transtorno dividiria em semanas ou até meses.

2 – Focalização, manutenção e mudança de atenção

– A mais comum das queixas
Uma das queixas mais comuns dos pacientes é que eles não conseguem focar ou manter o foco. Pode ser muito difícil, para eles, dar atenção à voz no telefone ou às palavras em uma página.

– Impossibilidade de ignorar distrações
Outra faceta do problema é a distração. Mesmo que estejam focados em algo, os portadores do transtorno são rapidamente retirados deste estado por qualquer distração. Bem, todos passam por isso. Porém, o cérebro com TDAH parece não ser capaz de bloquear as distrações – é uma dificuldade crônica de afastar ou ignorar estímulos externos.

3 – Regulação do estado de alerta, sustentação de esforço e processamento de velocidade

– Sono fora de hora
Muitos portadores do TDAH reportam uma sensação de sonolência intensa – ao ponto de não conseguirem manter os olhos abertos – quando precisam ficar quietos e parados. Isso não ocorre quando estão ativos, movimentando-se ou conversando. Mas, se torna um desafio real quando precisam ler, assistir a uma palestra ou dirigir em estradas sem engarrafamentos. É como se os pacientes só fossem capazes de se manter alertas quando estão verdadeiramente engajados em comportamentos que deem constante feedback motor, social ou cognitivo.

– Lentidão para executar tarefas
Não é incomum ouvir que pessoas com TDAH levam muito tempo para ler ou escrever. Há um problema crônico de processamento de tempo. É uma lástima que muitas pessoas acreditem que eles sejam lentos ou preguiçosos – quando, na realidade, eles estão impossibilitados de coordenar e integrar as capacidades múltiplas que a escrita e a leitura exigem.

– Rápidos e lentos demais: ao mesmo tempo
Uma questão comum é observar lentidão para determinadas questões, mas rapidez excessiva para outras – ao ponto de não conseguirem enxergar ou prever erros. É como se eles não pudessem regular a velocidade de processamento para algumas tarefas.

4 – Administração da frustração e modulação das emoções

O critério para diagnóstico do TDAH, com base no DSM-5 não prevê qualquer item relacionado às emoções. Porém, Dr. Brown afirma que muitos pacientes relatam imenso esforço para lidar com elas.

– Avalanche de emoções
Reações desproporcionais são frequentes e os pacientes comparam as emoções com uma onda que invade a mente, tomando conta de tudo. A intensidade dos sentimentos pode sufocar a capacidade de raciocínio. Assim, a influência destas emoções pode ser muito maior sobre os sequentes pensamentos e atitudes, o que leva ao conhecido falar ou agir sem pensar.

– Hipersensibilidade
Muitos pacientes se descrevem como sensíveis e reativos demais aos mais insignificantes comentários ou críticas. É difícil, para eles, modular emoções e sentimentos.

5 – Utilização da memória de trabalho e acesso a lembranças

– Reter informação
Dificuldades crônicas com a memória são um dos problemas fundamentais do TDAH. Porém, as falhas envolvem o que chamamos de memória de trabalho. A memória de trabalho tem muitas funções – uma função importante é a capacidade de segurar uma informação ativa enquanto trabalha com outra informação, como janelas no navegador do seu computador.

Manter uma comunicação recíproca é muito difícil quando a memória de trabalho está prejudicada – algo comum nos pacientes de TDAH.

– A dificuldade da leitura e da escrita
O exercício da leitura também depende da memória de trabalho, já que a pessoa precisa reter na mente os sons simbolizados pela primeira parte da palavra enquanto decodifica o som das últimas letras para reconhecer, assim, a palavra final. Ainda, será preciso puxar da memória os significados associados àquela palavra e segurar este significado na mente para conectá-lo com as palavras que virão, formando frases, parágrafos e textos inteiros.

– Números
A memória de trabalho também é essencial para a matemática, por mais simples que pareça o exercício. Se a pessoa não conseguir reter na mente os números necessários para executar os cálculos, as respostas dificilmente estarão corretas. Quanto mais complexa a operação, maior a dificuldade. Imagine quando se trata de uma sequência de operações: álgebra e geometria se tornam praticamente incompreensíveis.

6 – Monitoramento e autorregulação de atitudes

Pesquisas identificaram a incapacidade de inibir como o núcleo da hiperatividade e da impulsividade no TDAH. Russell Barkley (1997)5 argumenta que falhas na capacidade de inibição são o problema primordial do TDAH. Ele diz que a capacidade de inibição é a base para a eficácia de todas as funções executivas afetadas pelo transtorno.
Contudo, diz Dr. Brown, supervalorizar esta capacidade ao ponto de colocá-la como eixo central do TDAH é ignorar a conexão essencial entre ações de contenção e engajamento.

– Relacionamentos sociais
Situações sociais estão entre as questões mais desafiadores para quem sofre de deficiências no monitoramento e na regulação de ações. Como pessoas com TDAH têm dificuldade de monitorar o contexto das situações, é grande a chance de que prestem atenção a detalhes desimportantes e percam o que há de mais relevante no momento.

É comum que não consigam notar as reações dos outros ou como eles próprios estão sendo percebidos pelos outros. Este monitoramento fica ainda mais difícil quando há uma interação intensa entre várias pessoas.1

Desordem na Função Executiva ou TDAH?

Em muitos casos, TDAH e desordens na função executiva andam juntas. Isso ocorre porque muitos sintomas do TDAH também são os sintomas de quem sofre de problemas na função executiva. Mas, há uma importante diferença entre as desordens, sugere Brown:

TDAH é um diagnóstico oficial. Desordens na função executiva não. É apenas um termo utilizado para falar de deficiências no sistema de autorregulação do cérebro. Ainda, problemas com a função executiva não são encontrados apenas em crianças com TDAH. Muitas crianças sem o transtorno lutam com uma ou mais das capacidades ligação à função.6

Brown criou uma tabela com diferentes sintomas e sinais que podem ajudar os pais a perceberem as diferenças. Clique aqui para acessar a tabela.

Já Barkley, defende que o TDAH é uma desordem de autorregulação e que, para ter a capacidade de autorregulação funcionando, é preciso ter as funções executivas intactas.

Para lidar com os sintomas do TDAH, enfatiza o pesquisador, é preciso compreender que o déficit na função executiva pode ser compensado por modificações no ambiente, por estruturas que facilitem para o portador do transtorno usar sua própria capacidade de autocontrole.3

Enquanto um número crescente de artigos e livros se referem ao TDAH como uma “desordem na função executiva da mente”, há sim ideias conflitantes sobre como o TDAH e a função executiva se relacionam.

Uma teoria sugere que algumas pessoas que se enquadram em determinados critérios de TDAH também sofrem de deficiências na função executiva.

Outro ponto de vista alternativo diz que todos os indivíduos com TDAH sofrem de significativa deficiência na função executiva e que, assim, o TDAH é, essencialmente, uma desordem da função executiva.

O importante é que estas noções se tornam conflitantes porque têm compreensões diferentes da natureza da função executiva – cada uma destas teorias levará a diferentes conclusões sobre a natureza do TDAH e sobre a relação do transtorno com outras desordens do aprendizado.7

Como ficam as funções Executivas na vida adulta?

Dr. Ross Greene, Ph.D, autor de livros sobre TDAH e criador da ONG Lives in the Balance, normalmente se refere aos pais de crianças com o transtorno como sendo os lobos frontais dos filhos.8 Ou seja, os pais assumiriam as tarefas que o cérebro do filho não é capaz de executar: organização, planejamento, memória e toda administração da vida do pequeno, sem que ele perceba o esforço dos pais.

Porém, quando os portadores do TDAH crescem, os pais não conseguem mais assumir este papel. As habilidades executivas, portanto, tornam-se cruciais. A vida adulta é marcada pela necessidade de assumir diversas tarefas ao mesmo tempo.

Uma vez que seu filho chegar à maturidade, ele possivelmente não poderá se dar ao luxo de ter outro adulto cuidando destas questões. Por isso, é frequente que o cônjuge de alguém com desordens na função executiva reclame que precisa “cuidar de mais uma criança”, o que adiciona uma grande dose de estresse na vida marital.

A boa notícia é que o tratamento do TDAH reduz os sintomas a um grau que permite a condução de vidas e carreiras produtivas, estimulantes e recompensadoras. Contudo, para finalizar, é muito importante notar que “pílulas não ensinam habilidades”, especialmente no caso de deficiências executivas – portanto, apenas a medicação não significa abandono completo de psicólogos e profissionais de saúde capazes de ensinar ferramentas e métodos eficientes para lidar com os problemas reais que a desordem pode causar.7

1 EXECUTIVE FUNCTIONS – DESCRIBING SIX ASPECTS OF A COMPLEX SYNDROME. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: https://chadd.org/wp-content/uploads/2018/06/ATTN_02_08_Executive_Functions_by_Thomas_Brown.pdf . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

2 EXECUTIVE FUNCTION DEFICITS TIED TO ADHD. ADDITUDE. Disponível em: https://www.additudemag.com/7-executive-function-deficits-linked-to-adhd/ . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

3 EXECUTIVE FUNCTION SKILLS. THE NATIONAL RESOURCE ON ADHD. Disponível em: http://www.chadd.org/understanding-adhd/about-adhd/executive-function.aspx . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

4 PETERSEN C; WAINER R. Terapias cognitivo-comportamentais para crianças e adolescentes: 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. P.138-141.

5 THE IMPORTANT ROLE OF EXECUTIVE FUNCTIONING AND SELF-REGULATION IN ADHD. RUSSELL BARKLEY. Disponível em: http://www.russellbarkley.org/factsheets/ADHD_EF_and_SR.pdf . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

6 THE DIFFERENCE BETWEEN ADHD AND EXECUTIVE FUNCTIONING ISSUES. UNDERSTOOD. Disponível em: https://www.understood.org/en/learning-attention-issues/child-learning-disabilities/executive-functioning-issues/difference-between-executive-functioning-issues-and-adhd . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

7 THE DIFFERENCE BETWEEN ADHD AND EXECUTIVE FUNCTION DISORDER. C8SCIENCES. Disponível em: https://www.c8sciences.com/difference-between-adhd-and-executive-function-disorder/ . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

8 Executive Functioning and ADHD. CENTRE FOR ADHD AWARENESS CANADA. Disponível em: http://caddac.ca/adhd/understanding-adhd/in-general/executive-functioning/ . Acesso em: 31 de agosto de 2018.

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